Revista Bizz, abril/88


Profundo conhecedor de música popular, ele afirma que a influência da música estrangeira se manifestou na MPB desde seu surgimento e que uma simbiose dos dois gêneros inevitavelmente tomaria conta do mercado. Uma aula nada preconceituosa sobre essa e outras matérias (música latino-americana, estruturas rítmicas e melódicas) é o que mestre Chico dá para os leitores de BIZZ. Thomas Pappon anotou a lição e Hermano Vianna mapeou os diversos ritmos da América Latina.

Quem ouve rock hoje, certo de que está tendo acesso a uma música inovadora, diferente da careta MPB, pode não estar sendo tão moderno assim. Mesmo porque desde seus primórdios, os artistas mais avançados da música brasileira são acusados, pelos puristas, de fazer "música americana". O problema é que justamente nós, que ouvimos rock, já não temos mais acesso às iguarias emepebísticas que fizeram a cabeça de outras gerações. Nem sabíamos das várias fusões que ocorreram no passado, que poderiam indicar atalhos para um futuro musical mais próspero. Nem sabíamos da comum identidade do Brasil com Cuba, Caribe e Angola. São informações importantíssimas - fundamentais para quem quer se situar num universo despojado de pudores rítmicos ou melódicos. A América Latina, por exemplo, tem um imenso campo musical vazio - mantido improdutivo e ocioso pelos latifundiários do éter e do vinil - à espera de posseiros ousados. Não seria exagero afirmar que as novas gerações, apesar de terem crescido em clima: de "distensão política", correm o risco de ser mais alienadas do que as que o foram à força nas décadas passadas, graças ao desinteresse e às imagens borradas divulgadas pelos nossos meios de difusão musical. A MPB não é "chata", a música latino-americana não é apenas "chorosa" e a influência dos ritmos negros pode ir muito, mas muito além do samba. O rock nacional estará vivendo um novo período, se posicionarmos nossas antenas para outras regiões e elas captarem os débeis sinais que nos chegam. Os relatos de Chico Buarque dão uma boa idéia das áreas que podem ser exploradas e de suas experiências pessoais no assunto.

BIZZ - Quantas vezes você foi a Cuba?
Chico - Ah, eu já perdi a conta, porque fui a diversos eventos. A primeira vez foi em 78. Fui como jurado de um festival de teatro. Fui várias outras vezes para encontros que tratam de política cultural na América Latina e fui para festivais de música pelo menos umas oito vezes.

BIZZ - Você tem acompanhado a produção musical cubana?
Chico - Tenho. Toda a música cubana me interessa muito. Posso dizer que a conheço muito. Me interessei também porque durante muito tempo foi uma música que não chegava ao Brasil. Eu recebia discos, ia para lá levando discos daqui - funcionava como uma espécie de pombo-correio de música. Existe uma ligação muito forte, sempre existiu... Na Bahia é mais do que evidente esta ligação, porque as raízes são as mesmas. Foi uma mesma nação yorubá que chegou na Bahia e em Cuba - em Havana e Santiago de Cuba. Isso gerou não só ritmos parentes. Por exemplo, todo o candomblé e o próprio sincretismo do candomblé com a religião católica existe em Cuba e é igualzinho ao que tem na Bahia e no Brasil todo. A Bahia é o foco de onde saiu a música negra para o Brasil, inclusive para o Rio. O samba carioca foi trazido pelas baianas. Não é à toa que o Vinicius falava: "O samba nasceu na Bahia" - nasceu mesmo. O culto aos orixás em Cuba é a mesma coisa. Só que os nomes são um pouco diferentes. Iemanjá tem a pronúncia espanhola -(com acento no 'man'), Xangô pronuncia-se "Tchango ", e por aí afora. São as mesmas origens. O escravo africano da mesma raça por algum motivo que desconheço foi dar na Bahia e em Cuba.


