Antônio Chrysóstomo
"Eu só podia resistir"
O COMPOSITOR DE "CONSTRUÇAO", PRONTO PARA NOVO VÔO, CONTA OS PROBLEMAS QUE ENFRENTOU
Às 5 horas de uma tarde ensolarada, entrevista pelas janelas da Phonogram, no Rio de Janeiro, produtores e funcionários da gravadora ouviam a fita original do último LP de Chico Buarque de Hollanda, "Meus Caros Amigos", a sair dentro de três semanas. À beleza do sol quase se pondo vinha se juntar, após algumas passadas da fita, a certeza geral de que aquele disco se constituía, quando menos, em mais uma prova do nunca desmentido talento criador de Chico Buarque. A luminosidade do momento, porém, era quebrada por uma perspectiva inquietante. A faixa mais forte, "O que Será" (música e letra de Chico, gravada em dupla com Milton Nascimento), justamente aquela para a qual os homens da Phonogram previam, em realista projeção de mercado, sucesso imediato de venda e de crítica, ainda não fora liberada pela Censura.
A aprovação dos censores talvez aclarasse, pelo menos parcialmente, o quadro profissional enfrentado pelo compositor nos últimos anos: uma peça, "Calabar", proibida inclusive de citação pela imprensa; a gravação de um LP necessariamente confuso, "Chico Canta", em que as músicas da peça teatral eram apresentadas com letras pela metade ou, em algumas faixas, inteiramente emudecidas. Mais: o LP seguinte, "Sinal Fechado", trouxera apenas músicas de outros compositores.
Eis, no entanto, que o telefone tocou no estúdio e Sérgio Carvalho, o produtor, atendeu. Um sorriso, de canto a canto do rosto, e a notícia: "O que será" acabara de ser liberada, sem cortes.
Imediatamente, os circuitos de som da Phonogram passaram a transmitir as vozes de Chico e Milton Nascimento em dueto de insuspeitada adequação vocal. "Que será, que será/Que andam suspirando pelas alcovas/ Que estão falando alto pelos botecos/Que vive nas idéias desses amantes/ Que cantam os poetas mais delirantes/Que juram os profetas embriagados/Que está na romaria dos mutilados/Que está na fantasia dos infelizes/Que está no dia-a-dia das meretrizes?"
Chico Buarque, que havia condicionado esta entrevista ao término de todos os trabalhos do disco, aproximou-se então do repórter de VEJA e comunicou-lhe que o instante era chegado. Aos 32 anos, compositor e cantor ligado à música popular brasileira desde 1966, ano de lançamento de "A Banda", autor de três peças de teatro "RodaViva", "Calabar" (com Ruy Guerra) e "Gota d'Água" (com Paulo Pontes)-, pai de três filhas (Sílvia, 7 anos, Helena, 5, Luísa, 10 meses), Chico passou quase duas horas trancado numa sala com seu entrevistador. A conversa:
VEJA Recentemente, a imprensa carioca divulgou que você estaria se despedindo oficialmente de toda e qualquer apresentação ao vivo. No mesmo sentido, nota-se um esforço seu em se concentrar mais na criação, em detrimento da imagem pública do astro. O que está de fato acontecendo?
CHICO Estou, realmente, me concentrando mais no trabalho criativo. Muito mais do que antes. Agora, escrevo peças - eu e Paulo Pontes já partimos até para uma nova empreitada, uma comédia , faço músicas para filmes e teatro, eventualmente posso até voltar a escrever um livro. Isso me toma todo o tempo. Uma opção, porque fazer show me desgasta muito. Agora apareceram notícias, aqui no Rio, sobre isso. Realmente, eu não estou com nenhuma intenção de fazer shows nos próximos tempos. Mas daí a me despedir vai uma grande distância. Depois, pode aparecer uma boa proposta e eu estar numa época de vazante financeira.
VEJA Uma curiosidade: você mesmo diz que tem até disenteria durante as temporadas. É medo?
CHICO Medo não. É pânico de público. Se fosse só o momento de pisar no palco ainda daria para entender. Mas todo o meu dia, todo trabalho que esteja fazendo ficam prejudicados pela idéia de que à noite vou estar à frente de centenas, milhares, sei lá, de pessoas, escondidas naquele buraco escuro que é a boca de cena. A gente é visto sem ver. Terrível.
VEJA Se você sente pânico em relação a público por que aceitou, até hoje, participar de festivais, espetáculos, tudo isso?
CHICO Já é um problema de sobrevivência. Como compositor, eu não posso viver só de direitos autorais. Quando se lança um disco e ele faz sucesso, é possível ficar, durante três ou quatro meses, na dependência financeira das rendas desse disco. Fora disso, a solução é aceitar as regras do mercado. enfrentar o público.
