Folha de São Paulo - 26/12/04


O TEMPO E O ARTISTA

Em entrevista em Paris, o compositor diz que a emergência do rap talvez represente o fim do principal gênero musical do século 20

A canção, o rap, Tom e Cuba, segundo Chico
DO ENVIADO ESPECIAL A ROMA E A PARIS

Chico Buarque voltou a compor. Disse que está na hora de finalmente se despir e se libertar do romance "Budapeste", que lançou no final de 2003 e do qual ele se ocupou, acompanhando as traduções, ao longo deste ano.
Paradoxalmente, Chico diz, rompendo um silêncio que vinha de muito tempo, que a canção, tal como a conhecemos, talvez seja um gênero do século passado -e que o rap talvez seja a sua negação. Paradoxalmente, mais uma vez, é o rap o que mais chama a atenção de Chico no cenário cultural brasileiro. "Tem uma novidade importante aí, na periferia se manifestando dessa forma."
O caminho do músico Chico Buarque continua, e cada vez mais, iluminado pelo farol de Tom Jobim, seu maestro soberano. Mas os olhos do artista estão mais do que nunca voltados para a moçada dos morros, onde ele enxerga ao mesmo tempo a desgraça e a antena do país.
Neste trecho da entrevista, Chico fala ainda sobre Cuba e diz que, mesmo discordando da ausência de democracia na ilha, considera louváveis os esforços para preservar os "valores da revolução".
(Fernando de Barros e Silva)
 

Folha - Podemos começar falando da reclusão que você se impôs neste ano.
Chico Buarque - Fiquei até menos recluso do que estive durante os dois anos em que escrevi o livro ["Budapeste"]. Este foi um ano de entressafra. O meu trabalho foi praticamente acompanhar as traduções, ficar na cola do livro que saiu no ano passado. Pouca coisa a mais. Recebi alguns convites para fazer músicas e não pude atender. Foi nesse sentido quase um ano sabático. Embora dê trabalho acompanhar as traduções.

Folha - Mas é um trabalho de que você gosta...
Chico - Gostar eu não gosto especialmente. Acho que faço para sofrer menos. Cada tradução é um sofrimento. Você nunca pode dizer exatamente o que você quer em outro idioma. Mas, nas línguas que eu mais ou menos alcanço, procuro trabalhar o mais próximo possível do tradutor.

Folha - Por que você preferiu não falar quando o livro foi lançado? Receio de induzir a leitura, de misturar o escritor e o compositor?
Chico - Um pouco disso tudo. Na verdade, neste ano sabático tive que ficar me explicando. Não tenho prazer especial em ficar explicando o que escrevi, os livros, as canções, o que seja. Há artistas que gostam disso e se explicam muito bem. Eu não sei fazer isso. Houve também aquela comemoração toda em torno dos meus 60 anos, uma coisa excessiva sobre a qual eu não tinha muito o que dizer.
Além disso, não quis falar um pouco também para evitar que o livro viesse ocupar o espaço que eu tenho como compositor de música popular. Procuro o máximo possível distinguir as duas coisas. Muitas vezes nem isso é possível. Mas apresentar o livro na TV, tirar fotos, isso confundiria ainda mais as coisas. Vem cá, mas esse é o compositor, o escritor? Parece que fica tudo sendo a mesma coisa, a mesma cara, o mesmo sujeito.

Folha - É visível o seu esforço de separar o escritor do compositor. Por quê?
Chico - Eu procuro separar, sim. Entendo que são duas coisas diferentes. O escritor tem pouco a ver com o compositor. Mas é uma coisa pessoal minha. É difícil convencer o leitor de jornais desse meu sentimento. Mas é por isso mesmo que eu procuro ser um pouco mais discreto enquanto autor de romances. Soma-se a isso o fato de que o personagem central de Budapeste é discretíssimo. Achei que seria complicado ir na contracorrente e desmentir tudo o que o livro diz. Neste sentido o livro é um pouco... Não vou dizer que seja autobiográfico, mas o protagonista tem isso em comum comigo.

