Diversos
O som do Pasquim
Quando Chico Buarque soube que a entrevista que deu pro PASQUIM ia sair neste livro, bronqueou: "De jeito nenhum, aquilo está completamente desatualizado!" "Mas como é que o livro vai sair sem você, Chico?", ripostamos. O jeito era fazer nova entrevista; Chico teve que interromper os ensaios da "Gota d'água" e nós largamos a redação no dia do fechamento de edição, numa sexta-feira. Antes passamos num armazém pra comprar a bebida predileta do Chico, uma garrafa de Fernet Branca, e fomos nos encontrar com ele no Comidinhas e Bebidinhas ali na Lagoa. Tudo às carreiras, numa verdadeira reprise da "Roda Viva". Mas valeu: pra nós que papeamos com o Chico durante 3 horas e bebemos com ele o Fernet, muito chope e caipirinha e pra vocês que ganharam uma entrevista zero quilômetro, inédita e exclusiva.
Jaguar - (A entrevista começa com Ziraldo brindando os presentes com uma magnífica
interpretação de "Carolina" em espanhol, batucando o bolero com os dedos na
mesa).
Ziraldo - Quando você era adolescente, sacava que música iria ser a sua?
Chico - Até receber meu primeiro cachê - e até
mesmo depois - nunca imaginei que fosse viver de música. Não tava nos meus
planos. Sempre gostei muito de música, escutei muita música na minha
infância, inventava músicas de brincadeira na escola...
Ziraldo - Você lembra de algumas dessas músicas?
Chico - Não. Mas havia colaborações no nosso jornalizinho de escola, escrevia
versos, bobagens mesmo.
Ziraldo - Antes de compor, você gostava de escrever?
Chico - Sim. Tudo que era jornalzinho de escola...
Jaguar - Quais escolas?
Chico - Fiz ginásio e científico numa escola de padres em São Paulo, Santa
Cruz, com uma saidinha pra Cataguases, onde fiquei interno seis meses.
Também escrevi para um jornal de Cataguases. Jornalzinho era comigo.
Ziraldo - Em Cataguases contam com grande orgulho que você foi aluno do
colégio de lá. Parece até que você passou a vida toda lá.
Jaguar - É aquele colégio que tem o painel do Tiradentes?
Chico - É. Tem muita coisa lá.
Ziraldo - Você é paulista, né?
Chico - Não, sou carioca, mas me formei em São Paulo.
Ziraldo - Que maternidade você nasceu?
Chico - Na São Sebastião, no Largo do Machado.
Ziraldo - Foi garotíssimo pra São Paulo?
Chico - Com dois anos de idade. Mas não me considero muito paulista. Minha
família toda era do Rio, e passava o tempo todo, as férias, no Rio. Meu apelido
em São Paulo era "Carioca". Fiquei meio equidistante entre paulista e carioca.
Ziraldo - Você é desses Hollandas todos que desceram do Nordeste?
Chico - Meu pai é paulista. Minha mãe é carioca.
Ziraldo - Que que o Aurélio é seu?
Chico - Nada. Deve ser parente lá nessas lendas.
Jaguar - (decepcionado) Eu pensei que fosse seu tio.
Ziraldo - Ele não é primo do Sérgio Buarque de Hollanda?
Chico - A bem da verdade ele não é Buarque de Hollanda. Esses nomes as
pessoas vão montando. Quem inventou "Buarque de Hollanda" foi meu avô.
Juntou "Buarque" com "Hollanda". O pai do Aurélio é Buarque Ferreira, tem um
"Hollanda" noutro lugar, e juntou. Aí criou essa confusão.
Jaguar - Você conheceu o Paulo Duarte?
Chico - Muito. Ia lá em casa, ele, Juanita.
Ziraldo - (começando a misturar os Buarque e os Hollanda): Teu pai é o
Sérgio, né?
Chico - Sérgio Buarque de Hollanda.
Ziraldo - Você fez vestibular pra alguma faculdade?
Chico - Pra Arquitetura. Larguei a FAU no terceiro ano.
Ivan Lessa - Aí já tava indo de música?
Chico - O violão baixou com a bossa-nova. Foi aí que comecei a me interessar
por música, pra valer.
Jaguar - Alguma pessoa te levou pra fazer música?
Chico - Vinícius era muito amigo lá de casa. Moramos dois anos em Roma, e
Vinícius era cônsul. Era meio um mito, chegava lá com o violão, cantava as
músicas dele. Lembro exatamente o dia em que saiu o disco do João Gilberto.
Dizia-se lá em casa: "Saiu um disco com músicas do Vinícius". Naquele tempo
ele tinha poucas coisas de sucesso, e "Chega de Saudade" tava pintando. O
pessoal lá em casa comprou o disco pelas músicas do Vinícius. Quando eu ouvi
me bateu na hora. "Chega de Saudade" bateu... (bate na mão) pa! Negócio de
ficar ouvindo dez, vinte vezes seguido.
Ziraldo - Você tinha tocado violão, aquele negócio de duas posições?
Chico - Não. A minha irmã tinha tentado me ensinar, mas eu não tinha me
ligado. Quando comecei a aprender tinha aquele negócio de bossa-velha e
bossa-nova. Minha irmã estudava bossa velha. Eu não queria saber mais... Eu e
um amigo meu começamos a tirar, de ouvido, imitar, a batida de bossa-nova no
violão.
Ziraldo - Pegou com facilidade?
Chico - Não. A minha mão... (olha para os dedos) não tem habilidade manual
nenhuma. Sou mau violonista até hoje.
Ziraldo - Mas dá pra quebrar o galho?
Chico - Dá inclusive pra compor. Dá pra tocar. Mas em gravação minha não
ouso tocar violão. Nunca toquei violão em gravação minha. A não ser na
primeira, "Pedro Pedreiro". Toco mal, por deficiência motora. Faço nada direito
com as mãos.
Ziraldo - Música também você nunca estudou?
Chico - Mais tarde tomei aulas com a Dona Graça. Aprendi alguma coisa de
teoria. Depois, com o contato com o violão, sei o que estou fazendo. Sei fazer
cifra.
Jaguar - Você escreve música?
Chico - Muito mal.
Ziraldo - Mas se não tiver um gravador, você escreve pra não esquecer?
Chico - Sim, acontece. Mas é quase impossível esquecer, porque na hora que
a gente faz, fica repetindo, repetindo. Quando tenho que sair, um negócio que
não pssoo desmarcar, aí gravo ou escrevo.
Ivan - Foi "Chega de Saudade" que te despertou, te levou pro trabalho. Então
você é filho da bossa-nova.
Chico - Sem dúvida nenhuma. Claro que depois voltou toda uma carga que eu
tinha. Mas antes da bossa-nova não tinha me interessado em pegar no violão.
Ziraldo - Isso foi em Roma ou em São Paulo?
Chico - São Paulo. Volta de 60, 61.
Ziraldo - Tava na faculdade?
Chico - Não. Antes da faculdade já tinha cantado em showzinhos de escola,
de formosura.
Ivan - Cantava o quê?
Chico - Aí comecei a fazer minhas musiquinhas. Queria ser bossa-nova, queria
cantar igual João. As melodias eram bossa-nova, a harmonia procurava ser...
tudo imitação.
Jaguar - Com aquela voz bem desmilinguida.
Ziraldo - Você é um cara criativo demais, tem uma inquietação criativa,
mania de ficar bolando coisas. Inventa jogo, escreve verso, escreve peças.
Você tem essa criatividade desde garoto?
Chico - Sim
Ziraldo - E a poesia? Pintou antes da música?
Chico - Fazia poeminhas, na escola.
Jaguar - Sonetinhos?
Chico - Sempre.
Ziraldo - E acrósticos?
Chico - Acrósticos! Pra namorada, a Liliana!
Tarik de Sousa - Não teve uma influência também do Vinícius anterior ao
João Gilberto?
Chico - Tinha, mas nunca me estimulou a tocar violão. Minha irmã, a Miúcha,
seu violão chamava Vinícius, cantava aqueles negócios. Mas eu pegava o
violão pra ouvir João Gilberto.