BIZZ - Me parece que os ritmos seguiram ramos diferentes em Cuba e na Bahia. Existe algo semelhante ao samba em Cuba?
Chico - Não, mas eu tenho a impressão de que uma música negra original dos escravos gerou o samba - que já é uma conseqüência e uma vertente dessa música - e outra foi dar nos ritmos caribenhos. Em Angola mesmo - estive lá também - a música se parece mais com a música do Caribe do que com o samba. Eu tenho a impressão - agora estou dando um palpite também porque tem pouca coisa estudada, sólida. neste sentido - que o samba já é um estágio mais evoluído, e ao mesmo tempo mais corrompido, mais híbrido da música negra. A música caribenha se assemelha muito mais à música original africana do que ao samba E sintomático que na Bahia - onde existe uma concentração negra mais forte e mais autêntica, mais ligada às raízes negras do que no Rio de Janeiro - , nas camadas sociais mais baixas, a receptividade da música caribenha é imediata. (Gabriel) Garcia Márquez, que foi um dos que me convidaram quando fui para Cuba pela segunda vez, participar do Festival Califiesta, defende a teoria de que o Brasil, da Bahia para cima, faz parte do Caribe.

BIZZ - Mas como aconteceu de a música caribenha. com tanta influência de ritmos espanhóis, se aproximar mais da música de Angola do que o samba? Creio que o samba é uma evolução mais direta e pura dos ritmos africanos do que a música caribenha.
Chico - Não sei se houve essa evolução no Brasil. Com certeza. a música brasileira assimilou mais influências do que a cubana, que está, com certeza, mais próxima da africana. E a rítmica do Caribe não tem muito a ver com a música espanhola. Ela é negra mesmo. Acho que tem elementos de música espanhola, assim como a nossa música tem da música portuguesa - mais a nível de melodia, harmonização... O que nós conhecemos deles aqui é uma coisa mais estilizada. Eles têm lá ritmos muito diversificados. Numa ilha que é relativamente pequena, você encontra, de província em província, batidas diferentes, marcações diferentes, tônicas de marcação diferentes... Na província de Matanzas, por exemplo, o som é diferente. O som matanzero é uma coisa, o som do Oriente, onde fica Santiago de Cuba, é outra.

BIZZ - E os instrumentos que eles usam... são muito diferentes dos nossos?
Chico - São. Eles têm mais variedade na parte dos couros, dos tambores...

BIZZ - Houve algum movimento em Cuba semelhante ao da Tropicália? Como é vista a guitarra elétrica em Cuba?
Chico - É bem interessante essa história. Houve um movimento, sim, exatamente por influência da música brasileira em Cuba. Em 69 esteve aqui no Brasil, em missão "extra-oficial", o então Ministro da Cultura de Cuba, que era amigo do Gláuber Rocha e do pessoal do Cinema Novo. Ele levou para Cuba vários discos e fitas de música brasileira. para um grupo de compositores como Pablo Milanes, Silvio Rodnguez... Eles pertenciam ao Grupo de Experimentacion Sonora, do Instituto de Cinema e Artes Cênicas Cubanas, que fazia música para cinema. Eles ouviram com a maior atenção a música que se fazia no Brasil da época e se entusiasmaram especialmente com a incorporação da guitarra elétrica. Foi também deste grupo que saiu a Nova Trova cubana. Ou seja. a música cubana feita a partir da década de 70 foi desenvolvida a partir do cinema e diretamente influenciada pela música brasileira e pelo modo que esta se apropriava de elementos da música inglesa e americana.

BIZZ - Só poucos tiveram acesso a esse material em Cuba, ou chegou a haver um intercâmbio maior?
Chico - Não. Isso foi feito como um trabalho mesmo. Na verdade, há que se fazer uma distinção. O grande público cubano evidentemente é muito arraigado às raízes. Esse pessoal (da Nova Trova) enfrentou sérias dificuldades pra chegar às rádios, televisão e tal. Quando estive lá a primeira vez, o que acontecia é que só havia concurso de cha-cha-cha, muito bolero. O gosto musical do povo cubano também é conservador. Essa música era uma música de elite, se bem que é difícil falar em elite em Cuba... Mas existe uma elite cultural, gente com mais acesso à~ informação. É um pessoal que trabalha, que estuda. Eram todos formados na Escola de Música. Então não havia uma divulgação maciça. Foi um laboratório de música o que gerou a Nova Trova. Hoje é um movimento relativamente popular em Cuba, mas mesmo assim o grande público ainda é ligado aos ritmos dançantes antigos: cha-cha-cha, rumba...

BIZZ - E como é hoje em dia? As pessoas podem comprar discos brasileiros em Cuba?
Chico - Podem, porque a própria companhia de discos estatal, a EGREM, tem lançado discos de música brasileira. Não com muita assiduidade, e nem com a preocupação de abranger tudo o que se faz aqui, porque - todo mundo tem que entender isso - Cuba é um país pobre. Tem poucos recursos pra estar lançando discos com freqüência. A rádio transmite muito - toca qualquer tipo de música. Muita música americana e muita música brasileira também.