Folha - Já falaram que os personagens dos seus três romances -"Estorvo", "Benjamim" e "Budapeste"- são um pouco alter egos do Chico Buarque.
Chico - Os livros são muito diferentes. O que complica um pouco a questão é que o protagonista de "Budapeste" é escritor. O protagonista de "Estorvo" não era nada, e o de "Benjamim" é um ex-modelo-fotográfico.
Depois de um ano, mais de um ano, já está na hora de eu me despir, me libertar deste livro. Eu estou na verdade ansiando por isso, até para escrever outro livro, ou para escrever novas canções.

Folha - Você voltou a compor?
Chico - Consegui fazer uma canção, para o filme do João Falcão, "A Máquina", uma adaptação do livro da Adriana Falcão. Tive outras encomendas, mas não consegui. A única que saiu foi essa.

Folha - Como chama a canção e como ela nasceu?
Chico - Chama-se "Porque era ela, porque era eu". É uma variação sobre um dito famoso do Montaigne [filósofo Michel de Montaigne (1533-1592)] -"Parce qu'était lui, parce qu'était moi". Ele se referia nos "Ensaios" à grande amizade com o Étienne de la Boétie, que morreu muito jovem, dizendo que a ligação entre ambos existia simplesmente "porque era ele, porque era eu". Na canção, o "lui" [ele] virou uma mulher. É uma canção de amor. Por coincidência, estive em Paris no mês passado e vi duas vezes nos jornais alusões à frase do Montaigne. A canção na verdade já estava pronta.

Folha - E virão novas canções? Ou você não sabe ainda o que fazer?
Chico - Tenho muita vontade de fazer música. Mas é difícil planejar. Parece que se tornou uma coisa quase automática -faz um livro, depois faz um disco e assim vai. Talvez eu mesmo não queira obedecer esse script que venho seguindo. Mas sempre foi assim. Depois de um trabalho com literatura, até retomar a música leva um bom tempo. O formato é tão diferente da literatura que a mão fica dura.

Folha - Tem parcerias à vista?
Chico - O Ivan Lins me mandou uma música muito bonita. Está aqui comigo, mas ainda não consegui letrar. Fora as canções de outros autores que tenho comigo há muito tempo -Guinga, Dominguinhos. São coisas que ficam ali na gaveta, numa espécie de arquivo a que eu recorro quando estou num processo de criação.

Folha - O que motivou você a fazer essa revisão da sua obra, a aceitar gravar essa série de entrevistas para os programas da TV?
Chico - A idéia partiu do Roberto [de Oliveira, diretor dos especiais com Chico]. Para mim é um pouco incômodo ficar revendo fitas antigas, falar sobre canções do passado. Estou, na verdade, cedendo a uma demanda que existe -e acho que cada vez mais. Isso é curioso. Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado, tal é a quantidade de releituras, de compilações, de relançamentos, de gente cantando clássicos -e isso no mundo inteiro. Os meus próprios discos são relançados de formas diferentes pela indústria, em caixas e caixotes, embrulhados assim e assado, com outra distribuição das músicas. E há um interesse muito grande por isso. Se eu lançar um disco novo, vou competir comigo mesmo. E devo perder.

Folha - Você parece estar descrevendo um esgotamento histórico...
Chico - A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito.
E há quem sustente isso: como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido.
Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo -e pronto. Se você reparar, a própria bossa nova, o quanto é popular ainda hoje, travestida, disfarçada, transformada em drum'n'bass.
Essa tendência de compilar e reciclar os antigos compositores de certa forma abafa o pessoal novo. Se as pessoas não querem ouvir as músicas novas dos velhos compositores, por que vão querer ouvir as músicas novas dos novos compositores? Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou. Estou dizendo tudo isso e pensando ao mesmo tempo que talvez seja uma certa defesa diante do desafio de continuar a compor. Tenho muitas dúvidas a respeito. Às vezes acordo com a tendência de acreditar nisso, outras não.