Jaguar - Obrigado, João Gilberto! Olha, muitas vezes acontece comigo de
estar quase dormindo e bolar um cartum. Aí penso: "Porra, amanhã eu anoto a
idéia". E aí, no dia seguinte, fico puto da vida, dando voltas, e não consigo me
lembrar. Isso acontece com você? Você já perdeu uma música,
Chico - Perder, não.
Jaguar - (enchendo o copo) Isso acontece muito com a gente que toma
Fernet Branca.
Chico - (enchendo o seu também) Tem um negócio que experimentei em Nova
Iorque. Existe um estágio que chamam de alfa. Através de um treino com
eletroencefalograma, você aprende a entrar, por vontade sua, nesse estado
alfa. É o estado logo antes do sono, meio letárgico.
Ricky - Muita gente diz que é o estado mais criativo, as coisas sobem à tona.
Chico - Mas quando acontece de pintar uma idéia, não consigo dormir mais
não. Aí: (estala os dedos). Agora acontece também de no dia seguinte eu
olhar e achar uma merda.
Ziraldo - Eu sonho cartuns. Com música não dá pra sonhar um acorde, mas
cartuns já sonhei uns 30.
Chico - Dá pra sonhar uma idéia de letra pra uma música.
Ziraldo - Você já sonhou uma coisa, achando uma perfeição, e no dia
seguinte, acordado, não acha nada? "No sonho era uma beleza..."
Chico - Isso acontece muito.
Ivan - Aconteceu com o poema "Kubla Khan", do Coleridge. Ele tinha tomado
Laudanum, e adormeceu. No sono provocado pelo Laudanum compôs o poema,
todinho.
Jaguar - Acordou e passou a limpo.
Ivan - Viu o poema inteiro, todo. De repente bateram na porta e disseram: "Há
uma pessoa de Porlock que quer falar com o senhor". Cortou o poema. E ele
esqueceu o resto. Até hoje em inglês, a "person from Porlock" é o sujeito que
cortou essa. E é um dos poemas mais sérios da língua inglesa.
Jaguar - Depois desse toque erudito, continuamos com a entrevista.
Redi - Você sente um tema, vai fazendo letra e música sobre ela, na
inspiração, ou pensa: "Vou fazer um samba sobre esse tema", passando a
meditar sobre ela?
Chico - As duas coisas. Na maioria das músicas as idéias vêm de fora,
espontaneamente. Mas também há as músicas de encomenda. Por exemplo,
músicas para uma peça, um filme.
Ziraldo - Trabalhar sob encomenda te machuca? Não tem grilo nenhum?
Chico - Não. Tenho que ter liberdade total. Não é uma encomenda que te
restringe, mas uma sugestão, quase. Filme do Hugo Carvana, por exemplo. Te
mostram uma cena. Uma vila do Catete, as pessoas, aquela promiscuidade,
coisa meio italiana. Aquilo me sugeriu uma música que não tem nada a ver com
o filme, mas tem a ver com aquilo que o Carvana me mostrou. Inclusive "Com
Açúcar, Com Afeto". A Nara pediu uma música assim.
Tarik - Foi sugestão da Nara?
Chico - Ela cantava uma música... não me lembro se era "Meu Moreno fez
Bobagem". Uma música nessa linha. E me pediu uma música assim, na linha da
"Amélia". Não lembro, foi um pedido dela.
Ziraldo - Você bola a letra primeiro e vai encaixando a música nela; ou vai
cantando a música e depois bota uma letra na melodia que inventou? Como é o
seu processo criativo?
Chico - Isso também varia muito. As mais bem sucedidas são feitas quase que
pau-a-pau. Tenho músicas que terminei e não pintou letra nenhuma.
Ziraldo - Você faz como o Caymmi: uma letra monstro pra depois arrumar?
Chico - Faço quando é de parceria.
Ivan - Nunca entendi como funciona a parceria.
Chico - É outro processo completamente diferente. Varia de compositor pra
compositor.
Ziraldo - Parceria é muito menos inspiração e mais transpiração. Fica a noite
inteira conversando com o cara: "Não é por aí não, vamos por aqui".
Chico - Acho um exercício ótimo.
Tarik - Quando eu te conheci em São Paulo, você estava com o pessoal da
FAU, e tinha o Sambafo. Era um negócio muito mais ligado ao samba do que à
bossa-nova. Qual foi o intermediário pra você passar de João Gilberto ao
samba?
Chico - Assisti a um show no Mackenzie onde apareceu Vinícius com Baden.
Tinham acabado de chegar, cantando sambas novos. Eram sambões,
"Formosa". Me lembro de um comentário de uma cantora que eu conhecia:
torceu o nariz e falou: "Aquilo é meio bossa-velha". Havia esse
preconceito. Mas comecei a gostar daquilo de novo. Negócio de ir pra butiquim
e cantar todo mundo junto. Não dava mais. A bossa-nova já tinha uns cinco
anos.
Ziraldo - Você tinha 19 anos?
Chico - É. Estava na FAU.
Ziraldo - Mas você sabia fazer projetos?!
Chico - (rindo) Sabia nada. Fui por exclusão. Gostava de mil coisas, tinha
muita criatividade, mas nada de prático.
Jaguar - Você tava fosseado estudando arquitetura? Estudava por estudar,
achando que tava numa errada?
Chico - Não, fiz o primeiro ano direitinho.
Ziraldo - Você copiou aquelas retículas e sombras de desenho artístico?
Chico - (sorri) Fiz aquilo tudo. Tinha 3 desenhos: esse aí, de fazer textura,
que aprendi no cursinho; o geométrico; e um que era livre. Dava um tema:
Ferrovia. (risos) Aí fiz um trilho assim... (desenha com o dedo na mesa) uma
família de retirantes assim... fiz como se fosse um X... (ri) achei essa idéia
genial. Mas passei com quatro, quatro e meio.
Ziraldo - Seu negócio era esperar o trem em "Pedro Pedreiro" e não na
faculdade.
Chico - Consegui a média pra passar com Matemática, que eu gostava.
Jaguar - Você era bom em Matemática?
Ziraldo - Equação do terceiro grau?
Chico - Sabia essas coisas todas.
Jaguar - É raro um artista gostar disso.
Ziraldo - Mas músico em geral pensa como um matemático.
Ricky - O Serialismo, por exemplo, era baseado em princípios matemáticos. As
letras do Chico, também, são matematicamente precisas e construídas em
série.
Ziraldo - Eu saquei isso imediatamente com "Sonho de um Carnaval" que foi
a primeira coisa sua que pintou num festival. (canta) "Carnaval, desengano..."
Chico - Foi classificada num festival, foi pra final, e aí não aconteceu nada.
Vandré que cantava.
Ziraldo - Seu primeiro sucessão foi esse, não?
Chico - Saiu um compacto, com "Pedro Pedreiro" e "Sonho de um Carnaval".
Depois veio "Olê, Olá".
Jaguar - Você tem alguma organização de trabalho, um sistema? Só trabalhar
de manhã, de tarde...?
Chico - Com música não. Quando me meto a fazer uma peça de teatro aí
tenho uma certa estrutura.
Jaguar - Música é aonde pinta.
Chico - Música você pode fazer em cinco minutos. Às vezes se leva dois
meses. Não adianta impor uma disciplina pra música.
Ivan - E a bossa-velha? Como é que você encontrou ela?
Chico - Nunca procurei nada.
Ziraldo - Mas a sua casa era muito musical. Você ouvia disco pra burro. Sabe
40.000 letras de música.
Chico - Sei bastante.
Jaguar - O Tom tem uma memória prodigiosa.
Chico - Tom sabe muito mais que eu. Caetano também sabe.
Ziraldo - Tom sabe muito mais?
Chico - Sei bastante.
Ziraldo - Caetano é impressionante. Você também andou com ele naquele
programa?
Ricky - "Essa Noite se Improvisa".
Chico - Quando ele começou eu tava meio saindo.
Ivan - Eu via todos esses programas!
Ricky - Os prêmios para o primeiro lugar eram Gordinis.
