O Globo - 04/02/85


Chico vai passando para o clima
da Nova República

Sinal dos tempos, ele aderiu ao vídeoclip. Sinal dos tempos, ele não briga (tanto) contra a censura, mas contra o desemprego dos músicos. Atento, ouve o som dos novos tempos e acha que o rock ainda encontra um caminho mais brasileiro, "a partir de uma revalorização do Brasil como projeto".

Já vão longe os tempos de medo da platéia e avisa, para quem tem esperança, que seu show vai passar. Já vão longe os tempos em que "artista que ia a Cuba voltava prestando depoimento". Ele tem esperança de que Tancredo reate relações com aquele país.

Neste novos tempos, Nova República, ele, mineiramente, mede as palavras ao falar do futuro presidente.

No mais, um encontro memorável com seu ídolo de infância, Pagão.

Com Licença Chico Buarque de Hollanda vai passar.

O Globo - Chico, por que você aderiu ao videoclip?

Chico - Hoje você depende da veiculação de clip a nível nacional. Só uma vez você faz gravação, externas, o que para mim é cômodo. Não preciso gravar para TV sempre. Outro aspecto é o lado criativo. A partir desta experiência, já posso, quando estiver gravando um disco, fazer música pensando no clip. Ele passa a ser um terceiro elemento, o diretor é o terceiro parceiro. Como tenho uma forte ligação com o cinema e o teatro, para mim é estimulante. O Walter Lima disse até que minhas letras já são verdadeiros roteiros de clip, com história, seqüência. Mas não é fazer uma redundante. Tem que se levar em conta a imagem como elemento estimulante. Não é que eu vá fazer clip, mas já pinta a idéia.

O Globo - Em clip, você gravou "Brejo da Cruz" e "Vai Passar". Existe uma sequência de intenção em "A Banda", "Apesar de Você" e "Vai Passar"?

Chico - Talvez seja uma forma de localizar nesta trilogia, como poderia ser em "Pedro Pedreiro", "Construção". Vendo o clip de "Vai Passar", realmente parece a banda passando. Tem um parentesco. Algo a ver com este sentimento de esperança.

O Globo - Pela primeira vez, você acompanhou o disco em todo o seu processo de execução. Por quê?

Chico - Foi uma novidade. Antes costumava delegar poderes. Gravava preguiçosamente. Compunha, ia ao estúdio, gravava, depois a gravadora trazia o arranjador. Recebia tudo de bandeja, pronto. Nesse caso, não. Comecei a discutir com o Homero (produtor), com o Chico Batera (coprodutor) e o disco começou a surgir do nada. Comecei a me estimular com os papos intermináveis sobre o espírito da coisa e só fiquei sozinho quando compus.

O Globo - Você compõe sozinho, mas ainda precisa mandar suas letras para a "parceira" censura. Como é que está, para você, a questão da censura?

Chico - Ainda vai se discutir muito. Houve um grande salto de 76 pra cá, mas antes de 68 não havia censura prévia, e trabalhei assim. Só fui conhecer este mecanismo quando voltei da Itália, e era um terror. Hoje existe a possibilidade de se recorrer. Há diversas categorias e o disco pode sair. É um mal, mas não é fatal. Como nunca são tocadas todas as músicas de um disco nas rádios, não te colocam mais diante da encruzilhada, como antes. Não tem mais aquela que sai ou que não sai, aquela carga de trabalho (de cada quatro músicas, só uma era liberada) e aquela tensão horrorosa. Discutir a censura é necessário, na sua dimensão. Nós, enquanto classe, vamos fazer um encontro em Minas onde serão colocados todos os nossos problemas, e a censura estará em pauta. Hoje, não é o único, nem é o problema mais grave.

O Globo - Qual é o mais grave?