Folha - E o rap? Sem abusar das relações mecânicas, parece que estamos diante de uma música que procura dar conta, ou que reage a uma nova configuração social, muito problemática.
Chico - Eu tenho pouco contato com o rap. Na verdade, ouço muito pouca música. O acervo já está completo. Acho difícil que alguma coisa que eu venha a ouvir vá me levar por outro caminho. Já tenho meu caminho mais ou menos traçado. Agora, à distância, eu acompanho e acho esse fenômeno do rap muito interessante.
Não só o rap em si, mas o significado da periferia se manifestando. Tem uma novidade aí. Isso por toda a parte, mas no Brasil, que eu conheço melhor, mesmo as velhas canções de reivindicação social, as marchinhas de Carnaval meio ingênuas, aquela história de "lata d'água na cabeça" etc. e tal, normalmente isso era feito por gente de classe média.
O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas de samba, mas não havia essa temática social muito acentuada, essa quase violência nas letras e na forma que a gente vê no rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí.
Eu não seria capaz de escrever um rap e nem acho que deveria. Isso me interessa muito, mas não como artista e criador. O que eu posso é refazer da melhor maneira possível o que já fiz. Não tenho como romper com isso.
E quando penso na melhor maneira possível, penso imediatamente em Tom Jobim. Ele foi meu mestre desde o começo. E, depois que ele morreu, eu sinto paradoxalmente ele mais presente na minha maneira de pensar a música e mais presente no panorama geral da música brasileira. Esse disco agora, que está sendo lançado ["Ao Vivo em Minas", gravado em 1981], é maravilhoso. Não chamava muita atenção na época um show de Tom Jobim só com o piano. Isso era visto até com certo desdém. Alguém teve a boa idéia de gravar, e agora isso é recebido como uma jóia, que é. É um pouco o que eu via. Ele ali no piano, compondo "Águas de Março", "Luiza" [Chico cantarola: "vem cá, Luiza, nã nã nã nã..."). Vi muito isso. Ele não tinha pudor de mostrar as músicas rascunhadas. Mostrava. Pedia palpites. Ver o Tom em ação, e tendo dúvidas, em processo de criação, era formidável -e difícil. Eu sou incapaz de partilhar um momento como esse, uma obra rascunhada, um pedaço de música ou de letra.

Folha - Ficaram com você canções inéditas do Tom?
Chico - Ao longo dos anos, ele me deu várias músicas para fazer letra e eu não consegui. Não vejo mais sentido, sem ele aqui, de gravar canções que estão comigo. Só tinha sentido com ele junto.

Folha - Você tem uma relação antiga com Cuba. O regime de Fidel Castro vem sendo cada vez mais cobrado pela ausência de democracia, pelas execuções etc. Como você se coloca nessa discussão?
Chico - Minha ligação com Cuba se estabeleceu no fim dos anos 70 até a volta das relações diplomáticas com o Brasil. Na época meu apelido era "el embajador". Eu participava de um intercâmbio cultural que envolvia muitos artistas, músicos, intelectuais. Acho que cumpri bem o meu papel. De lá para cá, tenho ido menos a Cuba. Perdi um pouco o contato.

Folha - Mas você tem amigos músicos em Cuba.
Chico - Tenho. Amigos hoje um pouco distantes. É essa a minha relação com Cuba. Existe, é claro, para a minha geração, um outro tipo de relação, afetiva, que vem da revolução cubana. Nos anos 60, aquilo era muito forte para nós. Um exemplo de resistência. Ainda hoje o ditador Fidel Castro, como gostam de dizer os jornais, inclusive a Folha... Ele é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina que resistiu a golpes de Estado e assassinatos e está ali. Todos os outros foram depostos ou assassinados. Ele sobreviveu a vários atentados. Manteve e mantém até hoje uma posição altiva. E isso é algo que ninguém deve ignorar e que eu admiro.
Quanto a fuzilamentos ou a prisão de dissidentes políticos, fico contrariado, porque não gosto e não concordo com isso. A questão toda é muito delicada. Eu gostaria que Cuba fosse um país democrático. Agora, eu gostaria de uma maneira, e o Bush gostaria de outra. Cuba poderia ser hoje o Haiti. Cuba não é. É claro que me desagrada a idéia de um partido único, de liberdades vigiadas, mas existe ao mesmo tempo a necessidade de um controle para manter os valores da revolução, que a meu ver são louváveis.

 


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