Chico - Uma vez eu inventei a música.
Ziraldo - (rindo) Apertou e não sabia...
Chico - Vinícius era engraçadissímo. Sempre distraído, na hora de apertar o
botão nunca chegava a tempo "A palavra é: 'Garota"'. Aí o Vinícius pããã! Foi
cantar, felicíssimo. "Olha que coisa mais linda, mais cheia..." (Chico não
consegue cantar mais de tanto rir). Não tem "garota"! Era "Garota de
Ipanema"... "olha que coisa mais linda..."
Ziraldo - Não tem garota! (risos gerais)
Chico - Tava ao meu lado, aquela felicidade. Conseguiu apertar o botão antes
de todo mundo!
Ziraldo - Agora eu pergunto a você: garota?
(Chico pensa).
Ivan - (rapidamente): "Só tem garota na guarnição..."
Ziraldo - (lembrando-se) Ah é: "Eu sou o pirata da perna de pau..."
Ivan e Jaguar - "Só tem garota na guarnição..."
Chico - Essas brincadeiras dependem de treino.
Ivan - Mas essa eu ganhei.
Ziraldo - Ponto para Ivan Lessa! (aplausos)
Redi - Ganhou a "garota".
Jaguar - (hesitando e escolhendo as palavras) Seus fãs... acham suas letras
sensacionais... Mas sua música...
Ziraldo - ... é uma merda! (risos)
Jaguar - (ficando vermelho) Não, não é merda não! Mas o forte é a letra.
Agora, tem um amigo meu, o Bobby Moover que casou com uma aeromoça e
andou aqui pelo Brasil. Um cara do cacete, tocou com Chet Baker, fez um
show com Lúcio Alves. Esse cara, no fim, tocava Pixinguinha perfeitamente. E
na opinião dele o maior músico em termos de criação era você. Eu mesmo
fiquei surpreso com isso. (risos)
Chico - Eu também.
Jaguar - "Mas não é o Milton Nascimento?" "Não. Chico Buarque." Aí começou
a tocar no seu saxofone a variedade de coisas que você faz.
Ivan - A riqueza harmônica e melódica.
Jaguar - Puxa vida, o que seria de mim sem você, Ivan!
Chico - Meu trabalho habitual, de fazer música e letra, acho meio furado.
Tanto é que o Ênio Silveira tá querendo publicar o livro das letras e eu tô
resistindo. Não acho que seja poema. Pra mim a letra e a música são juntas.
Vão juntas.
Ivan - Ler "Chão de Estrelas" sem a música...
Ziraldo - A letra de uma música não tem nada a ver com poesia. É uma coisa
que não se pode separar da música.
Chico - Não pode. Assim como ouvi agora no dentista uma música minha
tocada em FM. Não gosto daquilo. (Cantarola "Januária" rapidamente e com
desdém). Não acho legal.
Ivan - Mas tem umas letras que são poesias, apenas pela inversão, pelo
malabarismo, pela riqueza. Cole Porter tem umas... Aquela sua: "Vem a noite
mais um copo / Sei que alegre ma non troppo", é sensacional.
Chico - Prefiro ouvir com a música. Tenho a impressão que publicar uma letra
é metade do meu trabalho. É um negócio filmado a cores exibido em branco e
preto.
Ivan - E é um livro só pra sair depois de morto.
Ziraldo - Você faz o verso da palavra. E faz o verso melódico. E um não
parece com o outro. Tem que mudar.
Chico - Isso acontece demais.
Redi - Nesse caso muda a palavra ou muda a música?
Chico - Eu acho mais fácil mudar a palavra. Já mudei música também. Esse
processo de criação é muito...
Tárik - Momentâneo.
Ivan - Graças a Deus continua um mistério
Ziraldo - Sempre fui preocupado em separar o poeta que faz letra pra música
do poeta-poeta.
Chico - É completamente diferente.
Tárik - Você tava lá no Sambafo começando a fazer uns sambas. Conta um
pouco dessa fase. O hino era o "Bafo da Onça", aquele samba do Osvaldo
Nunes.
Ziraldo - (canta) "Olha o bafo da onça / que acabou de chegar.
Tárik - O negócio era mais um tipo de batucada.
Chico - Na época do Sambafo eu não funcionava muito como compositor.
Cantava as músicas. Era "O Bafo da Onça", aquela do Sérgio Ricardo: (canta) "nasceu uma rosa na favela". Era música de circunstância. Tinha uma
que fiz de parceria com um amigo meu: "Todo povo tem um osso / O nosso é
um presidente sem pescoço". Uma gozação, nada sério, coisa de butiquim.
Tárik - Mas foi praticamente dali que você começou a fazer os shows.
Chico - Mas não era o Sambafo, era uma coisa paralela.
Ziraldo - Isso foi antes de aparecer?
Tárik - Foi. Teve aquela coisa para o Arena, onde você já tinha feito "Marcha
para um Dia de Sol".
Chico - O Sambafo era mais uma transa de todo mundo cantar junto. Eu não
fazia música pra lá. Só essas de sacanagem.
Ziraldo - Na sua família, não havia uma necessidade de formar? Teve grilo
pra sair da faculdade?
Chico - Volta e meia ela fala: "Você não vai voltar"? (risos)
Ziraldo - Que coisa chata: você não é o Dr. Francisco Buarque. Como é que
chama sua mãe?
Chico - Maria Amélia.
Ziraldo - Vocês são quantos?
Chico - 7.
Ivan - Dá um coral.
Chico - E era um coral. A gente cantava junto, música americana, Miúcha
minha irmã tocava violão.
Ivan - Música americana?
Chico - Tipo The Platters.
Jaguar - Eram uns Garotos de Ébano Branco. (risos)
Ivan - (imita as vocalizações dos Garotos de Ébano)
Ziraldo - A sua primeira experiência de musicar letra foi com João Cabral?
Chico - Foi a primeira e única.
Ziraldo - Você não musicou mais nada?
Chico - Só Cecília Meireles: "O Romanceiro da Inconfidência". Para um
espetáculo feito por Flávio Rangel.
Ziraldo - Das suas músicas, tem algumas com letras de outras pessoas?
Chico - Tem parcerias, mas aí não é bem "letra de outra pessoa". Faço a letra
junto com outros. Trabalhei com Ruy Guerra, com Vinícius.
Ziraldo - A quatro mãos.
Chico - Tem letras que não consegui desenvolver, parei no meio. Em geral
parceria que faço é letra pra música. Com Tom, Francis Hime, Toquinho, Edu...
Ziraldo - Vocês sentam juntos, ou levam a música pra casa?
Chico - Em geral é junto. Fica a fita, a gente trabalha sozinho. Mas trabalhar
só com fita, à distancia, é difícil.
Ziraldo - Eu queria saber como foi sua experiência com João Cabral. Tem
aquele negócio da métrica: às vezes precisa de mais uma palavrinha no verso
pro acorde ficar igual, aí tem que segurar a ponta do acorde. Como foi?
Chico - Era uma luta.
Ziraldo - Saiu um negócio direito pra burro.
Chico - Existiu uma malandragem no meio. Me lembro de um verso que não
coube de jeito nenhum. O trabalho era de equipe. Roberto Freire é que estava
dirigindo o negócio. Mesmo no começo os atores participavam desse processo.
Lembro de uma música no final, quando nascia a criança: "De sua formatura /
deixai-me que diga / é belo como um coqueiro... Bom como caderno novo" Um
verso não cabia de jeito nenhum. Convenci eles colocarem de uma atriz correndo
de repente e dizendo o verso. (falando rapidamente) "Da sua formosura deixai-me que diga!" (risos gerais).
Ziraldo - Colou! Criatividade é isso.
Chico - E outras coisas que fomos cortando porque não cabia na letra. Uma
delas fiquei chateado, depois porque cortei sem pensar. Não tinha pensado
mesmo. Era uma brincadeira, uma crítica, ao Gilberto Freyre. E eu não tava
sabendo. Depois o João Cabral me perguntou porque eu tinha tirado. Realmente
era porque não cabia na música. "...um mocambo modelar / como dizem os
sociólogos do lugar." Mas eu não tinha ligado sociólogos a Gilberto Freyre. E
"so-ció-lo-gos"... não dá.