BIZZ - E o contrário? Aqui saem poucos discos de música cabana?
Chico - Poucos. Quando estive lá pela primeira vez; vi que esses músicos muito ligados à música brasileira conheceram-na de uma forma pirata. Eles tinham fitas piratas - cópias cassete sem créditos, sem capa, sem nada. Me lembro quando eles me perguntavam: "Ah. e esse cara quem é? Gilberto Gil? E esse?" E me lembro até hoje que eles me mostraram um disco que era uma miscelânea de música brasileira. dessas que se editam na Europa. Na capa do disco tinha fotos das pessoas, só que elas eram trocadas! Então para eles Gal Costa era a Nara Leão, e a Nara era a Elis Regina... Tinha o Edu Lobo com uma cara que eu não conheço, era um tipo francês. Tive que esclarecê-los. Eles tinham um programa que tocava música brasileira e eles anunciavam "Chiclete com Banana", de Gilberto Gil e eu dizia: "Não. O Gilberto Gil gravou isso mas a música não é dele" (N. da R.: é do compositor baiano Gordurinha). Eles não tinham como saber que não era dele. Hoje, não. Os artistas brasileiros começaram a ir lá com freqüência, alguns discos são editados lá... Aqui aconteceu a mesma coisa. Não havia relações diplomáticas, a comunicação era muito pequena. Mas a tendência agora é incrementar o intercâmbio cultural. As facilidades estão aí, já tem até vôo direto pra Cuba. E, segundo estou informado. eles (os cubanos) pretendem abrir um escritório aqui, para cuidar dos interesses não só da música mas também do balé etc... As artes cubanas viajam pelo mundo inteiro, e para chegar ao Brasil sempre foi essa dificuldade. Esses músicos, não só da Nova Trova - mas também os grupos de son, gênero que nos EUA virou a salsa (N. da R.: Chico explicou depois que son é uma corruptela de song), viajam pela Europa inteira, Argentina, Venezuela... E só no Brasil quase não se vêem esses grupos.

BIZZ - Tem alguma coisa que tenha te fascinado de modo especial na música cubana?
Chico - Muitas coisas me impressionaram lá, mas o que mais me impressiona mesmo é a rítmica cubana. Eles têm um sentido de ritmo que pra nós é absurdo. Vi um grupo de dança e ritmo de Matanzas, uma província de lá, fazendo uma exibição para um grupo de artistas brasileiros. Eles dançavam só ao som daquelas tumbadoras todas, não havia melodia. E você via aquilo e não entendia onde estava o tempo um! O Robertinho Silva, um pessoal de ritmo,. ninguém entendia como é que todos estavam dançando. Como eles sabiam onde estava o tempo um?! Você não percebe. Depois eu soube que esse grupo ainda tinha sido montado na hora, especialmente para essa apresentação, que, quando eles dançavam e tocavam entre si, nem mesmo os músicos de Havana conseguiam achar o tempo um! E é engraçado, porque eles têm dificuldades para tocar o samba, o que pra nós é o normal. Para eles o normal é noutro lugar. A tônica da rítmica está em outro lugar, está subentendida, não é explícita, não tá marcada, mas está na cabeça de todo mundo.

BIZZ - Voltando um pouco aos discos que fizeram a cabeça dos compositores cubanos, você se lembra se eles ouviram os Mutantes?
Chico - Pode ser, não posso te garantir. O Alfredo (Guevara) levou malas e malas de música brasileira pra lá. Provavelmente tinha Mutantes no meio.

BIZZ - Você tem ouvido rádio no Brasil?
Chico - Não. Tenho ouvido pouca música. Aliás. em geral ouço pouca música. Principalmente quando eu estou num ritmo de trabalho como estou atualmente. Desde julho estou trabalhando e fazendo músicas - é uma época onde eu não paro para ouvir música. Interfere no meu trabalho, interfere na minha cabeça. Terminei o disco e comecei direto a preparar o show,. não deu para ouvir rádio. Engraçado, estava conversando com um diretor de teatro que me disse que não vai muito a teatro. É muita informação pra mim. Já assimilei tantas músicas na minha cabeça. não consigo mais ouvir música como ouvia antigamente, como amador, deixando entrar tudo o que viesse. Parece que chega uma hora na vida em que a gente quer selecionar o que vai ouvir. A rádio não permite muito isso.