VEJA Você grava as suas músicas, faz sucesso, é famoso. De uma ou de outra forma, pelo que se entende, fatura bem e, conseqüentemente, mantém seu tipo de vida. Além do bem que sua arte proporciona a você mesmo, subjetiva e objetivamente, qual seria a ação dela sobre os outros?
CHICO Esse negócio de "fatura bem" é que eu não gosto. Não é bem assim. No tempo da Televisão Record, por exemplo, em que eu era o astro de que você falou, ganhava muito dinheiro. Dois anos depois pedia dinheiro emprestado para sobreviver, na Itália. Voltei ao Brasil, ganhei dinheiro de novo, comprei um terreno em Petrópolis. Proibiram "Calabar" de que, além de autor, eu era um dos produtores. Tive prejuízo grande. Vendi o terreno de Petrópolis, hipotequei o apartamento em que morava, meus únicos bens na época. Então, faturo? Sou rico? Na verdade, nunca vi artista enriquecer no Brasil através de sua arte. Enriquece quando aplica bem, especula por fora. E eu sou mau investidor, não tenho jeito para negócios.
VEJA Por que a palavra faturamento o incomoda tanto?
CHICO Estamos vivendo um momento perigoso. Qualquer pessoa que tenha um certo destaque de repente se vê envolvido numa rede de boatos. Passo a vida pensando em responder por carta aos jornais e revistas que publicam coisas erradas sobre mim. Mas aí já não haveria tempo para viver minha vida, pois as invenções, não sei se propositadas ou não, são divulgadas quase diariamente. Então aproveito agora para esclarecer: essa história de que o artista está rico no meu caso, particularmente parece destinada a colocar esse artista contra o povo, contra o público de que ele depende, para ser compreendido e para sobreviver. Podem falar mal de meus discos que não me importo. Profissão é profissão. Agora, as acusações pessoais, essas sim, machucam, prejudicam minha vida. meu trabalho. E muito.
VEJA Qual seria, no seu entender, a utilidade social maior da arte?
CHICO Não tenho condições de ver, de fora, qual a importância do meu trabalho. Mas às vezes me passa pela cabeça se a música, mesmo a música de forma mais revolucionária. teria mesmo condições de alterar, em alguma coisa, o processo político. Agora proíbem tanto que sou obrigado a acreditar que uma música, uma peça de teatro, um filme, importam, de fato, dentro de um contexto geral. Essa é uma impressão de fora para dentro, causada pelas proibições. De dentro para fora, minha tendência é desprezar um pouco o que faço porque sou um sujeito cheio de dúvidas, de autocrítica.
VEJA Mas você tem tido menos problemas com a Censura nos últimos meses. Ou não?
CHICO Estatisticamente, sim. Inclusive está havendo revisão de algumas proibições anteriores. Mas a gente não pode ficar todo contente só por isso. O problema é mais grave. A censura tem de acabar e não voltar nunca mais. Ela mutila todas as características de uma época. Esses meninos que estão começando a fazer música agora. Já imaginou? Se nas primeiras tentativas, como tem havido tantas e tantas que ninguém nem sabe tudo já vem proibido, isso produz a monstruosidade da autocensura, fatal a qualquer tipo de atividade criadora. Há uma geração que nasceu dentro da censura, para a qual o certificado de liberação é tão normal e necessário quanto a carteira de identidade. Para mim, para uma geração que se criou quase que sem censura, é chocante ter de mandar textos, às vezes muito íntimos toda criação requer uma entrega muito particular , para um funcionário examinar, dizer se pode ser divulgado ou não. Com o garoto que surge agora não é assim. Por isso que tem tanta gente compondo em inglês, pois é mais fácil de passar. "Da próxima vez vou procurar acertar, pois parece que fiz algo de muito errado." Esse é capaz de ser o raciocínio do garoto que começa e se vê censurado.
VEJA Nesse caso, o panorama objetivo da musica brasileira ou da arte no Brasil seria desolador?
CHICO Sem dúvida nenhuma. O pessoal tido por novo que está aparecendo tem de 30 anos para mais. Criadores que já existiam antes da institucionalização da censura absoluta. Pessoas, portanto, habituadas a criar dentro de uma outra realidade, que só não apareceram antes e divulgaram o seu trabalho por questões circunstanciais, pela própria luta que é firmar uma carreira artística num meio adverso. E a radicalização da censura já existe pelo menos há oito anos e afetou toda uma geração que poderia ter gerado criadores. Isso na música, no teatro, no cinema, na literatura. Noventa por cento dos compositores, dos cineastas, dos dramaturgos que aí estão já existiam há dez anos. De repente, lá por volta de 1960, todo mundo era jovem inteligente, bonito, genial e agora não. Por quê? Aquela gente não era mais inteligente do que esta de agora. Simplesmente estava acostumada à euforia pela arte do seu país, ao reconhecimento de seu valor. E não existia censura, pelo menos assim como atualmente.