Ziraldo - Livrou a cara do Gilberto sem querer. Se soubesse, não tinha
livrado.
Chico - Botava "SOCIÓLGOS":
Jaguar - Adoro fazer perguntas de estagiário! Qual a sua música predileta?
Chico - Não tenho.
Ivan - Que achas do "Beijo"? Ë uma música?
Jaguar - Não tanto, né Ivan.
Chico - A música que se está fazendo na hora é a paixão absoluta.
Jaguar - E qual é?
Chico - No momento não estou fazendo nenhuma. Segundo, a que se acabou
de fazer. Depois, ouvir a música pela primeira vez no rádio.
Jaguar - E dos seus clássicos?
Chico - Não escuto. Não tenho predileção nem gosto por nenhuma delas.
Jaguar - Você é que nem o Robert Mitchum, que não vê os próprios filmes.
Tárik - Qual foi a coisa que fez você sentir que ia virar um profissional de
música e largar a faculdade?
Chico - Não houve um momento. Foi aos poucos e sem me dar conta.
Ivan - E você sempre lendo muito?
Chico - Eu lia muito. Agora tem fase que eu leio.
Jaguar - E sempre escrevendo, como uma atividade paralela?
Chico - Não sei se é paralela ou se está me absorvendo mais do que antes.
Paralela não é. Quando estou fazendo uma coisa não consigo fazer a outra.
Jaguar - Jornalismo infelizmente parece que só quando batia um banzo da
pátria e você escrevia pr'O PASQUIM
Ziraldo - Encerrou sua carreira de jornalista? Não quer voltar?
Chico - Não tenho projeto de fazer nem isso nem aquilo. De repente pode
ser... Não quero é me comprometer.
Ivan - "Entrega na quarta-feira", aquele negócio.
Ziraldo - Você se considera um cara de muita leitura, ou de muita informação
por intuir?
Chico - Sou muito mais intuitivo. 90% do que li, li cedo demais, e pra dizer que
tinha lido. Aquele negócio, de gostar de ter lido, um pouco do meu pai. Meu pai,
Sérgio Buarque de Hollanda, é um culto. Foi historiador, crítico literário.
Ziraldo - Você freqüentava muito a biblioteca dele?
Chico - Transava seus livros todos.
Tárik - Até que página você chegou de "Ulysses"?
Chico - Confesso que não li.
Ivan - Não leu, mas escreveu seu próprio "Ulysses".
Chico - Fiquei com "Ulysses" muito tempo na cabeceira, queria ler no original,
cara.
Ziraldo - Lê em inglês?
Chico - Razoavelmente.
Ziraldo - Parla italiano?
Chico - Falo, morei lá.
Ziraldo - Quantas peças você tem, publicadas?
Chico - Duas. E agora essa, "Gota d'água", vai sair.
Ziraldo - As outras duas são "Roda Viva" e "Calabar".
Jaguar - Por que essa nova chama "Gota d'água"? Será que é aquela gota que
tou pensando? Ai, ai ai.
Chico - Por aí...
Ziraldo - Li "Fazenda Modelo" e achei muito inventivo. Inclusive muito
engraçado. Tem algumas coisas lá que não cabe aqui discutir.
Jaguar - Cabe sim.
Ziraldo - Pegar coisas factuais e meter na obra sem necessidade. Como obra
literária, ficava melhor sem isso. Mas não vem ao caso.
Jaguar - Vem sim.
Ziraldo - Negócio de violência necessária e desnecessária.
Chico - Fui acusado disso que você está me acusando, e do contrário
também. "Muito barroco. Você tinha que ser mais claro."
Ziraldo - Mas aí seria loucura!
Chico - Não fazer é pior.
Ziraldo - Seria melhor se fosse projetado, fora do tempo, como "1984", do
Orwell. Não precisa ficar fazendo pequenas referências factuais, fazendo
humor com uma coisa menor.
Ivan - Isso é opinião sua. Ele fez o livro que queria fazer, não o livro que você
queria que ele fizesse.
Ziraldo - Não é isso que quero discutir.
Chico - Em todo o caso eu discordo. Não concordo que sejam piadas factuais.
O negócio da Copa não entrou nesse livro com essa intenção. Inclusive, se
fosse pra disfarçar, teria evitado. Mas inconscientemente tava me marcando
muito no momento. O cara não pode se libertar do seu momento pra fazer um
livro sem nada de factual.
Ziraldo - Mas podia ficar melhor acabado. Em literatura dá pra você voltar 40
vezes em cima do período.
Chico - Mas eu voltei 50 vezes, Ziraldo. Uma crítica que não se pode fazer é
de eu ter soltado coisas sem correia.
Ziraldo - Mas não podia ter deixado.
Chico - Passou assim pra você. Pra mim, que olhei de fora 50 vezes, não
apareceu.
Ziraldo - Não quero diminuir seu livro. Acho muito brilhante. Brilhante até
demais. Podia ser menos brilhante. O livro peca por excesso de brilhantismo.
Ivan - Você está fazendo uma crítica literária aqui que...
Ziraldo - É uma crítica literária. Pensei até em escrever isso.
Chico - Eu aceito você entrar nesse negócio, porque a crítica literária que se
fez foi descuidada.
Ziraldo - Muito ruim.
Chico - Passando por cima. De sacanagem.
Ziraldo - É muito comum uma certa implicância com o eclético. Não admitem
que um sujeito seja um gênio numa atividade, e depois venha pra sua
atividade. O crítico não resiste à tentação de achar que o cara tá invadindo
uma área que não devia. Mas o cara pode ser genial em tudo, pô!
Chico - Quando o sujeito larga tudo, como eu fiz, durante 9 meses, pra editar
um livro... Não fazer aquilo de que você vive... Então não está querendo a
glória, faturar dinheiro. Tá cagando. É uma necessidade biológica do homem.
Pra valer.
Ziraldo - O livro foi uma necessidade biológica?
Chico - Não foi brincadeira. O que me irrita não é o que você está falando,
mas o livro ser levado como uma brincadeira, com pouco caso.
Ivan - Teve pouco caso?
Ziraldo - Um pouco caso enorme!
Chico - No Globo saiu uma besteira, um cara dizendo que é um desabafo.
Desabafo a puta-que-pariu! Na Veja, talvez por eu ser um romancista
estreante, convocam um critico estreante. No Jornal do Brasil saiu um trabalho
sério no Suplemento do Livro. Em seguida: pá! aquele Hélio Pólvora gozando.
Ziraldo - Mas o Hélio é um excelente escritor. Só que não admite o eclético.
Chico - Tem que levar em consideração o trabalho da pessoa. A "Última Hora
de São Paulo também foi de sacanagem. A crítica foi muito boa mas o tal de
Gibaúna não deixou sair. Aí é fogo, né"?
Jaguar - Todo mundo acha que o Chico, sendo compositor, não tem que
escrever.
Ziraldo - Tem que escrever sim, ué!
Ivan - Eu acho que o Chico foi de uma coragem enorme ao escrever esse
livro. Está exposto a essas coisas todas. Sabe como funciona o mercado.
Chico - No próprio meio teatral há um ressentimento da crítica quanto ao fato
de eu escrever teatro. É fogo. Com esse livro tava me candidatando a outra
cacetada.
Ziraldo - Eu sofro isso também. A única coisa que não faço é música.
Jaguar - Ainda bem.
Ziraldo - Mas eu quero fazer tudo! Tudo que faço é com o maior zelo. Os
caras dizem aí: "Devia se limitar a fazer..." Tem que limitar nada! A pergunta
que eu ia fazer era em cima da coincidência que fazem com o "Animal Farm".
Ouvi que você tinha dito que nunca tinha lido esse livro.
Chico - Não li mesmo. (ri) Agora não vou ler. Eu conhecia o Orwell de nome,
de "1984".
Ziraldo - Esse cê leu, né?
Chico - Também não li.
