Revista 365 - 1976


Agora que você é pai pela terceira vez, o que acha da música para crianças feita no Brasil?

O que mais se vê são as mesmas canções infantis com as mesmas personagens da minha infância, e lá se vão anos. Principalmente aquelas figuras do Walt Disney, cantadas numas versões aliás muito boas do Braguinha, o João de Barro. Mas é uma pena, porque são coisas que não têm nada a ver com a criança brasileira. Ao mesmo tempo, vão-se perdendo as cantigas de roda, as cantigas de ninar, as canções juninas, todo esse repertório muito bonito que eu ainda peguei, que era transmitido pela tradição oral e que os disquinhos hoje em dia quase não registram.

E pensa compor para as crianças?

Eu acho que a gente precisa trabalhar nesse campo aí. O Vinícius é que tem umas canções sensacionais, mas elas são mais conhecidas na Itália do que aqui. Também tenho tentado alguma coisa no gênero, mas ainda não consegui arrebatar minha platéia, minhas três filhas.

Oual o seu disco que mais vendeu? Foi "A Banda"?

Não foi "A Banda", não, foi "Construção". Aliás, disco compacto que mais vendeu foi o "Apesar de Você" apesar de tudo. Mas disco grande foi "Construção", mesmo com letra comprida e aquela trapalhada toda. Além disso, "Construção" me valeu este troféu (uma pá de pedreiro incrustada num tijolo) que me foi oferecido pelos Trabalhadores de Construção Civil de Belo Horizonte.

Chico, as suas composições são feitas com intenção de denúncia ou protesto?

Não, minhas músicas não são feitas com nenhuma intenção. São feitas mais com intuição, com emoção, com estalos assim, e o que elas têm de elaborado é só a parte formal. Mesmo quando elas abordam temas sociais. Acho que canção de protesto, canção definida e dirigida politicamente, ou ideologicamente, acho que não há condições pra se fazer uma canção assim, no Brasil, no momento. Não passa. Quer dizer, nem passa pela cabeça de ninguém. Então, eu não sou um cantor de protesto. Pode dizer que eu sou um cantor do cotidiano. Um cantor de resmungo. E uma pessoa de protesto, Pode dizer isso.

Você então é apenas um rebelde emocional, sem consistência...

Bem, só se você julgar que emoção é um troço inconsistente. Você acha?

Sou apenas o entrevistador...

Pois é, e eu sou um artista. Você deve saber disso quando vem me entrevistar. Então, o meu trabalho é só fantasia, é música, é teatro, é novela. Claro que eu, cidadão, que ando na rua e leio jornal, eu, pessoa física razoavelmente bem informada, claro que tenho uma posição mais ou menos racional diante das coisas. Mas essa pessoa só tem importância pública enquanto o seu trabalho for conhecido popularmente. Mas acho que não foi isso que você perguntou, foi? É, você perguntou sobre as intenções da minha música. O que eu quero dizer é que qualquer posição que eu tome hoje, se ela tiver alguma ressonância, é porque eu sou o autor de "A Banda".

Não estou entendendo. Se é para me contundir, eu mudo o tom da entrevista para temas mais amenos: qual o seu tipo de mulher, qual o nome do seu primeiro carro, por que você não continuou arquitetura, a que horas você dorme etc.

A revista é tua.. Ô Rui (Rui Guerra), dá mais um uísque a esse cara pra ver se ele fica menos chato.

Chico, é claro que não vim a sua casa para saber da sua vida particular mas para divulgar o que você sente e pensa. Você está disposto a um papo mais sério?

Eu topo esse papo. Não sei se vou dizer coisas novas ou muito importantes, mas topo. Mas vê lá se não inventa hein?

Pode ticar tranqüllo, voce vai ler tudo antes de ser publicado.

Então tá.

Que representa para você o sucesso, a popularidade?

Eu acho que o sucesso é perigoso na medida em que é aconchegante. Nos tempos da TV Record, fiquei muito popular por causa dum programa de adivinhação. Eu apertava um botão, cantava uma música e ganhava um carro, ganhei uns quatro Gordini e as pessoas me seguravam na rua. Depois tudo mudou. Só pra citar um exemplo, passei um ano sentado aí com esse galego (Rui) escrevendo uma peça de teatro que ninguêm viu (Calabar). Mas foi muito melhor pra mim do que ganhar 365 Gordinis. A prova é que estou acabando de escrever outra peça. Dá um tremendo trabalho, é uma inquietação, uma angústia todo dia, mas quando a gente vê uma página acabada, uma coisa que a gente gosta, dá muito mais prazer que o reconhecimento público. Não que eu me lixe pra popularidade, mas te garanto que o prazer maior, a própria vaidade, está no ato da criação. Talvez por um mecanismo de defesa, não sei. Já estou meio acostumado a escrever e cantar pra mim mesmo, minha mulher, minhas filhas.