Chico - O desemprego. Conseqüência desta política no mínimo nociva aos músicos e a música popular brasileira, que favorece grandemente a importação e execução de músicas de fora. A censura hoje não tem perigo de recrudescer. A sobrevivência do músico é que vem recrudescendo. Temos leis de reserva de mercado que são respeitadas entre aspas, pois as rádios compensam em horários de baixa audiência. Temos que atacar a questão na raiz. Para uma gravadora, hoje, custa muito pouco importar um disco. A despesa com uma produção nacional é muito maior. A cada dia eles economizam no pagamento aos músicos, reduzem o cast. Existem músicos que gravaram há cinco anos e hoje não conseguem espaço. Há dificuldades também para os grupos mais novos. E há um outro tipo de censura: as gravadoras constragem o orçamento, obrigando o músico brasileiro fazer um disco pobre. O resultado é que o produto final tem qualidade inferior ao produto importado. Parece que elas nos fazem um favor. Um disco gravado aqui custa 45% do preço da capa. Já um importado custa apenas 18%. Não quero fechar. Sem xenofobia, mas o que vem de quantidade, não vem em qualidade. Nestes pacotes, principalmente norte-americanos, em cada 20 trabalhos um é bom. Mas eles vem com tudo, massacrando com clips, e vendem.

O Globo - Em 1976 você dizia que essa intensidade de divulgação de música estrangeira iria provocar um fenômeno que agora está ocorrendo: os jovens só compões rock. Está confirmada a tese?

Chico - Estes jovens tiveram uma formação cultural. Não fosse a bossa nova, eu também faria rock. Eu dançava rock, cantava The Plater's ("only youuuu", imita). Na minha época houve um momento de participação histórico e cultural. Era a arquitetura, com Brasília, o Cinema Novo, o teatro. Havia uma euforia que, acredito, possa se repetir noutro nível. Hoje há muito interesse econômico em jogo. Em 1960 não havia.

Chico - Eu escuto o rock que os garotos fazem. Mesmo porque toca no rádio o tempo todo. Acho que tem de haver uma mudança radical de geração para geração. Existe uma distância muito grande entre as raízes deles e nossas.

O Globo - Há alguma forma de modificar este quadro?

Chico - Acredito que sim. Se hoje eles fazem rock, devem continuar fazendo rock. A partir de uma revalorização do Brasil como projeto, eles mesmos vão poder encontrar um rock mais brasileiro e caminhos novos até a nível internacional. O rock brasileiro é diferente, mas as referências mais fortes, hoje, ainda são dos grupos lá de fora. Há um desequilíbrio que deve ser corrigido.
Há um manancial de ritmos e expressões populares que podem ser resgatados pelo pessoal de guitarras e do rock. A minha geração bebeu muito da música americana. Nas minhas músicas há coisas do blue, do jazz. Mas tem a mistura feita aqui, genuína e moderna. Não proponho uma volta às raízes ao folclore.

O Globo - De que forma estas questões interferem no seu trabalho?

Chico - Não vou tocar guitarra. Mal toco meu violão. Mas meu ouvido me obriga a incorporar a eletrônica, tudo isso que está no ar. Acho que isto está dosado no meu disco. Tem o lado acústico, as cordas, e tem os botõezinhos também. Agora eu comprei uma pianola eletrônica precária, e estou mexendo com ela.

O Globo - Continua a sua velha briga com o seu violão?

Chico - Como toco, o violão é tecnicamente mau executado, o que não impede que familiarizado com ele, tire acordes novos. A criação não tem nada com minha inabilidade manual, que me atrapalha até quando vou abrir uma lata de sardinha. Compenso isso com os pés (ri). O piano tem mais recursos, mas o problema são minhas mãos. No disco, toquei as bases e no estúdio eles "limaram" tirando os ruídos, mas o sentido a intenção está lá. Agora, sem acordes pegando nos trastes.

O Globo - Algumas pessoas se supreenderam com o seu samba-enredo. Ele veio fácil?

Chico - O samba está na minha memória, na minha formação. Escutei a vida inteira. É a batida natural do meu violão. Não pretendo fazer samba de morro. O meu é uma exaltação estilizada. O "Pelas Tabelas" é todo quebrado. Eu brinco um pouco com esta informação musical.

O Globo - "Vai Passar" foi transformado quase em hino deste momento pelo qual estamos passando. Ela foi feita recentemente?

Chico - Está pronta praticamente há um ano. A idéia não tem nada a ver com este momento. Fala de um tempo novo, da esperança de que esta página infeliz da nossa história fosse virada. A idéia foi germinando e brotou no momento exato. Se tivesse gravado um disco no ano passado, ela talvez estivesse naquele disco. É evidente que os acontecimentos externos influenciam demais a criação, mas "Vai Passar" não é reflexo de uma imagem, somente.