Ivan - Não precisa ler não. Já tá por aí.
Chico - Vi um negócio no Jornal do Brasil sobre o Orwell. Falava de "Animal
Farm" e tinha a capa do livro. "Puta-que-pariu, Essa capa podia ser do meu
livro." O livro já estava pronto. Mas nã li "Animal Farm". Nem tinha ouvido falar.
(Chegada do editor argentino do Chico, que informa, em primeira mão para O
PASQUIM, que "Fazenda Modelo" será lançado na Argentina.)
Ziraldo - Acho "Calabar" melhor do que "Fazenda Modelo".
Ivan - São dois gêneros.
Ziraldo - Então vamos mudar de assunto. Chega de livro.
Ivan - Só quero estabelecer essa diferença. "Calabar" é uma peça. "Fazenda
Modelo" não é.
Chico - Não consigo compará-los.
Jaguar - O que você acha mais burra: a crítica literária ou a crítica musical?
Chico - (franze o nariz)... Páreo duro. Eu não gosto muito também de ficar
mostrando ressentimento com crítica. Me queixo só do pouco caso com o
trabalho de um autor novo. Com música é diferente, tenho 10 anos de
experiência.
Ivan - Não acho pouco caso, acho má vontade. "Vou deixar pra lá, pra que
mexer nisso? Ele faz música."
Ziraldo - Quero registrar nesse momento a presença de minha mulher Wilma,
e minha cunhada.
Ricky - Por isso não. Registro também a presença de minha mulher, Wilma, e
minha cunhada.
Jaguar - Quero aproveitar a ocasião para cumprimentar meus familiares.
Ivan - Gostaria de enviar um beijo para minha filha Juliana, que faz seis meses
na próxima quarta-feira.
(Anoitece. A lagoa fede. O Cristo brilha. Pela janela as luzes acendem. Os
garçons desviram as cadeiras, ruidosamente, e passam panos na mesa.)
Ziraldo - Chico, quando você começou a incomodar e a se sentir
incomodado?
Ivan - Ou seja: quando é que ficou moça?
Chico - Minha primeira experiência assim foi com a música do Tamandaré. No
fim, deixa pra lá, a música não era grandes coisas. Mas o Tamandaré era
patrono da Marinha.
Tárik - Isso foi 66.
Chico - O negócio começou a engrossar mais com "Roda Viva". Espancaram os
atores e destruíram tudo em São Paulo e Porto Alegre. Aí proibiram a peça de
vez, em todo o território nacional. Foi a primeira engrossada maior.
Ivan - Porque entenderam ou porque não entenderam?
Chico - A história que me contam é a seguinte: em São Paulo, o CCC -
Comando de Caças aos Comunistas ia empastelar outra peça. Iam acabar com
a "Feira de Opinião". Chegaram lá, já armados, preparados, e a peça já tinha
acabado. Aí aproveitaram... (risos) Pra não perder a viagem, esculhambaram o
"Roda Viva".
Ivan - São desorganizados pacas.
Chico - Mais tarde, numa espécie de interrogatório, uma autoridade perguntou
o que tinha na peça. A peça não tinha absolutamente nada, era sobre o meio
artístico
Jaguar - Sobre "A Máquina".
Chico - A engrenagem que nos tritura. Aí ele diz: "Se você acha que não
tinha nada, porque é que fomos obrigados a fazer o que fizemos"?
(silêncio geral)
Ivan - Tenho medo de fazer a pergunta seguinte. Façam aí! Eu não faço!
(Ziraldo, coragem súbita, fala.)
Ziraldo - Antes do Zé Celso entrar na jogada, em vi o seu texto. Era outra
idéia. Depois de montada, considerei "Roda Viva" muito mais Zé Celso do que
você.
Ivan - O que era "Roda Viva"?
Chico - "Roda Viva" texto, não era nada.
Ziraldo - O espetáculo não era o que você tinha proposto na sua cuca. Zé
Celso entrou no meio do caminho. Botou aquela loucura na peça. Ela tinha
aquela loucura proposta?
Chico - Não, mas eu acompanhei a loucura.
Jaguar - Avalizou.
Chico - Entrei mesmo e assumi. Tava presente durante a montagem toda. Fiz
música, durante os ensaios.
Ziraldo - Você mudou o final.
Chico - Fui burilando.
Ziraldo - Você queria levar a peça de qualquer jeito ou foi porque o que o Zé
Celso propôs se aproximava mais da sua intenção?
Chico - Porque a peça, assim que ficou pronta, era muito vazia. Não tinha
nada.
Ivan - Dê um resumo.
Chico - Negócio de empresário, público, de IBOPE, de televisão.
Ivan - Era simplesmente sobre a máquina e a engrenagem.
Ziraldo - Não tinha o teor político que passou a ter.
Ivan - Tudo é político.
Chico - Não sei se ficou mais política. Ficou mais polêmica, mais forte, brutal.
Tárik - Ficou política no sentido visceral, das vísceras.
Ziraldo - Isso, tava no estômago do problema do país.
Chico - Apareceu o Zé Celso pra montar. Eu conhecia "O Rei da Vela". Na hora
pensei: "Vai ser uma barra". Topei a barra, inclusive me anulando como autor.
O espetáculo montado é praticamente dele. Só ele teria imaginado aquilo a partir
do texto escrito.
Tárik - A "carpintaria teatral" foi dele.
Chico - Eu tava lá. Não fui traído. Reconheci, conscientemente, que a peça
era fraca, e que só o trabalho dele daria uma dimensão melhor.
Ivan - A agressividade direta... Vou eu com meu pai ver "Roda Viva". Antes
vejo o Peréio na porta, bato papo, "Oi, tudo bem?". Tem uma parte que o
Peréio fica sentado do lado, e dependendo de quem tá na platéia ele dá uma
agressão. Como fez com Flávio Rangel e Paulo Francis "Ei, Flávio Rangel é
boneca!"
Jaguar - Comigo também.
Chico - Comigo também.
Ivan - Com todo mundo.
Ziraldo - Você queria essa agressividade?
Chico - Ficou combinado que aquele personagem, do Peréio, ficaria por conta
dele. Tinha liberdade pra xingar quem quisesse, como me xingou todas as vezes
que fui assistir. Não me livrou a cara. Era a participação do Peréio dentro do
negócio.
Ivan - Perfeito. Dava ódio: "Aquele é mau caráter. Bom caráter é o pai dele, o
Orígenes". Fiquei puto da vida. Agora que sei que é coisa do Peréio, acho
ótimo.
Ziraldo - Se a gente pegar toda a sua obra, que faz parte do mais
importante que estamos vivendo, vemos que é profundamente agressiva e
criativa. O que não é, de jeito nenhum, é grossa. Mesmo a engrossada da
"Fazenda Modelo" é meio contida. Você não bate com os dois pés no peito.
Mas bate bem. É aquele boxeur que não viu onde a porrada pegou. Mas a
"Roda Viva" era um pé na cara. Isso não te violentou?
Chico - Na hora que dei o espetáculo pra ele montar, tava sabendo que ia ser
um espetáculo do Zé Celso. É um criador genial. Agora, não tem texto. Essa
peça, "Gota d'água", não entregaria não! É uma peça que prezo, faço questão
que as palavras sejam aquelas. "Roda Viva" não existia. Foi um ensaiozinho de
quem nunca tinha feito teatro. Agora, porra, sou 10 anos mais velho. Tenho
mais experiência e confiança no que tô fazendo. Se você falar que a peça é
uma merda, vou discutir contigo. Vou brigar. "Roda Viva", antes que você fale,
digo: "É uma merda".
Jaguar - Qual é a mensagem de "Gota d'água"?
Chico - (pensa e vai falando devagar marcando as palavras com as mãos) É a
"Medéia", de Eurípedes, adaptada para o subúrbio carioca. Toda a tragédia
grega é essa tragédia carioca. O Layout da peça é a Luta Democrática.
Medéia mata as crianças, aquele clima da Fera da Penha. Nessa base.
Ivan - Luta Democrática é perigoso. Vai de O Dia. Um conselho que lhe dou:
nome que tem democrática...
