Jornal do Brasil - 1995


por João Nogueira

Jogando por música

Conheço Chico Buarque há muitos anos e o futetol fez a aproximação. Foram muitas peladas descontraídas no campo do Polytheama e em nossas viagens a Angola e Paris, onde aproveitávamos as folgas para não pensar em nada, como afirma meu compadre. Quando fui convidado a gravar para o produtor Almir Chediak o projeto Letra e música - Chico Buarque, descobri o desafio de cantar suas melodias muito bem elaboradas. Nesta entrevista, após mais uma partida de futebol, falamos da inspiração, das várias maneiras de se compor, dos parceiros, de samba, de nossos mestres geniais: Noel, Ismael, Tom e muitos outros. Fiquei feliz e surpreso quando me perguntou sobre meu querido pai, também João Nogueira, considerado em sua época grande violonista, sobre minha atividade anterior à música, filhos, os netos. . Muito me emocionou gravar este disco, cantei os tradicionais sambas deste sambista maior e ainda me aventurei em suas canções. Chico me falou de sua surpresa ao me ver interpretar Bastidores, Olhos nos olhos, Gota d 'água e, grato, ouvi também seus elogios. Posso até ser um bem sucedido intérprete, mas acho que, na condição de repórter e centroavante, sou melhor como sambista...

JB - Quando gravamos o disco desse projeto do Letra e música, queríamos mostrar o Chico musicista, que, embora muita gente deixe de observar, é tão maravilhoso quanto o Chico letrista. E eu notei que mesmo em canções aparentemente de melodia mais simples, escondem-se nuances harmônicas complexas. Queria saber a que você dá mais importância na hora de compor: à música ou à letra?

Chico - Isso me lembra uma conversa com o Nelson Cavaquinho, em que ele chegou para mim e disse: "O importante é a música, não a letra " Achei engraçado ele falar aquilo As minhas primeiras músicas eram bastante simples, até por falta de maior conhecimento harmônico. A partir do meu contato com Tom Jobim, quando começamos a fazer nossas primeiras parcerias, foi que eu comecei a estudar e a me preocupar com a harmonização. E eu me considero um bom harmonizador. Aliás, eu acho, às vezes, que eu sou melhor músico do que letrista.

JB - Mas o que vem primeiro?
Chico - Se alguma coisa nasce antes, é a música. A letra procura vir atrás, acompanhar a música. É como em todas as minhas parcerias, com Tom, Edu, Francis, quando tento descobrir a palavra que merece aquela frase musical.

JB - Nas minhas parcerias com o Paulinho Pinheiro (Paulo César Pinheiro), a gente procura fazer junto...
Chico - Ah é? Como é que é isso, hem?

JB - Eu entro um pouquinho na letra e ele, na música. Acho mais fácil assim, e também dá mais tesão. Quando acaba a música, dá aquela alegria e a gente começa a cantar ela junto, umas 300 vezes...
Chico - É, isso é muito bacana, mas não consigo fazer assim, não. Eu faço escondido. Quando componho letra e música fico trancado, sozinho. Quando é parceria, levo a música pra casa numa fitinha e depois mostro quando está pronta ao meu parceiro. Mas eu gostaria de fazer do teu jeito. Vinicius também sabia escrever na sala de jantar e Villa-Lobos compunha no meio da bagunça

JB - Você faz muitas músicas como se fosse uma mulher falando, usa esse seu lado faminino...
Chico - A primeira música que eu fiz no feminino, a Com açúcar com afeto, foi uma encomenda da Nara Leão. O tema que ela me pediu era essa coisa da mulher sofredora, que fica em casa. Depois passei a fazer canções para personagens do teatro. Mas isso é uma tradição antiga da música brasileira. Eu me lembro do Ary Barroso, compondo, cantando no feminino. Era engraçado ouvir Camisa amarela na voz dele. Misteriosamente, nós temos mais compositores do que compositoras e mais cantoras do que cantores. Temos muitos cantores compositores, mas cantor, cantor são poucos. Agora o que mais me surpreende no repertório desse seu disco é você estar tão à vontade cantando as minhas canções no feminino. Essa sua súbita feminilidade tem alguma coisa a ver com sua antiga profissão de vitrinista?

JB - Não, tem a ver com o autor mesmo...(risos)
Chico - Agora fala como é que você arrumava uma vitrine.

JB - De vez em quando eu tinha que fazer uma pose de macho, porque sempre aparecia alguém me olhando meio esquisito...(risos)
Chico - Mas aquilo era o teu lado feminino, não?

JB - Era o meu lado financeiro. Mas, mudando de assunto , você se considera um sambista?
Chico - Aprendi a tocar violão tocando bossa nova, que é samba. Quando pego o violão, a tendência natural é que dali saia um samba, é a minha formação. Então, me considero um sambista.

JB - Todo mundo diz que você é o herdeiro musical do Noel Rosa, embora já tenha ouvido você dizer que sua maior influência era o Ismael Silva...
Chico - Teu pai tocou com Noel, não foi?