Utiliza, ou utilizaria, a sua popularidade para ajudar concretamente o ser humano?

Claro, sempre que possível. Vou te dizer uma coisa. Popularidade para uso pessoal dá mais chateação que regalia. Podem te oferecer um jantar, mas vão passar a vida te cobrando. Agora, acho que não se deve ter o menor pudor em usar e abusar da popularidade, até mesmo desgastar essa popularidade em nome de qualquer causa que você acredite. Evidente que aí você vai sofrer uma porrada de acusações, vão dizer que estudante estuda, cantor canta, operário opera, aquelas coisas. Mas eu continuo achando que é melhor ser censurado do que omisso.

A propósito, até que ponto a censura limita sua criatividade?

Esse tema é chato. De cara sou rigorosamente contra a censura. Não por motivos pessoais, mas por princípio. Do ponto de vista pessoal, ela tem me incentivado na mesma medida em que me bloqueia. Vou dizer, no momento mesmo em que tenho um trabalho censurado, fico como que entorpecido, desnorteado. Aí eles conseguem o que querem, porque já estou convencido que a intenção dos censores é mais punir o autor do que interditar a sua obra. Então eu fico realmente vazio, fico achando tudo inútil, por alguns dias. Mas tem a volta. Daí a pouco a gente se mete noutro trabalho com mais garra ainda, sem se incomodar se vai ser censurado ou não, pelo prazer de trabalhar, ou para não enferrujar, ou só pra chatear. Agora, saindo do plano pessoal, acho que a censura à informação é um erro grave, porque, limitando a divulgação, impede o conhecimento amplo das verdades e cria uma falsa realidade que acaba contagiando os próprios responsáveis pela censura. Além de criar um clube fechado de impunidades. A censura à criação e manifestação artística limita e marginaliza o autor teatral, o músico, o cineasta, muitas vezes obrigando o cara a fazer malabarismo pra dizer alguma coisa. Alguma coisa que só passa para uma pequena elite que já sabe dessa coisa. A obra de arte nacional acaba se afastando do povo, acaba ficando chata. Como me disse um garotão chofer de táxi outro dia: "Essa música de vocês não tá com nada. Eu gosto de música americana que a gente não entende nada mas tem aquele ritmo." Enfim, a censura acaba dificultando o surgimento de gente nova em todas as áreas da criação. Acredito que isso atende a altos interesses que não são os da nossa cultura.

Com a evolução da sua música o seu público não ficou limitado?

O problema é que o maior veículo de comunicação, que é a televisão, não está interessado realmente em divulgar a música brasileira. E, quando o faz, geralmente compromete essa música. A televisão, hoje, é uma só e é praticamente um órgão paraestatal que, paradoxalmente, sofre restrições da censura federal, mas exerce outras censuras suplementares por conta própria. Mas é claro também que, uma vez bloqueado o contato mais assíduo do artista com seu público, a arte vai perdendo seu compromisso com o popular. O público que hoje se identifica mais com a minha música está na faixa universitária. Mas eu tenho tentado retomar contato com outras áreas e a peça que acabo de escrever com o Paulo Pontes é um exemplo dessa tentativa. Nossa intenção é estrear "Gota d'água" num subúrbio, que onde a peça se situa. Vamos testar, vamos ver se a gente ainda é capaz de falar a língua do povo, vamos ver se o povo se reconhece nas personagens. E difícil, porque já faz algum tempo que esconderam esse povo lá longe e a gente só sabe dele raramente, quando divulgam um quebra-quebra na Central.

Além dos estudantes, a alta burguesia é parte do seu público. Por quê?

Não sei muito bem. Ela aceita e aplaude até as músicas que de certa forma a agridem, porque não se sente ameaçada. Daí as minhas músicas serem mais ouvidas nas chamadas rádios classe A do que nas mais populares. Tem também o fato da gente não aparecer muito na televisão. Isso é ruim porque dá um caráter meio elitista à nossa música. Mas é conseqüência daquilo tudo que já falei.

Já Ihe passou pela cabeça dar de herói e tentar dar uma "virada" no mundo?

Você quer me gozar, não é? Aliás, não é o primeiro que me acha quixotesco. Mas o pouco que tenho feito e dito não passa de minha obrigação. Chiar contra isso ou aquilo, acho até que é salutar. Acho que o bom cabrito berra. Agora, falar esse negócio de herói é mitificação ou pura sacanagem. O Brecht dizia: feliz do povo que não tem heróis. Por aí você calcula o grau de felicidade dum povo que vai catar herói nos camarins de teatro.