VEJA Então, o problema da descaracterização de uma arte brasileira, e a tão debatida questão da colonização cultural teriam muito a ver com a censura?
CHICO Claro, basicamente tem muito a ver. Não gosto de ficar discutindo questões de raízes culturais, mas não há muito sentido em ficar tentando fazer, por exemplo, um som eletrificado rotulado de universal, num país que tem música própria riquíssima, tanto que todos os astros do rock internacional, do jazz, da música erudita, se apropriam, direta ou indiretamente, dessas fonte musicais de inspiração, autenticamente brasileiras. É aí que surge a questão econômica. Já estão fabricando pandeiro cuíca nos Estados Unidos melhores que os nossos. Chegam ali na birosca do Manuel, pegam um pandeiro, examinam, viram do avesso, levam para os Estados Unidos. Logo depois surge, como está surgindo, um pandeiro made in USA. Acho que estamos desperdiçando o que temos de melhor, o nosso talento. Aos pouquinhos, estamos perdendo tudo que temos. E a garotada que faz música só pode gostar de rock, que às vezes eu também gosto. Não condeno, mas eles crescem só escutando rock, nas rádios e na televisão. Ninguém pode exigir deles que façam música brasileira se a formação deles, imposta, é outra.
VEJA Mais claramente, o que ocasiona esse impasse cultural, aqui mesmo dentro das fronteiras nacionais?
CHICO Além da censura, a questão do dinheiro. É mais barato para as gravadoras importarem matrizes de discos gravados no exterior do que aumentar a produção interna, quase sempre também reduzida ao consumo interno. Não sei muito de dados, números, estatísticas precisas mas, Roberto Menescal, por acaso, já comentou comigo que um lote de dez matrizes estrangeiras pode ser comprado, pela filial de uma gravadora estrangeira instalada no Brasil pelo modesto adiantamento de hipotéticos 100 000 dólares, cerca de milhão de cruzeiros. Isso, se no lote houver pelo menos dois sucessos, daqueles que estouraram nos hits parades. Fora desses 100 000 dólares, o que a importadora pagará serão apenas porcentagens sobre os lucros, se as músicas estourarem também aqui, o que não é raro acontecer. Quando se sabe que a produção de um disco como esse meu, que vai sair, custou 450.000 cruzeiros antes mesmo de chegar à linha de prensagem das cópias, além do trabalho, da luta, do desgaste pela sua liberação, é fácil entender porque os discjóqueis têm muito mais material estrangeiro para tocar nas rádios do que discos nacionais, criados, labutados, produzidos dentro de um prisma político-cultural brasileiro. Instala-se, nesse caso, um danoso circulo vicioso do qual é preciso fugir.
VEJA Concretamente, fugir como?
CHICO Eliminação da censura. Liberdade para criar e ver o Brasil. Do lado prático, proteção governamental, através de leis como as que já existem e são cumpridas para o cinema brasileiro. Uma lei como a de exibição obrigatória a chamada reserva de mercado de tantos filmes brasileiros por ano. Se o produto estrangeiro é mais barato, já vem pago de seu país de origem compete aos brasileiros, só aos brasileiros, a ninguém mais, proteger o que é seu. Existe uma lei, sim, do tempo de Jânio Quadros, que obriga a divulgação meio a meio, 50% de música estrangeira e 50% de música nacional, pelas emissoras de rádio. Mas nunca foi cumprida. No caso, bastaria cumprir uma lei que já existe. Não parece simples? Mas só parece, a gente sabe.
VEJA Isso seria, a seu ver, o reflexo de uma situação mais grave e mais profunda?
CHICO É, eu acho que sim. Mas daí já se entra num campo um tanto ou quanto mais delicado... Digamos que aí já vou entrar num campo que não domino, de política econômico-financeira, de que não sei nem a terminologia, e sou capaz de fazer uma afirmativa sem base, no ar, o que é sempre um perigo. Mas é claro, está na cara, que no meu tempo aqui não era a terra do Marlboro. Os cigarros ainda tinham o recato de se chamar Continental. Agora, é tudo mais ostensivo. As marcas de fora são aceitas como melhores tanto nos cigarros quanto no teatro, na música ou no cinema.
