O gênio nasce
Chico foi diretor musical e autor das músicas da peça (Morte e vida severina). Conta os temores de que ainda não sabia se iria viver de música, além de seu interesse pelo teatro.
O que "Morte e Vida" representou para sua carreira?
Chico Buarque - Na época do início do Tuca eu já conhecia o Roberto Freire, porque ele era amigo da Miúcha, minha irmã. Ele me convidou para musicar Morte e vida severina a partir de um festival da Excelcior, onde eu era compositor e ele foi jurado. Fui classificado com "Sonho de um carnaval", cantada pelo Vandré, mas não venci o Festival. Eu estava no comecinho da minha carreira, que nem pretendia ser carreira naquele momento. Eu tinha gravado um disquinho com Pedro Pedreiro e o Sonho de um carnaval. Então o Roberto me convidou para um trabalho em equipe e eu fui com um pouco de medo. Aliás, nunca musiquei um poema: acho que foi uma experiência única, principalmente porque foi a primeira encomenda como compositor. Era uma coisa séria, enquanto que o resto ainda era brincadeira de estudante. Eu ainda estava na FAU e essa coisa de fazer música era um apêndice da minha vida de estudante. Se bem que o apêndice era maior que o resto... Além disso, eu não estava muito entrosado na Faculdade, na arquitetura. Enquanto havia colegas que já trabalhavam em escritórios, eu não me sentia com vontade nenhuma nem de trabalhar nem de estudar arquitetura. Por outro lado, a música também não era uma perspectiva profissional. Quando Roberto me chamou, o texto já estava escolhido, acho. Pelo menos não participei de nenhuma discussão sobre texto. Eu tinha a sensação de ser o caçula daquele pessoal, sentia uma incapacidade, achando que não ia conseguir musicar o poema. Em todo caso, discutia tudo, falava de tudo, e eu não entendia nada, nem de teatro. Foi com receio e aos poucos que eu fui aceitando participar e me acostumando com a idéia de fazer as músicas. E fazia as músicas e as mostrava meio com vergonha. E eu não me lembro direito dessa história de botar minhas irmãs para cantar a 2 vozes, mas isso acontecia por insegurança, que desapareceu aos poucos. À medida que o espetáculo nascia e a música funcionava dentro dele é que eu reconheci que o trabalho estava saindo direito. No começo eu não tinha certeza se estava certo, se era isso que eles queriam. Então eu mandava a fita gravada e ficava em casa escondido. Esse negócio de contraponto era necessário, porque muitas músicas precisavam de mais vozes e eu não podia mostrar sozinho esta parte da harmonia. Sobretudo, acho que foi uma temeridade do Roberto Freire me chamar para esse trabalho: na verdade, hoje meu trabalho seria diferente, porque naquele tempo eu não tinha domínio técnico da organização musical e peguei um trabalho um pouco maior do que eu podia. Eu não estava enganado quando me sentia inseguro: não era uma insegurança gratuita. João Cabral não me apavorava apenas porque ele estava longe, na Europa. Não sei, mas o Roberto falou que o João Cabral não tinha autorizado a peça, mas ela foi feita no peito. Depois, na Europa, comenta-se que o João teria dito que ele não conseguia ler os versos sem ouvir a música. Acho que isso foi gentileza dele porque ele falou que música e barulho é a mesma coisa, porque ele confessa que não tem ouvido, não tem sensibilidade musical. Não tenho certeza se já conhecia a obra de João Cabral, mas lembro que, a partir dali, eu li quase tudo o que ele escreveu. Claro, eu sabia que era João Cabral. O que sei é que foi muito difícil musicar Morte e vida severina. Tinha horas que eu via que era impossível colocar música naqueles versos e não consegui mesmo musicar algumas partes. Teve até uma cena que eu cortei alguns versos, e depois o João Cabral me cobrou aquilo, perguntando se seria devido a outros problemas. Ah! Agora lembro que foi naquela hora em que ele falava dos sociólogos do lugar e João Cabral perguntou se eu queria poupar Gilberto Freire. Acontece que sociólogos do lugar é um verso imusicável e tive que cortá-lo. Agora, você pode ver, um Manuel Bandeira é muito musical, mais que Drumond, o qual, comparado com João Cabral, é Beethoven. O processo de criação das músicas acho que não seguiu uma ordem prévia, mas muitas idéias nasciam do grupo, à medida que o espetáculo ia saindo. Sem o espetáculo, eu jamais musicaria João Cabral, nunca faria aquelas músicas, porque seria coisa seca demais. Só foi possível fazê-las a partir da visualização do espetáculo. Às vezes eu optava por falas do coro, diante da dificuldade de musicar os versos. É possível que as partes a serem musicadas tenham nascido de um consenso da equipe. Afinal a peça não era uma opereta em que todas as partes seriam cantadas. Eu também fiz as músicas de O&A mas não estava tão ligado ao trabalho, já morava no Rio e não tinha tanto tempo disponível. Eu já não tinha mais tempo integral como na época de Morte e vida que também foi muito marcada pelo trabalho de equipe do que O&A. Meu