No que você veste, no que você compra, sente-se influenciado pela sociedade de consumo?

Eu quase não faço compra nenhuma e ando meio mal vestido. Acho mesmo que reajo em sentido contrário às imposições da sociedade de consumo. Talvez por me sentir ameaçado, eu sou um cara fora de moda, tenho um certo fascínio pelas coisas fora de moda, não estou falando em nostalgia, é claro, que é moda. Não uso muito as gírias do momento, gosto de contrabaixo de pau, de piano de pau, toco violão de pau e sou um compositor de pau. Mas eu tenho consciência de como a tecnologia da sociedade de consumo domina o homem ou como os especialistas da comunicação — especialmente através da TV — conseguem manipular grande parte da população e lhe impingir todo tipo de produto e de informação. E mesmo atento a isso, não deixo de cair na armadilha de vez em quando. Só pra citar um exemplo, já me surpreendi falando do nosso futebol tricampeão do mundo, quando todo mundo sabe muito bem que o Brasil nunca foi tricampeão do mundo, isso é balela, isso é impostura, invenção ufanista. Para ser tricampeão, o Brasil teria que ganhar três campeonatos seguidos, o que não aconteceu.

Pra não fazer concessões você baixaria seu nível de vida?

Claro, se bem que pra mim é fácil dizer isso. Tenho um nível de vida acima do que preciso. Depois, sou bem remunerado no meu trabalho, sou pago para fazer o que gosto. A não ser os shows, que não gosto muito mas acho importante fazer. Bem, então não preciso fazer concessões, basta trabalhar e eu trabalho paca, podes crer. Mas isso não me dá o direito de julgar quem faz concessões, não para sustentar um alto padrão de vida, mas para sobreviver mesmo. Mas, espera ai, há concessões e concessões.

Você acredita que a fome seja um problema basicamente provocado pela superpopulação?

Eu não entendo nada disso. Mas olha, eu já andei muito por este Brasil e posso garantir que vi muito mais terra por cultivar do que cultivada. Mas muito mais. E dois terços da população brasileira estão concentrados nos centros urbanos, não é isso? O sujeito não tem condições de cultivar sua terra, que geralmente não é sua, e vem se amontoar nessas cabeças-de-porco dos subúrbios, em condições sub-humanas. Então eu acho que tem qualquer coisa errada. O grande fazendeiro que planta só café porque está rendendo no mercado, o governo que incentiva porque vai ganhar na exportação, daí plantou café demais, então queima o café pra não dar prejuízo, daí todo mundo planta soja, depois importa cebola da Espanha porque aqui ninguém plantou cebola, daí a pouco queima a soja e o país morre de fome. Eu não entendo isso. Depois os grandes fazendeiros, que não morrem de fome, vão se queixar do governo e vão fazer pressão por causa da baixa rentabilidade e essas coisas. Só há interesse imediato, é claro, o fazendeiro tem mesmo é que lucrar, não compete a ele zelar por mais ninguém. Se a terra pertencesse ao Estado, aí sim, acho que dava para planificar as coisas segundo o interesse do país e de seu povo, o que deveria ser a mesma coisa. Eu acho óbvio que a terra deveria ser propriedade do Estado. Assim como o subsolo e o mar de 200 milhas, por que não? E o ar também. Porque você sabe que, se amanhã desmatassem a Amazônia, ia faltar oxigênio em todo o planeta. Assim como a Amazônia, outros tantos pulmões em todo o Hemisfério Sul. Então veja, fica esse tremendo desequilíbrio entre os países industrializados do Hemisfério Norte e os subdesenvolvidos do Hemisfério Sul, que vai ficar sempre por baixo até no atlas. Então, se somos nós que produzimos o oxigênio, que é vital, que é muito mais importante do que o petróleo, vamos cobrar por isso. Você não precisa me levar a sério, mas vou propor que os países do terceiro mundo formem a OPEO, Organização dos Paises Exportadores de Oxigênio. Os países industrializados ficariam nos pagando uma espécie de taxa de subdesenvolvimento que equilibrasse o balanço internacional. E cá embaixo, o oxigênio seria administrado como um monopólio estatal. Senão ficava que nem as terras, uns poucos latifundiários do ar e um monte de povo no sufoco.

O artista, através de sua arte, poderia modificar o ser humano?