VEJA Durante a entrega dos prêmios Molière, dos melhores do teatro carioca, recentemente, no teatro Hotel Nacional, correu a notícia, ou boato, de que sua ausência e a de Paulo Pontes, escolhidos como melhores autores teatrais de 1975, por "Gota d'Agua", teria, vamos dizer, uma relação com tudo o que você disse acima.
CHICO Muita gente disse: que atitude orgulhosa, antipática. Pois é, uma atitude antipática a gente tem de tomar de vez em quando. No caso, porque as pessoas se esqueceram de que, em 1975, quando "Gota d'Àgua" foi considerada a melhor peça, no mesmo ano, para citar só um caso, "Abajur Lilás", de Plínio Marcos, foi proibida. Neste mesmo ano, "Rasga Coração", de Oduvaldo Vianna Filho, teve abortada uma tentativa de encenação, também por ordem da Censura. Eu e Paulo Pontes conversamos e chegamos à conclusão de que seria pouco ético botar smoking e ir lá receber um prêmio que talvez nem fosse da gente. Se "Abajur Lilás" ou "Rasga Coração tivessem conseguido chegar ao público, portanto disputar aquele prêmio, será que nós teríamos sido os autores escolhidos? Por isso não fomos.
VEJA A festa do Molière foi transmitida pela Rede Globo. E seu relacionamento atual com a Globo parece não ser dos melhores.
CHICO Não é mesmo. Mas isso não influiu no fato de estarmos ausentes da festa de entrega dos prêmios. Agora, se quer saber, meu caso com a Globo tem outras implicações. Na época em que mais precisei de dinheiro, em que a Censura estava mais brava, eu todo endividado, o pessoal da Globo, ninguém em particular, apenas um porta-voz da máquina Globo de Televisão, disse que eu estava proibido de aparecer em seus programas. Depois suspenderam a proibição e ficou um problema cíclico, de proibição ou ausência voluntária, de minha parte. Porque nunca ninguém se responsabilizou pela proibição, porque a Globo é prepotente, resolvi me afastar voluntariamente de seus programas. Chegaram a dizer que não precisavam de mim. Eu também não preciso dessa máquina desumana, alienante. Então estamos quites. A verdade é que quiseram fazer molecagem comigo. E isso eu não admito. Máquina nenhuma do mundo, em nome de nada, pode desrespeitar um ser humano no seu direito básico de trabalhar para seu sustento.
VEJA Já que se chegou ao terreno pessoal, vamos nos aprofundar. Quando viveu fora do Brasil, quando as proibições aumentaram, houve desânimo, vontade de parar?
CHICO Desânimo? Sim. Quase desespero. Mas surgia a idéia de que, se estavam me proibindo, proibindo tudo que fazia, isso devia ter alguma importância. Meu trabalho, então, parecia poder ser útil a alguém. Minha resistência também. Daí eu só podia resistir. E continuei.
VEJA A que esta espécie de estoicismo poderia conduzir?
CHICO Os momentos de perplexidade, quando bem digeridos, só podem conduzir à ação, aos fatos. Nada daquela história de coitadinho. Nem de dizer que artista censurado é artista proibido, que vende mais. Para um raciocínio honesto, realista, podemos, exemplo, citar números. O LP "Chico Canta" era para chamar "Chico Canta Calabar". Com a proibição da peça, o título diminuiu. A capa também, censurada, ficou toda branca. E o "Chico Canta" do título cantava o quê? Muito pouca coisa, apenas algumas letras pedaços de letras permitidos pelos censores. Pensa que isso gerou promoção Foi o disco meu que menos vendeu. Censura não rende nada, nem divulgação
VEJA Finalmente, o que pode ser feito, de objetivo, para a sanidade da arte produzida no Brasil?
CHICO Primeiro, a arte teria ser deixada em paz. Só depois é que se poderia pensar em medidas de apoio, de proteção. Primeiro, a liberdade. Depois, as leis de proteção, as verbas de incentivo, o apoio oficial realmente positivo do tipo que fomenta sem subjugar.
VEJA De seu ângulo, como vão os artistas brasileiros, neste instante
CHICO Apesar de tudo vão bem. Só que sem muito obrigado, pois o há de positivo não se deve a ninguém mas a todos. Sinto meus colegas muito atuantes. O pessoal de teatro se juntar para mudar uma injusta lei de regulamentação de sua profisssão. Um filme como "Xica da Silva", de Cacá Diegues, um show como "Doces Bárbaros", dos baianos, são provas de que a arte brasileira está aí, viva, produtiva. A Sombras reúne compositores em defesa de si mesmos, de seus direitos mais primários. Então, o momento é sempre foi, sempre será de união de todos os que desejam preservar a arte brasileira em sua pujança nunca negada e em uso pleno da necessária liberdade de criar