Tárik - Você já tinha feito a música "Roda Viva". E a peça foi uma ampliação.
Como é que surgiu a idéia da peça?
Chico - Não, quando fiz a música já tava fazendo a peça. Saiu da peça e foi
pro festival.
Ziraldo - A música é o resumo da peça.
Tárik - Porque a idéia de ir pro teatro, fazer peça?
Chico - Desde o começo tenho ligação com o teatro. "Morte e Vida Severina".
Fiz músicas pro Oficina, "Os Inimigos". Acompanhei teatro, farta parte do
negócio a que estava ligado.
Jaguar - E cinema?
Chico - Faço músicas pra cinema. Inclusive tô fazendo agora.
Ziraldo - Você já foi ator num filme.
Ricky - "Quando o Carnaval Chegar", de Cacá Diegues.
Ziraldo - Te acho um cara muito acordado. Percebeu a Roda Viva, sentiu que
era uma parada, correu o risco. Você corre o risco. Fez sucesso ganhou
dinheiro, e é um homem realizado. E um cara cuidadoso com sua própria vida.
Mas porque você deixou sair aquele livro com manuscritos seus, esse tipo de
coisa? Infantilidade?
Chico - Claro.
Ivan - Desculpa ótima: "Ha! eu era garoto e não sabia o que fava fazendo."
Chico - Não é só isso não. A gente entra em várias. No começo... Tem mil
besteiras que hoje eu não faria. Hoje sou cuidadoso. Mas não era. Porra, de
repente, sucesso, "A Banda", o cacete, viagem pra cima e pra baixo.
Tárik - Lembra do Mug?
Chico - Porra, o Mug! Você entra... É um universitário, cheio de amigos. De
repente fica famoso. A maioria são grandes amigos, mas tem aquela meia dúzia
que pinta: "Pô, tenho uma idéia genial. Lançamos as Roupas Calhambeque pra
Roberto Carlos. Agora vamos lançar o Mug". O Mug dava sorte, e tal. Agora
vou livrar a cara e explicar porque eu entrei nessa. Pô, um dos caras era o
Simonal. Mas outro era Sérgio Porto. Um cara em que sempre confiei. "Vamos
lá, qualquer coisa." Topar tudo. Entra aí: o Mug, esse livro, o cara da TV te
convidar pra ser Júri do Festival da Canção. Não tá ganhando dinheiro nenhum.
Mas de repente tá lá, no Maracanãzinho, entra, tá tocando "A Banda". Tudo de
graça. Por nada. (Bate as mãos, displicentemente.)
Ziraldo - É o clima, a loucura.
Tárik - É a Roda Viva.
Chico - Era o porra-louca do quarteirão, e agora é o porra-louca nacional.
Fazendo besteira em todo lugar.
Ivan - E tudo que fizer vira acontecimento.
Chico - Júri de Escola de Samba! Ricardo Cravo Alvim: "Vem aqui". "Não
entendo nada disso." "Não faz mal. Tamos aí." O sonho da minha vida, durante
anos, era vir morar no Rio. Queria morar no Rio e ser amigo de todo mundo, do
cara que escreve em jornal. Tá naquela baratinação. Não acha que alguém vá
jogar contra. Depois passa a ficar o cara chato, que não dá entrevista. Até
encontrar o meio-termo... Tem que dar porrada e fazer besteira.
Ziraldo - Tem que amadurecer.
Ivan - Resumindo: a Máquina, mesmo que ela não saiba, existe.
Chico - A televisão agora tem mais novela. Mas no meu tempo era mais ligado
à música. E era imediato. Então a gente não tinha estrutura. Não é um negócio
que aos poucos vai-se criando um nome. Não tem como ter discernimento do
que vai fazer. O que aconteceu comigo na Itália: estava lá e não sabia como
era. Lá, te mandam, você vai. Meus orientadores na vida profissional aqui
foram Hugo Carvana e Antônio Carlos Fontoura, pô. (risos) Carvana me levou
pra TV Globo: "Tenho um negócio maravilhoso pra você! Um programa! Você
vai ganhar 2 milhões por mês! Chama "A Banda". Assinei na hora. Cara assina,
pô. Carvana falou que é bom... (ri) Se eu continuasse fazendo aquela merda...
O programa era tão ruim... sempre terminava com "A Banda" cantada por um
coro de meninos. No terceiro programa simplesmente não fui. Por intuição. Uma
intuição que me valeu um processo mas que me valeu uma vergonha a menos.
Jaguar - Olha, vou te contar uma coisa: sempre odiei "A Banda". (protestos
gerais) Odiei! Eu ia em Minas, Ouro Preto, aquela burguesada toda cantando.
"Nhém nhém nhém nhém nhém nhém nhém". Essa música é insuportável! (risos)
Eu posso dizer isso porque sou fã do Chico. Agora, realmente, "A Banda"...
Começou muito mal, Chico.
Ivan - Vá à merda, Jaguar.
Jaguar - Você não acha "A Banda" insuportável?
Chico - Eu tenho que achar, depois de ter cantado ela 1.500 vezes.
Jaguar - É uma música sentimentalóide!
Ziraldo - Você viu a sua cara de menino nesse programa "25 Anos de TV"
cantando "A Banda" ? Que loucura! Parecia escoteiro!
Chico - Todo mundo arrumadinho. A platéia era um sarro.
Ziraldo - Parecia negócio de 1912. Você ficou quanto tempo na Itália?
Chico - Quase dois anos.
Ziraldo - Esse distanciamento deu pra amadurecer uma porrada de coisas na
tua cuca?
Chico - Muito.
(Enquanto Ziraldo faz essas perguntas, Jaguar e Ivan cochicham e morrem de
rir).
Ziraldo - (indignado) Os entrevistadores estão ficando de porre.
Jaguar - (rindo) Quando estive em Ouro Preto, como empresário de Nelson
Cavaquinho e Zé Keti, era o auge de "A Banda". Os mineiros adoram cantar. Já
imaginou 50 Ziraldos cantando "A Banda"? (risos gerais) Que ódio que eu
ficava!
Ziraldo - Ele tem ódio é de mim, Chico.
Ivan - 50 mineiros! E nenhum deles acertando uma nota!
Ziraldo - Essa entrevista é para livro, e livro é eterno.
Ziraldo - Daqui a 30 anos essa entrevista será lida.
Jaguar - Espero que o livro esgote antes.
Ivan - Livro é eterno ? Isso é slogan? Vai vender isso pro Instituto Nacional do
Livro?
Ziraldo - Ai cacete! (esconde o rosto no braço. Desfalece. Risos vitoriosos
do Jaguar.)
Ivan - (com pena) Continue, Ziraldo.
Ziraldo - De 66 a 68 pintou a passeata dos Cem Mil, aquela transa toda. O
que você fez na música que levou o pessoal, na hora do AI-5, a te incluir entre
os inimigos públicos n.° 1? A gente tava mandando ver, gritando alto,
reclamando pra cacete. Foi a última fase em que se reclamou.
Chico - Engrossou por muito pouco. Não dá pra entender. Engrossou mesmo,
negócio de acordar com polícia dentro do quarto.
Jaguar - Dentro do seu quarto?! Como entraram pela porta principal do seu
apartamento?
Chico - Não é muito difícil.
Ziraldo - Foi aí que você chamou um ladrão?
Chico - Acordei com aquelas cara ali e o zelador atrás.
Ziraldo - Chegaram a te levar? Você ficou recluso?
Chico - Não, soltaram no mesmo dia.
Jaguar - Houve alguma violência específica?
Chico - Física não.
Ziraldo - Quanto tempo depois você saiu pra Itália?
Chico - Dias depois.
Ziraldo - Conta-se que foi sugerido a você.
Chico - Não, eu ia sair mesmo. Ia fazer o MIDEM. Aí aconteceu esse negócio.
Pra mim, isso muda a cabeça de qualquer um. Acordar com a polícia dentro do
quarto...
Ivan - Você só se politiza depois que for acordado às três da manhã com a
polícia batendo na sua porta. Bertold Brecht.