Eu acho que o homem vai ter que se modificar, pelo próprio instinto de sobrevivência. Não acredito que isso vá acontecer por influência de um indivíduo, muito menos por ordens superiores. A sociedade é que deve se aperfeiçoar por uma dinâmica própria, de baixo pra cima, com a participação da grande massa de indivíduos, certo? Quer dizer, o homem modificando a sociedade para a sociedade modificar o homem. Isso pode parecer utópico, mas, como eu já lhe disse, eu sou artista e não político; nem sociólogo. É nessa utopia que entra a contribuição da arte que não só testemunha o seu tempo, como tem licença poética pra imaginar tempos melhores.

Mas, que tipo de sociedade poderia aperfeiçoar o homem?

Não sei, é difícil dar uma resposta assim, que eu próprio considere definitiva. É mais fácil responder que tipo de sociedade não pode aperfeiçoar o homem, pior, só tende a avacalhar com o ser humano. É uma sociedade cujos apelos se baseiam no egoísmo, no individualismo, no jogo de interesses, no pega pra capar, em tudo isso que você vê. Uma sociedade onde quem não entra nessa roda é definitivamente um otário.

E a solução?

Não sei, mas ainda acredito que uma sociedade, onde a renda seja de tal modo distribuída que possa assegurar ao homem suas necessidades básicas, uma sociedade assim pode gerar um homem novo: um homem menos egoísta, um homem mais social, um homem realmente livre.

Já o acusaram de oportunismo?

Já, e eu sei ao que você está se referindo. Acontece que nesse caso como num outro parecido e mais recente, a acusação não tinha fundamento porque eu não vivo nas capas das revistas semanais, não poso para publicidade, não assino contratos milionários com a televisão, muito menos me candidatei a intelectual do ano, como se insinuou. Mas eu podia ter feito qualquer dessas coisas sem precisar ser necessariamente um oportunista. Agora, fazendo o advogado do diabo contra mim mesmo e outros colegas, é verdade que o artista que se manifesta contra o sistema vigente conta de cara com a simpatia da grande maioria do público. Assim como quem se manifesta abertamente favorável a isso aí, não tem muito futuro não. Então, o contexto permite que um ou outro artista se manifeste contra as coisas por mero oportunismo. Mas isso nós vamos conferir daqui a pouco. E é secundário. O importante é constatar que a opinião pública, em sua grande maioria, apóia quem se manifesta contra isso aí.

Oue prefere: dar shows, compor ou escrever?

O problema dos shows é que eles são muito desgastantes e, geralmente, tomam muito tempo e muita emoção, impedindo que eu me dedique a compor ou a escrever. O diabo é que, se a gente faz show num determinado ano, tem que fazer no ano seguinte para pagar o imposto de renda, pelo menos. Mas agora eu engatei esses cinco meses com a Bethânia no Canecão, que é uma coisa mais tranqüila. Não tem avião, não tem hotel, e eu tive tranqüilidade para trabalhar nas tardes em cima do "Gota d'Água".

Fale de "Gota d'Água".

É uma adaptação da Medéia de Eurípedes para um subúrbio carioca. A idéia original é do Vianinha, que chegou a escrever um "caso especial" que passou na televisão. Aí ele não teve tempo de desenvolver a peça para o teatro. O Paulo Pontes resolveu levar adiante o projeto e me procurou para um trabalho a quatro mãos. É claro que estou apaixonado pela peça, ficou pronta agora há pouco. Mas como ninguém conhece ainda, não fica bem eu elogiar o trabalho. Só posso dizer que deu uma tremenda mão-de-obra tudo rimado e metrificado como manda o figurino, 4 mil versos e dez canções. Os versos podem até ser ruins, mas 4 mil é um número que impressiona, não é mesmo? Bem, a peça está há três semanas em Brasilia, acho que estão gostando muito dela, estão lendo com a maior atenção. Mas, falando sério, acho que desta vez não vai haver problemas.

Parece que agora você prefere escrever...

Talvez sim, acho que é fase. Mesmo assim, tenho composto uma canção ou outra, pouca coisa. Acontece que, antes de começar a compor, eu já escrevia. Nos meus tempos de estudante não livrei a cara de nenhum jornalzinho. Modéstia à parte, sou fundador do glorioso hebdomadário "Verbâmidas". Bem antes da Banda publiquei um conto, aliás fraquinho, um conto chamado "Ulisses", no Suplemento Literário do Estado de São Paulo. Depois, foi a música que me desviou. Mas eu continuava escrevendo, sem muita continuidade, uma coisa ou outra que eu submetia ao crivo de meu pai, que é um crítico literário exigente. Digo isso tudo porque, quando achei que estava preparado, desfiz contratos e me tranquei num quarto durante nove meses para parir a "Fazenda Modelo". E digo isso tudo porque tenho certeza de que fiz um bom trabalho.
 


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