interesse pelo teatro nasceu antes de Morte e vida. O Roberto não me convidou para aquele trabalho só devido à música do festival; ele sabia que eu gostava de teatro. Depois dessa fase toda eu fiz um trabalho com o Boal e nunca mais me separei do teatro. Não é que eu esteja me desviando para o teatro: desde o meu começo eu estava muito próximo dele. Eu também trabalho com o texto: às vezes eu quero dizer uma coisa que não cabe numa canção. Assim, era normal que eu partisse para o texto de teatro. Bom, quando vi Morte e vida de pé, me deu medo. Até sonho eu tive, terrível, com o pessoal jogando tomate. Isso foi na véspera da estréia. Na estréia eu assisti a peça lá do fundo, perto da porta de saída, de emergência. A reação do público para comigo foi desnorteante, porque eu não imaginava que seria tão bem aceito. Mas a sensação mais forte foi em Nancy, porque aí eu estava no palco, tocando violão e baqueei mesmo, isso até eu lembro. Quando apareceu essa brecha de viajar para a Europa, eu achei ótimo. Eu tinha acabado de comprar um fusquinha de 2ª mão; eu tinha contrato com a Record e ganhava Cr$ 500,00 para cantar só o Pedro Pedreiro. Vendi o carro e fui com a turma. Comigo também tocava o Maranhão e um outro que eu não lembro o nome e que não viajou. Na Europa eu não fui propriamente ator. A marcação eu estava careca de saber, e a música também não teve problema. Durante o espetáculo eu não me sentia responsável por nada, era só acertar a harmonia do violão e andar direitinho pelas marcas de giz que estavam no chão. Agora, a ovação do público em Nancy eu tenho até gravada em disco, no final da peça, com a gente desafinando pra burro e cantando depressa. O atabaque tocava uma marcha-rancho e terminou em frevo, o tom era dó e foi para lá. A emoção da gente foi subindo e o aplauso cadenciado não parava. Depois ainda fomos a Paris, no teatro Odeon, onde aliás eu estive ano passado e vi uma galeria com as fotos das peças que foram apresentadas lá, inclusive Morte e vida. Fiquei chateado porque não apareço na foto... O João Cabral excursionou com a gente em Portugal. Eu estava encabulado, mas ele estava muito emocionado, porque a peça foi um grande sucesso também em Portugal. Ele deve ter ficado preocupado ao ver aquele grupo de desconhecidos. Quando fomos apresentados, percebi que ele estava realmente emocionado e isso amenizou meu temor por ele. Lembro que ele disse que gostava da música mais chata da peça, que era o Funeral do Lavrador, mas para quem não gosta de música, essa deve ser a melhor. Essa música foi gravada pela Odete Lara, pela Nara e por mim. No espetáculo ela funcionava muito bem, embora eu ache que não é bem uma música, mas um poema cantado. Relutei muito em gravá-la. O Mercado está aqui me lembrando que havia um professor muito conservador que sustentava estar escondida nesta música uma conscientização subliminar quando o coro repetia "é a parte que te cabe neste latifúndio". O fato é que esta música marcou muito. O João Cabral deve ter achado chocante a idéia de musicar o seu poema, que é muito seco, e o espetáculo adocicava um pouco, aparava as arestas: creio que ele deve ter rejeitado a peça no início também por causa disso. Para elaborar a música eu lembro que ia na casa de um pesquisador e ouvia muita coisa que não conhecia. Foi a primeira pesquisa musical que fiz, sobre músicas do Nordeste. A escolha de violão como instrumento de acompanhamento, eu não lembro direito. Era preciso que fossem instrumentos portáteis, não se iria colocar um contrabaixo por exemplo, não se usava instrumento elétrico. Creio que também se escolheram os instrumentos em função do pessoal que tocava: a gente não iria contratar um flautista profissional, por exemplo. Depois de 15 anos eu não saberia comentar as músicas que fiz para a peça porque eu não paro para ouvir minhas músicas. Lembro bem apenas do Funeral do Lavrador. Isso não é uma rejeição do que produzi, é que não costumo parar para ouvir mesmo outras músicas minhas. "Morte e vida" foi para mim um grande impulso profissional. Mais que isso, o trabalho com o Tuca foi importantíssimo a nível pessoal, no sentido que foi a primeira vez que eu tomei consciência da importância do trabalho coletivo. Isso me marcou até hoje, porque fazer música é muitas vezes um ofício que sem querer te conduz a um individualismo, por ser um trabalho solitário, e pode te distorcer como ser humano. Em termos de trabalho universitário, o Tuca, quando surgiu, era a única perspectiva de trabalho integrado dentro da Universidade. O grupo foi muito importante, porque, até 1968, quando estacou tudo de novo, surgiram novos grupos, a partir do Tuca. Eu peguei a Universidade antes do Golpe de 64 e nesse tempo havia exposições, grêmio, discussão política. Depois de 64 a Universidade caiu num marasmo durante um ano e pouco, sendo que o Tuca foi o primeiro sinal de vida cultural universitária.
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