BIZZ - No geral, você se interessa mais pela música norte-americana ou pela música latino-americana?
Chico - Não tenho nenhuma discriminação. A minha formação musical básica é de música brasileira e música americana, mais do que qualquer outra coisa. O que me aproxima da música latina são determinadas circunstâncias da minha vida, e isso não é intencional. O que talvez seja intencional é o interesse em trazer alguma coisa que esteja um pouquinho marginalizada, como a música cubana, por motivos políticos, e, por outros motivos, toda a música latino-americana, como a jamaicana, que o Gil de certa forma introduziu no Brasil. Esses gêneros estiveram inteiramente ausentes da programação de rádio, da produção de discos. Acho isso uma pena. Tem uma limitação gritante aqui no Brasil. Em qualquer parte do mundo o que você vai ouvir mais é a música americana, inglesa, rock e tal. Mas se você vai pra Argentina, que em termos de indústria fonográfica é muito mais atrasada que o Brasil, lá tem uma edição e distribuição razoável de música brasileira, cubana, latino-americana; não há divisão. É claro que o que mais toca é o que mais toca no mundo inteiro. Mas existe espaço para tudo.

BIZZ - Você passou um tempo na Itália. Chegou a assimilar elementos da música italiana no seu trabalho?
Chico - Não. A música italiana na verdade não me interessa muito. O que gravei lá foi só música brasileira. Conheço a música italiana, mas acho que a música européia em geral está um pouco estagnada. O que me interessa é basicamente o ritmo, e esse aspecto foi praticamente abandonado na música européia. O que há de novo vem da África. A música negra é que está revitalizando a música popular no mundo inteiro. Isso através do Brasil, do Caribe, do jazz, do rock. É por aí, não tenho dúvida nenhuma quanto a isso. A própria Itália, a França e tal têm alguma coisa de ritmo, mas tudo chega de segunda mão.

BIZZ - Você gravou com Ennio Morricone, na Itália. Como foi essa experiência?
Chico - Bom, ele é um grande orquestrador. Ele pegou umas músicas minhas e fez aquele som dele, o som do Ennio. O disco se chama Per un Pugno de Samba. "Por um Punhado de Samba" (N. da R.: referência ao filme Por um Punhado de Dólares, que tem trilha de Morricone). É um disco híbrido. É samba e tal - são canções minhas - , tudo gravado lá. O som do Ennio, que é da maior competência, é muito bonito, mas a marca dele é muito forte. O disco fica a meio caminho entre música brasileira e música italiana. Mas foi uma experiência interessante. Esse disco é raríssimo. Eu mesmo não sei se tenho (N. da R.: Per um Pugno de Samba não foi lançado no Brasil).

BIZZ - Por razões musicais, creio que o programa Chico & Caetano (cujos nove episódios foram ao ar pela TV Globo em 86) foi um dos mais importantes desta década. Um programa que reunia, numa mesma apresentação, Elizeth Cardoso, Baden Powell e, na outra. Mercedes Sosa, Gal, Milton, ou grupos emergentes como a Legião Urbana. Você curtiu essa experiência?
Chico - Curti muito. A Globo é uma máquina muito grande. Quando ela propõe uma coisa nova aparecem muitas dificuldades na hora da execução. Quando a gente começou, praticamente não havia mais música ao vivo na TV brasileira. Você não imagina a dificuldade que foi fazer um programa ao vivo de novo. E o programa deixou claro que isso pode ser feito, que vale a pena fazer música ao vivo de novo, tanto que agora o Globo de Ouro já não tem mais playback. As pessoas se acostumam com playback e se perde toda a vitalidade... Acho que o Chico & Caetano foi feito com muito calor humano, muita emoção e com a intenção, que foi satisfeita também, de trazer alguma coisa que não se ouvia normalmente nos programas de TV e nas rádios. Tanto música de fora, latino-americana, como os próprios cantores e instrumentistas brasileiros. Como o Baden Powell, por exemplo. Ele esteve fora do Brasil por muito tempo e a garotada quase não conhecia mais o Baden. O Piazzolla também, por exemplo, não é mais conhecido.

BIZZ - Senti algumas ausências importantes. Por exemplo. o Luiz Melodia, o Tim Maia. Vocês chegaram a convidá-los
Chico - O Tim Maia foi convidado, só que no dia ele não gravou - ele deu bolo. O Melodia não foi, mas se você for contar todas as pessoas que não foram convidadas veria que não caberiam em nove programas. E a intenção era fazer só nove mesmo. Não tinha como continuar isso. Apesar de que, se eles continuassem, poderiam suprir uma ou outra falta.