Chico - Brecht falou por mim, (para o garçon) Traz uma caipirinha de vodca,
pouco açúcar.
Jaguar - Dois! Pouco açúcar!
Ziraldo - Registro: o Chico já tomou Fernet Branca, chope e agora vai de
vodca.
Chico - O chope é pra quebrar o Fernet, que sozinho dá dor de barriga. Tem
que tomar os dois.
Ziraldo - E o passaporte pra sair?
Chico - Quando fui lá, fiquei com aquele negócio de prisão domiciliar. Mas
afinal, tudo bem, "você é um bom rapaz". Eu tinha simplesmente que avisar
toda vez que saísse do Rio. Nessa hora mesmo coloquei que estava com a
passagem comprada, pra daí a 10 ou 15 dias. Tudo bem.
Ziraldo - Aí você achou melhor não voltar.
Chico - Já conhecia Roma, adoro. "Tudo bem. Vou com coisa pra fazer, disco
pra gravar, trabalho e tal, dinheiro." Fiquei hospedado no Hilton.
Tárik - Você fez uma excursão com a Josephine Baker.
Chico - Isso já foi na fase de horror.
Ziraldo - Explica isso aí.
Chico - Isso foi depois. Vou chegar lá. Bom, iam lançar Chico Buarque na
Itália. Os caras da RGE tavam me esperando lá, eu ia ser um grande sucesso
na Itália. Fui pra TV italiana e comecei a fazer os programas que me mandavam
fazer. Aí começaram as besteiras de novo. Fazia os programas pra divulgar o
disco. Estavam esperando certo tipo de coisa e chegou outro cara.
Ziraldo - Esperavam um Domenico Modugno, e chega um cara todo
enrustido, falando baixinho.
Chico - Pois é, "A Banda" tinha feito sucesso recentemente lá. Pra mim já
tinha 3 anos, não agüentava mais "A Banda".
Ivan - Tava que nem o Jaguar.
Jaguar - (conciliador) Hoje sou capaz de gostar da Banda. Mas sem o apoio
da classe média.
Chico - O resultado é que não fiz sucesso porra nenhuma. O pessoal começou
a maltratar. No começo era Hilton Hotel, flores pra Marieta, uísque pra mim,
almoços, jantares.
Ziraldo - Marieta grávida.
Chico - Não aconteceu nada, começou a esfriar tudo. O segundo disco já não
foi gravado. o show prometido já não pintou. Aí começou o horror.
Ivan - O que que foi esse horror?
Chico - Começou o negócio de ter que trabalhar.
Ivan - Cabou o dinheiro.
Chico - Ninguém te conhece. Fiz shows que... Uma hora Toquinho foi me dar
uma mão lá. Fizemos um show pra 20 pessoas, na casa de uma marquesa.
Começamos a cantar e vimos que não tinha nada a ver, ninguém tava sabendo
nada. "Vamos mandar um carnaval!" (ricos) Apelamos pro carnaval. Depois "A
Banda". Aí o pessoal cantava. Depois da "A Banda", não tinha outra marcha...
Aí ia de "Mamãe eu Quero". Levamos muitos canos também.
Jaguar - Pra nós essa época foi ótima. Você virou até correspondente d'O
PASQUIM.
Chico - Não tinha mais que fazer! Ficava formando parte de um terceiro time.
É aquele nível que ninguém conhece, daqueles que gravaram o primeiro disco,
ou não gravaram ainda. Ou artista velho, que já refudeu. Pra ficar na cerca
mesmo. Tinha aqueles também pra que nada tinha dado certo, o que era o meu
caso. Com esses tavam putos, porque investiram uma nota, pagaram a minha
passagem. Tive que me rebolar mesmo. Ficava mais apavorado do que aqui. Ia
sozinho, com meu violão, ou só com o Toquinho. Cantando aquelas coisas que
ninguém entendia, olhavam com aquela cara séria. É um troço horroroso!
Ziraldo - E a saudade adoidada do Brasil.
Chico - Minha filha nasceu e tive que fazer mais shows.
Tárik - "Samba de Orly é dessa época, né?
Chico - É. Eu e Toquinho, fizemos uma temporada de 45 dias pela Itália
inteira, fazendo o final da primeira parte do show da Josephine Baker. Tinha
vários artistas. Tinha uma cantora canadense, um conjunto não sei de onde, e
terminava com eu e Toquinho cantando músicas brasileiras.
Ivan - Mas conseguiam fazer alguma coisa?
Chico - Nada, porra, o pessoal ia ver Josephine Baker! Média de idade pelo
menos 75 anos.
Ivan - Ma que! Ma cosa fare il brasilliani?
Chico - Foi uma merda! A gente cantou num negócio que parecia sede do
Partido Monarquista. Tinha retrato do Rei Umberto. (risos) Não era teatro, era
um salão.
Ziraldo - Dava pra pagar suas dívidas lá?
Chico - A gente fazia que dava. Mais 200 dólares que vinha do Brasil. Só
podiam mandar 200.
Ziraldo - Ah sim, sua família mandava.
Chico - O PASQUIM também me ajudou nesse horror.
Jaguar - Me lembrei de uma sacanagem que fizeram com você, não só te
envolvendo mas também uma porção de pessoas maravilhosas. Foi aquela
Escola de Samba que teve como tema Chico Buarque". Era uma escola super
simples.
Tárik - De samba mesmo. Lá de Niterói.
Jaguar - O enredo foi simplesmente proibido, por motivos não esclarecidos
Chico - Liberaram uma semana antes do carnaval. Aí já tava esculhambado.
Não tinham ensaiado.
Ziraldo - Isso aí, Jaguar, não tem nada a ver com o que estamos falando.
Estamos em Roma.
Ivan - Eu não. Tô na Lagoa Rodrigo de Freitas
Ziraldo - A sua volta foi gloriosa e apoteótica.
Chico - Pra voltar, tem que ser fazendo barulho.
Ziraldo - Você voltou pra quê?
Chico - Pra voltar.
Ivan - Porque ele voltou? "Minha terra tem palmeiras..."
Chico - Para um Especial na TV Globo. Voltei na base do "Cheguei!".
Ziraldo - Teve problema pra voltar?
Chico - Não. Mas dá medo.
Ziraldo - No Galeão tinha gente te esperando?
Chico - Tinha a TV Globo inteira. Fui pra casa tranqüilo.
Ivan - Em que ano estamos?
Chico - 70. Cheguei, lancei um disco, fiz esse especial na televisão.
Ziraldo - A única música que você gravou e não é sua é aquela...
(cantarola).
Chico - "Menino Jesus".
Ziraldo - De quem é?
Chico - De um italiano, Lúcio Dalla, e de uma mulher, professora, que faz essa
letra.
Ziraldo - Por que você gravou essa música? Numa outra gravação, com
Nélson Ned, por exemplo, virava uma bosta.
Chico - Não...
Ziraldo - O fato de você gostar dessa música não é o que lhe dá a
qualidade?
Chico - Gravei essa música na Itália. Depois de um ano e meio, saudade do
Brasil, a gente perde muito a noção das coisas. Fica completamente
desnorteado. Quando cheguei no Brasil fiquei completamente desorientado.
Esse ano e meio que passei lá, pra mim, pessoalmente, foi maravilhoso. Como
artista foi uma merda. Esse disco que gravei lá foi o mais errado que já fiz.
Gosto de algumas músicas... Mas tem coisas que não perdôo, que não gosto
mesmo. As que gosto são... só quase... São como as mulheres da Argentina:
quase maravilhosas. (para o editor argentino) Desculpa. (risos) Não acoplam... (mão direita resvalando na esquerda).
Ziraldo - Vocês conhecem "Dolores Sierra"? (canta) "Dolores Sierra / de mi
Barcelona..." (Jaguar tampa os ouvidos). E a mesma história de "Menino Jesus".
E é cafona. Se o Chico gravasse uma música de Nélson Gonçalves, venderia.
Jaguar - O leitor adora esse tipo de pergunta: quais os livros que você leu e
achou maravilhoso?