O Globo - Em meio a este clima de esperança, existe também a de vê-lo novamente num show, depois de nove anos. Ele vem?

Chico - Ainda não sei a data, mas estou com vontade. Agora tenho que terminar sete músicas para o filme que estou fazendo com o Ruy Guerra, baseado na "Ópera do Malandro", que começa a ser filmado em maio. Depois, tenho que engatilhar meu papo com o Boal e o Edu Lobo sobre a peça que estamos fazendo, "O corsário do rei", baseado na invasão francesa. O Boal está pesquisando e agora, no carnaval, vamos conversar. É difícil desligar uma coisa e ligar outra, mas se não der neste ano, no ano que vem sai.
O Globo - E o seu velho medo da platéia?

Chico - Agora, neste show na Argentina, quebrei este tabu na minha cabeça. Foram três noites e não foi doloroso. O nervosismo faz parte. Se não ficar nervoso, não tem graça (ri). Não errei as letras e foi sem traumas. Estou mais tranqüilo. Tenho que pensar inclusive onde fazer o show. Estou realmente distanciado do público e o esquema criado funciona. Dei grandes shows em São Paulo, Minas e Rio. Hoje não sei mais. Vai ver que são os universitários daquela época.

O Globo - Cuba, durante muito tempo, foi uma pedra no sapato de muita gente, e você foi incomadado por isso. Quais são suas esperanças, agora?

Chico - Fiquei marcado por esta questão com Cuba. Quando voltei de lá pela primeira vez e fui detido submetido a interrogatórios, era, por coincidência, uma época em que vinha lutando contra a censura, a liberdade de informação. Não entendi o porquê daquele escândalo pela volta de um cidadão. Mais tarde, compreendi que a intenção era chamar a atenção para um fato dito contraditório. Diziam: "É um comunista, pois foi a Cuba". Durante anos carreguei este peso, porque quis. E por isso mesmo mantive esse contato, ajudei na organização de festivais, em contatos com intelectuais, e o resultado é que hoje a coisa é mais aliviada. Não sou mais o único. Artista ir a Cuba virou fato corriqueiro. Quero mais é que todo mundo vá, que se quebre o gelo, que se resolvam os desentendimentos, que este novo governo reate relações com Cuba. E quando eu for novamente, vou direto sem as escalas trabalhosas no Panamá, Jamaica ou Lima. Quero mais é um vôo da Varig Rio-Havana, direto, em seis horas (ri).

O Globo - E a África?

Chico - Fui só uma vez, mas tenho convites para ir a Moçambique. Eles cobram minha ida e tenho interesse. Mas sou mais ligado a Cuba que aos irmãos de Angola. Cuba teve aquela pecha toda, e como vi que estava incomando resolvi não me render. E Angola tem representação diplomática. Não precisa de algum voluntário para transar informações.

O Globo - Você já foi tratado como "unanimidade nacional". Hoje, há outra pessoas a quem dão este título: o Presidente eleito Tancredo Neves. O que você acha disso?

Chico - Como dizia Nelson Rodrigues, "toda a unanimidade é burra". Eu suspeito muito da unanimidade, pois ela só serve para as pessoas jogarem pedra. Principalmente que está em evidência, sempre convidado a dar declarações sobre tudo, polêmicas, que nem sempre agradam. Tancredo não vai agradar a todos. Assume com uma popularidade assustadora. Mas isso é uma faca de dois gumes. Por um lado ele, está partindo com um crédito de confiança muito generoso. Por outro lado, e por isso mesmo, ele está preso, comprometido com interesses os mais heterogêneos. Minha esperança é de que ele tem condições e autonomia moral, apesar das composições, para levar adiante um Governo popular.
Em seu discurso de posse, Tancredo disse que seria o último presidente eleito indiretamente. A eleição do próximo diretamente, será um outro capítulo, uma outra campanha. Antes disso, a Constituinte é fundamental. É mais importante que tudo. O próximo presidente eleito já governará precedido ou acompanhado de uma Constituinte que atenda as necessidades da população.

O Globo - Você participa da associação de moradores do seu bairro?