JB - Tocou com ele, com Jacob do Bandolim, era craque do violão...
Chico - Quando eu falei que a minha maior influência era o Ismael foi um pouco para lembrar o nome dele, que andava esquecido. O Noel também já esteve um pouco esquecido, mas tem um apelo maior. Mas fui influenciado por todos eles.

JB - Aracy de Almeida é considerada a melhor intérprete de Noel. Quem seria o ou a melhor intérprete de Chico Buarque?
Chico - Não tenho nenhum preferido, João. (pausa, pensativo) Bem, eu deveria dizer que é você, né? (risos)

JB - Seria a resposta que eu não esperaria nunca. Comecei agora, pode ser que eu ainda venha a ser um grande intérprete do Chico...
Chico - Comecei a fazer músicas sem pensar em cantá-las. Minha grande ambição era ser cantado por outros cantores...

JB - Então você não tem ciúmes de ouvir suas músicas na voz de outra pessoa?
Chico - Muito pelo contrário. Eu gosto mais de me ouvir cantado por outras pessoas do que por mim mesmo. Eu tinha 2O, 21 anos quando a Nara gravou três músicas minhas no disco dela. A Nara, na época, era a grande estrela da MPB.

JB - Eu também comecei assim, com a Elizeth Cardoso. Mas gosto muito de te ouvir cantando, gosto dessa coisa do compositor interpretar a própria música. Te incomodam declarações como a do Billy Blanco que recentemente brincou dizendo: "A única coisa que eu faço melhor que o Chico é cantar mal"?
Chico - Não me incomoda, não. Quando comecei a cantar, naqueles festivais, ficava nervoso mesmo. E um sujeito nervoso tem menos fôlego, não sustenta as notas, pode desafinar. A gente depois amadurece, fica mais tranqüilo, a voz sai melhor. E eu fiquei 13 anos sem fazer um show sozinho, aparecia apenas em algumas participações especiais. E quando você começa um show, a voz só começa a esquentar lá pela quarta, quinta música
Aí você vai fazer uma temporada, você vai, estréia lá e daqui a... (pausa para cálculo) daqui a cinco meses a coisa começa a funcionar bem. (risos)

JB - Mas você progrediu muito...
Chico - Obrigado. Mas não ligo para essa história não, até porque tenho mais prazer em cantar músicas de outros compositores do que as minhas próprias. Nesse show tão falado aí do réveillon, eu me lembro do prazer que senti ao cantar músicas do Tom que eu nunca havia cantado.

JB - Você vem alternando projetos de música e literatura. Agora, que lançou Benjamin, já vem por aí disco novo?
Chico - Por enquanto ainda não sei o que vou fazer. Estou com vontade de fazer música, mas o livro ainda está me ocupando muito, com as traduções lá de fora, que eu tenho que acompanhar essas coisas....

JB - Sobra tempo pra bater uma bolinha? O futebol ainda é uma paixão?
Chico - São três peladas po semana. Jogo bola para não pensar em absolutamente nada .

JB - É por isso que você ensinou o teu cachorro Minguilin a não tirar aquela bola de tênis da boca?
Chico - Jogar bola é isso, você volta a ser aquele cachorro que no fundo você é (risos). Existe uma certa mania de intelectualizar o futebol, mas eu acho isso uma bobagem, não consigo falar mais de dois minutos sobre futebol. Eu gosto é de jogar.

JB - Maracanã, então, nem pensar...
Chico - Sou tricolor e vou ser a vida inteira, mas não me identifico com a torcida do Fluminense. Até hoje não consigo entender por que cantam aquela música da "bênção, João de Deus". Eu ouvia cantar aquilo, morria de vergonha. Deixei de ir ao Maracanã. Além do mais, gosto do futebol ofensivo, o que foge à tradição do Fluminense. Aí vem o Palmeiras e...

JB - Se você pudesse escolher outra vez, você escolheria o Fluminense?
Chico - Não existe isso, porque você não escolhe um time. Você escolhe um time por influência de alguém, ou para contrariar alguém. Fui levado por minha mãe, que era tricolor, e passei a torcer pelo clube. Ou você é ou não é. Sou tricolor, e acabou.

JB - Do atual time do Fluminense, de quem você gosta?
Chico - Gosto muito do Vampeta. Muita gente fala mal dele, mas ele é muito bom. Semana passada mesmo fez dois gols. O engraçado é que ele introjetou tanto essa avalanche de críticas, que outro dia chegaram para ele dizendo: "O Chico Buarque anda elogiando o seu futebol." Aí ele respondeu ao repórter: "Não é ironia, não??" (risos)

JB - Você conta os gols que faz pelo Polytheama?
Chico - Não sou artilheiro, então conto apenas as assistências. (risos) Você é que quase foi profissional...