BIZZ - Por que vocês não passaram a bola para outro apresentador?
Chico - Eu achei que a Globo ia aproveitar o esquema, que estava dando certo; Ao contrário do que andaram publicando, deu uma audiência muito boa, a não ser pelos primeiros programas, quando havia aquela coincidência de horário com Dona Beija (novela da TV Manchete) - e a audiência da Globo toda caiu. Mas o problema é que saía muito mais caro do que qualquer outro programa da Globo, pois, afinal, trazíamos até gente de fora. Acho que eles deveriam ter realmente passado a bola para outra pessoa ou outra dupla.

BIZZ - Nos EUA, atualmente, fala-se muito numa nova onda de música brasileira. O próprio Quincy Jones afirmou que daqui há uns anos só vai dar música brasileira. O que você acha disso tudo?
Chico - Não sei até que ponto a música brasileira pode chegar. O caminho que ele (Quincy) deve estar apontando deve ser via Estados Unidos... Por aí é bem possível, porque a música brasileira tem uma penetração imediata muito grande. O que dificulta isso, ou dificultava, é justamente o fato de a música ser produzida no Brasil. Quem realmente se internacionalizou pra valer foi através dos EUA - Sérgio Mendes, Tom Jobim, João Gilberto. Agora está havendo uma tendência de um pessoal (o Milton, o Djavan) gravar lá e, a partir de edições norte-americanas, chegar ao mundo inteiro. É evidente que a música brasileira deve chegar lá através dos músicos. Se isso não acontecer, ela vai ser absorvida e transformada em outra coisa. Vai acabar acontecendo o que aconteceu com a bossa nova - de vinte anos depois, porque despertou o interesse de um grupo inglês, volta para o Brasil e é (re)conhecida aqui.

BIZZ - E no Brasil a situação caminha para o lado oposto. Toda uma geração de músicos e ouvintes está privada de conhecer os valores que, por exemplo, influenciaram gente como você, o Caetano, o Gil... Não se ouve Waldir Azevedo, Tom Jobim, Jacob do Bandolim, João Gilberto, música latino-americana, soul e tanta coisa mais na rádio. As referências vão se perdendo...
Chico - É o que venho dizendo há muito tempo! As pessoas dizem que sou contra o rock. Não sou contra. Sou contra, por exemplo, a só se ouvir sambão o dia todo, ou só rock. Não há quem agüente. Eu não agüento. E mais, acho empobrecedor para o ouvinte, principalmente para o garoto que tá com 16, 17 anos de idade, quando ele está aberto para tudo... Eu vejo isso na geração da minha filha. Qualquer coisa, se for boa, eles gostam mesmo! Não têm distinção, não há preconceito algum. E música boa se faz, pô, em toda parte.

BIZZ - Como você enxerga o rock nacional?
Chico - Tenho ouvido e lido coisas bem interessantes. A nível de letra, tem coisas muito boas. A linguagem rock... é muito interessante. Musicalmente confesso que não posso dar muitos palpites, porque não é minha especialidade. O rock me influenciou quando eu tinha 15, 16 anos de idade - eu ouvia Elvis Presley. Acho que há elementos de rock na música brasileira há muito tempo; aliás, sempre houve influência da música estrangeira - principalmente a música americana - o que sempre foi combatido pelos grupos radicalmente tradicionais, mas sempre acabou sendo assimilado. Só que depois as pessoas se esquecem que, por exemplo, o Pixinguinha foi acusado de ser fortemente influenciado pelo jazz, ou que a bossa nova, para muitos, era música norte-americana. Hoje tem essa coisa de querer hostilizar o rock; isso é besteira. Eu me interesso pelo rock na medida em que ele vá sendo assimilado ou que ele assimile também elementos de música brasileira. Porque senão a música brasileira vai ficar sempre a reboque da música de fora. Acho que, assim como podem entrar elementos de rock na minha música, o rock nacional tem de assimilar elementos da música brasileira, rítmicos ou harmônicos. Pode se criar uma coisa inteiramente nova. O Brasil é capaz de uma contribuição musical a nível universal, porque a música brasileira é universal, é muito forte - você pode colocá-la no primeiro time da música universal. O próprio rock nacional, quando for mesmo brasileiro, vai ter condições de sair por aí, ser exportado e de arrebentar.


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