Chico - Nunca fui a reuniões . Moro na Gávea, mas, por outro lado, participo de manisfestações em bairros mais humildes, como Pendotiba, onde fizemos um show. Circulo muito por toda parte e concordo que a Gávea tem problemas, mas não são mais candentes. De repente, valeria mais eu participar da associação de moradores do Terreirão, perto do campo de futebol. Outro dia eles vieram com um abaixo-assinado contra a construção de um espigão. Evidentemente, este é um problema que aflige aos moradores, mas já havia tantas assinaturas de peso que...

O Globo - Como é que está seu contrato com a Barclay/ Ariola? Ainda existe o plano de criar sua própria gravadora?

Chico - Terminei meu contrato com a Ariola/Barclay/Polygram (que confusão) com este disco. Ainda estou vinculado a eles por força do disco, que está na praça. Não estou discutindo renovação nem com esta nem com qualquer outra. Passado este período de trabalho no filme e na peça, vou pensar nisso. Há várias coisas a serem consideradas. Mesmo um selo novo. É um projeto interessante e complicado. Tenho medo de me transformar numa firma de mim mesmo. Há que se encontrar uma forma que equilibre os interesses, não tão convencional quanto esta obrigação de se gravar um disco por ano. Não quero é virar dono de um selo e me ocupar com tudo. Enfim, não quero ser empregado, nem patrão.

O Globo - Sua músicas onde aparece a voz feminina são consideradas perfeitas pelas mulheres. Antes elas estavam na sua janela. Hoje nas ruas. A mulher de suas músicas também mudou?

Chico - Minha música reflete isso. A mulher saiu da janela, e eu acompanho isso. Há 20 anos me assustaria ouvir falar em movimentos de libertação. Mas em minha primeira música feminista eu já propus isso. Chamava-se "Ela e sua janela". Agora, temos que arcar com as consequências.

No campo, o encontro com Pagão, o ídolo

Quinta-feira dia 24, Chico recebeu os discos de ouro e platina, pela vendagem de 250 mil cópias de seu último disco. Para comemorar, um churrasco e um jogo de futebol em seu campo, no Terreirão. Debaixo de chuva, mas sem perder a animação, ele jogou ao lado de músicos, técnicos e diretores de sua gravadora. Malandro, usou chuteiras de trava alta, pois sabia que um batalhão de fotógrafos o aguardava, com certa ansiedade, um tombo que acabou não acontecendo.

Sua única reclamação foi quanto à camiseta utilizada: "Ela foi cruel, deixou todo mundo com barriga". No entanto, a grande alegria ainda estava por vir. Pagão, antigo jogador dos Santos e ídolo de Chico, seria o grande homenageado do dia. Estava combinado que ele jogaria também, mas a chuva atrasou seu vôo de São Paulo pra cá.

Este é o Pagão, o verdadeiro? - perguntou João Nogueira, ao ser apresentado ao craque que tinha o apelido de "canela de vidro".

Chico, satisfeito, se vangloriava da vitória de seu time por 9 x 2, enquanto formava uma enorme roda ao redor dos dois.

Mais tarde, Chico contou:

Eu morava em São Paulo. Tive meus ídolos do Fluminense desde 1949 e adorava o Castilho. No princípio queria ser goleiro. Aos 12 anos, já moleque peladeiro, mudei de ídolo, e queria ser Pagão. Todo jogo ia vê-lo. Quando voltava para casa, tentava imitar aquele seu drible de calcanhar. Passou o tempo e ficou o apelido de Pagão no futebol, assinava a súmula como Pagão, até que, em dezembro, quando gravei um especial para TV, finalmente o conheci. Ele me deu uma camiseta autografada e eu lhe prometi que ainda lhe convidaria para dois dias aqui no Rio comigo.

Depois, conta Chico, vieram outros dois ídolos, como Marlon Brando ou João Gilberto, mas ele, peladeiro, manteve Pagão no pedestal. E no encontro, ficou como uma criança: emocionado, sorridente realizado.

À noite, em casa, os dois conversaram quando alguém chamou Pagão ao telefone. Chico não teve dúvidas. Levantou-se, caminhou-se e só no meio do caminho lembrou-se que, naquele dia, ali estava Pagão, o verdadeiro.


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