JB - Não, jogava direitinho, mas nunca passei de time de várzea. Agora, era dificil tomar a bola de mim, enquanto eu estava inteiro, né. Mas você é que, está inteirinho, tá fumando pouco, aí fica mais fácil, né? Só bebendo café... é por isso que você corre tanto? (risos)
Chico - Que isso... Nem tanto.

JB - Você concorda quando dizem que depois da nossa geração a MPB entrou em crise?
Chico - Não acredito que exista crise. Nos anos 60, quando escrevi a Rita, que falava daquele bom disco de Noel, o tempo de Noel Rosa me parecia remotíssimo. Mas é que, entre os anos 30 e 6O, Noel morreu tuberculoso, Ismael Silva esteve preso, Cartola lavava carros, Assis Valente suicidou-se, Ary Barroso virou vereador e locutor de futebol. Agora eu faço as contas e vejo que se passaram os mesmos 30 anos, desde que surgiu a minha geração. Se parece que ocupamos muito espaço é porque não houve solução de continuidade, estamos aí trabalhando. Mas ao mesmo tempo surgiu, e continua surgindo, um monte de gente boa: de Djavan, Fagner e Belchior até Paulinho Moska, Cássia Eller e Zélia Duncan. Essa é uma pergunta que me fazem há 20 anos. Não acredito em crise.

JB - O que está achando da perspectiva de ser avô?
Chico - Estou felicíssimo. Mas você é que já é avô, sabe melhor do que eu. Como é que é, conta pra mim...

JB - É fantástico. Minha netinha, Juliana, já tem cinco anos. Quando soube que minha filha estava grávida, pedi muito a Deus para não morrer antes de escutar ela me chamar de vovô... O que que você está esperando, um menino ou uma menina? Acho que um menino é mais legal, hem...
Chico - É menino.

JB - É menino!? Pôxa, foi tua filha que veio te dar essa forra, hem Chico! (ele tem três filhas mulheres) E já pintou alguma parceria com o genro, o Carlinhos Brown?
Chico - Por enquanto, não. Mas sou fã do Carlinhos Brown, é uma grande figura, um grande músico.

JB - O que você achou das declarações do Bruno Tolentino dizendo que era um absurdo cantores-compositores como você e o Caetano serem tratados como poetas nos currículos escolares?
Chico - Não acompanhei muito isso, não. Essa questão é meio antiga. Letra de música não pretende ser nada além de uma letra de música. Mas pode ter uma qualidade poética maior do que uma poesia sem música. Por outro lado, se eu for musicar um poema do João Cabral de Melo Neto ou da Cecília Meirelles, no momento em que eu coloco a música, aquilo deixa de ser poesia, vira letra de música? Não tenho dúvida de que as letras do Caetano tenham qualidade poética para serem estudadas e virarem tema de vestibular. Mas não faço questão de ser chamado de poeta.

JB - Ainda confundem o Chico escritor com o compositor?
Chico - Sem dúvida. Tem gente que compra o meu livro achando que vai encontrar ali o compositor. Mas a tendência do leitor é saber discernir uma coisa da outra, o músico do escritor. Benjamim deverá vender menos que Estorvo, e o meu próximo livro provavelmente vai vender menos ainda, até cair na realidade do público de um escritor de uma literatura que não é fácil, que não pretende ser popular.

JB - A censura foi um pesadelo na sua vida na época da ditadura. Agora que ela acabou, fazer música com temática política também virou coisa do passado?
Chico - Não tenho muito gosto pela política, para dizer a verdade. Tive uma atuação política mais evidente naquela época, porque era necessário, não havia outra solução para mim. As circunstâncias me levaram a fazer aquilo. Mas se você contar as músicas que fiz naquela época, vai ver que as engajadas eram poucas, se comparadas ao resto da obra. E eu tive canções de amor que também foram censuradas e, no entanto, não tinham sido compostas com a intenção de entrar naquela briga. As músicas de temática social são uma tradição da MPB e tinham uma característica única de serem cantadas no carnaval. E isso acontece até hoje, nos blocos, como o teu, o do Clube do Samba. O deste ano mesmo, qual foi o tema?

JB - No bloco da Federal, a pasta rosa é a maioral... (risos)
Chico - Como é que era mesmo?

JB - O refrão era assim: Nossa terra tem gente muito generosa/se pintar uma sujeira passa a pasta rosa... Há 17 anos a gente faz isso.
Chico - Dava pra contar a história recente do Brasil através desses sambas de bloco. Poderia até cair no vestibular. Mas não em Literatura, em História, para poeta nenhum reclamar...(risos)

JB - Dia 1° a gente vai estrear o show de lançamento do disco, no Teatro Joso Caetano. Eu sei que você não pôde ir à estréia do Ney (Matogrosso, que também acaba de lançar um disco em que só interpreta composições de Chico Buarque e estreou semana passada no Canecão) , mas eu queria deixar aqui o convite.
Chico - Tá querendo me deixar mal com o Ney, né...(risos)


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