Roberta Jansen
Chico quebra silêncio e admite devolver cachê
Ao falar sobre show para Tom Jobim, compositor confessou-se abatido por Paulinho da Viola
RIO - O cantor e compositor Chico Buarque resolveu romper o silêncio e falar sobre as polêmicas criadas em torno do show Tributo a Tom Jobim, realizado na passagem do ano na praia de Copacabana, no Rio. "Eu achei o espetáculo belíssimo mas, dois dias depois, fizeram dele uma meleca", afirmou. Na última quinta-feira, o juiz Ademir Paulo Pimentel, da 4º Vara de Fazenda Pública, concedeu uma liminar suspendendo o pagamento dos cachês aos artistas, músicos e empresas de serviço que participaram do show. De acordo com a liminar, os cheques da prefeitura dados aos artistas não poderão ser descontados. "Se prevalecer a denúncia de que o show foi imoral, ilegal e desnecessário, devolverei o dinheiro disse Chico, em entrevista por fax.
A liminar atendeu à ação popular contra a Riotur e a prefeitura proposta pelo advogado Agnelo Maia Borges de Medeiros, que considerou superfaturados os cachês. Na ação, ele afirma ainda que o evento não foi licitado, como determina a lei. "Não entendo como se faria uma licitação para a escolha de cantores e orquestra", pondera Chico, que garantiu nunca mais participar de shows promovidos pela prefeitura do Rio.
Chico falou ainda sobre a polêmica em torno do cachê pago a Paulinho da Viola. Enquanto Chico, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Milton Nascimento receberam R$ 100 mil cada um, o sambista embolsou R$ 35 mil. "Compreendo que Paulinho esteja abatido", afirmou.
Estado - Como você encarou a liminar que pede a devolução dos cachês pagos a artistas e técnicos que participaram do show?
Chico Buarque - Vi a notícia no Jornal do Brasil, com uma foto do show, e fiquei com a impressão de que nós, os artistas ali no palco, somos apresentados como seis estelionatários.
Estado - Você pretende devolver o dinheiro ou recorrer? É verdade que você, Caetano, Gil, Milton, Gal e Paulinho pensam em entrar com uma ação conjunta para reverter a situação?
Chico - Pelo que li, o show não poderia ser realizado porque faltou uma licitação. Não entendo como se faria uma licitação para a escolha de cantores e orquestra. Mas se prevalecer a denúncia de que o show foi ilegal, imoral e desnecessário, devolverei o dinheiro à Riotur, que talvez tenha de repassá-lo aos patrocinadores.
Estado - Durante a polêmica sobre o cachê de Paulinho da Viola você preferiu não falar. Gostaria de dizer algo sobre o assunto agora?
Chico - Compreendo que o Paulinho da Viola esteja abatido, e também é natural a mágoa de outros artistas que, tendo convivido e trabalhado com o Tom, não foram convidados para o espetáculo.
Estado - Chegaram a interpretar seu silêncio (e o dos outros cantores) como falta de solidariedade a Paulinho. Você chegou a conversar com ele depois do episódio?
Chico - Se o Paulinho estivesse em conflito com a prefeitura, ou com os patrocinadores, teria em princípio o meu apoio. A questão é mais delicada porque a culpa pela discrepância de cachês recaiu sobre a produtora executiva do show, que é uma pessoa próxima de todos nós, artistas. Um apoio público ao Paulinho significaria uma condenação a essa profissional. Seria uma atitude grave, e não sei se justa.
Estado - Como foi negociado o valor dos cachês?
Chico - Com os outros, não faço idéia. Comigo não houve negociação. Fizeram-me uma proposta e eu a aceitei.
Estado - Você se apresentaria no show por um cachê de R$ 35 mil?
Chico - Posso garantir que em nenhum outro país do mundo artistas de música popular têm-se apresentado de graça, com tanta frequência, em benefício de tantas causas, como os músicos brasileiros de minha geração. Acontece que este show era patrocinado pela Pepsi-Cola. A imagem dos artistas, para efeitos comerciais, era vinculada não a Tom Jobim, mas à Pepsi-Cola. Para fazer propaganda de refrigerante, alguns de nós têm recusado propostas bastante superiores ao cachê recebido. Para cantar em homenagem ao Tom, num teatro em Bruxelas e sem patrocinador, aceitei muito menos de R$ 35 mil.
Estado - O show foi idealizado para ser uma grande homenagem a Tom Jobim. Você acha que as polêmicas tiraram o brilho da festa?
Chico - Eu achei o espetáculo belíssimo. Dois dias depois, fizeram dele uma meleca.
Estado - Você pensaria duas vezes antes de aceitar um novo convite da prefeitura para shows?
Chico - Eu nunca pensei em convites da prefeitura para shows. Este seria e foi o único.