Ziraldo - Que pergunta embaraçosa! (para Ricky) Jaguar é o rei da cuia.
Sempre enfiando no assunto.
Jaguar - Dostoievsky, por exemplo.
Ivan - Como Dostoievsky?! Um epilético russo!
Jaguar - Vá à merda. Pode falar, Chico.
Ivan - Se falar "Pequeno Príncipe", vou embora.
Chico - Guimarães Rosa... Tem livros que eu adoro que não tem nada a ver
com isso: "Jorge, Um Brasileiro", de Oswaldo França Lima.
Ziraldo - A história começa em Caratinga, bicho!
Ivan - (desesperado) Mineirou!
Jaguar - Mas é um senhor romancista.
Chico - Outro mineiro bom é Sérgio Sant'Anna, esse contista.
Tárik - Rubem Fonseca?
Jaguar - Não admito sugestões. Quero ouvir o Chico
Chico - Gosto de "A Coleira do Cão". Li também "O Caso Morel".
Tárik - E "Feliz Ano Novo"?
Ziraldo - É aquele romance.
Jaguar - (ameaçador) Vou desligar, hein! Olha, vou desligar!
Ivan - Vocês estão querendo testar a cultura do Chico Buarque, o que é
desagradável.
Jaguar - Não, eu quero que diga o que gosta sem preocupação de cultura.
Eu, por exemplo, gosto de "Winetou".
Chico - Quando eu era garoto tinha mania de ler em francês.
Ziraldo - Tu parle français?
Chico - Não, esqueci tudo quando aprendi italiano. Eu lia os russos em francês
também. Não li nada de literatura inglesa ou americana. De uns tempos pra cá
só li brasileiros.
Jaguar - O que você leu aos 18 anos? Os livros dos 18 é que formam o cara.
Chico - Comecei a ler Mário de Andrade, Graciliano Ramos...
Jaguar - Poesia? Quem são os poetas?
Ivan - (de saco cheio) Tenho ódio de poesia. Todos os poetas entubam.
Chico - Nunca li poesia em língua estrangeira.
Ziraldo - Nunca leu Yeats, Keats?
Chico - Pra ler poesia em outra língua tem que dominar paca.
Jaguar - Que você leu de poesia brasileira?
- Bandeira, Drummond, Jorge de Lima. Ferreira Gullar...
Ziraldo - Chico Buarque, a chamada conjuntura, o sistema, o capitalismo, o
Ocidente, a organização social que conhecemos, te deu tudo. Individualmente
você não pode se queixar do sistema. Foi um menino que teve uma infância
feliz, protegida, rica. Rica no sentido de coisas, aventuras. Então de onde vem
a sua indignação social?
Chico - Indignação, mesmo, é um pouco forte.
Ivan - Exatamente.
Chico - Mas é um termo certo. Só que isso se colocou mais recentemente. É
uma história comprida pra cacete.
Ziraldo - Sammy Davis Jr. escreveu um livro chamado "Yes, I Can". É um livro
canalha. Se o cara tiver talento fura o bloqueio da injustiça social. O fato de
você ter vencido te coloca como privilegiado. Mas isso não significa que o
mundo seja bom, justo. E você sabe disso. A sua obra prova isso. Por que essa
indignação é a tônica da sua obra?
Chico - (pensa bastante e trança os dedos) Meus pais não eram burgueses.
Meu pai era um intelectual. Estudei nas boas escolas, e tal. Mas foi sempre
mais da molecagem. Quando era garoto, 16, 17 anos, fui preso umas três
vezes. Gostava de transar meio...
Ziraldo - Marginalmente.
Chico - Nunca gostei da outra transa. Eu estudava num colégio de gente bem
em São Paulo. Onde eu era um dos mais pobres da classe. Meus colegas iam à
aula de Mercedes, chofer. Eu era aquele que apanhava ônibus e carona.
Ficava no caminho. Pinheiros, aquele bairro meio fuleiro. Aquele clima de São
Paulo. Aí... comecei a roubar automóvel. Roubei automóveis... (ri e fica
vermelho).
Jaguar - Como assim?
Ivan - Roubava pra dar uma voltinha.
Chico - Comecei a transar muito com essa gente. Pra farra, né. Tinha a
polícia... Polícia sempre teve atração por mim. Chegou aquele guarda ali,
penso: "É comigo". Eu era de menor, então livrava a cara. Apesar disso, uma
vez fui preso. Eu e um amigo meu, aquele que transava bossa-nova comigo.
Tinha roubado carro. Chegou aquele carro da Rádio-Patrulha, parou a gente no
Pacaembu. Parou ao lado: "Flagrante, não sei o que"! Tomamos porrada pra
burro. Mas porrada pra valer. Não tinha documento nem nada. "Menor de idade
que nada! Quê isso! Vamos levar pro DI." Veio a gente no banco de trás,
algemado, eu e ele. Só que eu tava no meio. Então eu tomava mais porrada do
que ele, que tava mais longe, fora do alcance. Quando um dava porrada os
outros todos davam também. Achavam que pegando a gente tinham apanhado
a maior rede de puxadores de carros. E a gente mal sabia, tinha feito um erro
primário; roubamos o mesmo carro pela segunda vez. Parece que o cara tinha
tirado o cachimbo do carro. Era um Peugeot, um carrinho velho daqueles. Perto
de onde moravam meus pais, tinha aquelas ladeiras do Pacaembu. A gente
descia com o carro na maciota, abria o vidro... Isso eu sei até hoje. Se alguém
esquecer a chave dentro do carro, eu sei abrir. Descia, e na descida... (faz
barulho de carro acelerando).
Tárik - Aproveitava o embalo.
Chico - Fazia a ligação. Mas esse não dava nada. A gente, tchoc. tchoc, até
lá embaixo. Aí os caras pegaram a gente. Fomos pro DI.
Ivan - Departamento de Investigações.
Chico - E era porrada de ascensorista... A gente parou na casa do dono do
carro. O dono do carro: "Esses é que são os ladrões". Saímos do carro. Na
hora de voltar, dei um jeitinho de ficar com as mãos cruzadas e entrar no
fundo. E assim, da casa do dono do carro até o DI, meu colega tomou mais
porrada do que eu. (risos) Até o que cara que tava guiando: pá! dava porrada. Acabou
que passamos a noite numa cela com um garoto que tinha roubado um burro.
Esse tipo de transa é que foi a minha formação de adolescência.
Ivan - Um pouco James Dean.
Ziraldo - Quer dizer que você deu muito trabalho pra papai e mamãe?
Chico - Mas era barra pesada. Enfim, tivemos contato com esse garoto que
roubou o burro.
Jaguar - E seu pai? Foi à delegacia depois?
Chico - Não, por esses dias estavam comemorando bodas de prata em Ouro
Preto. Foi minha irmã, a Miúcha, que foi lá, no dia seguinte. Ficou fula da vida.
Ziraldo - "Esse menino não me dá sossego!" Eu achava que você era
comportadíssimo. Mas você teve uma vivência que te permitiu viver, além da
cuca, o mecanismo do mundo.
Chico - Essa história faz parte de outras histórias assim. Coloquei essa aqui
pra quebrar um pouco essa distância que você está colocando. Não foi um
negócio visto de cima pra baixo.
Ivan - Um tapa na cara é o começo. A indignação leva muito tempo.
Chico - Eu já tinha muitos casos, criando confusão em casa. Fui interno pra
Cataguases.
Ziraldo - Já não te agüentavam mais?
Chico - Não, aí foram problemas religiosos.
Ivan - Teve problemas religiosos?
Chico - Tive. Dentro dessa escola que a gente estudava, pintou um negócio
de um grupo ultra-católico. Que mais tarde inclusive foi dar na TFP, que não
existia naquela época. Comungar todo dia.
Ziraldo - Você chegou a comungar?
Chico - Comungava pacas. Era muito católico. Ao mesmo tempo... (risos)
Ziraldo - Você resolveu esse problema na sua cabeça?
Chico - Não tenho mais.
Ziraldo - Qual foi a última vez que você comungou?
Chico - Deve ter sido por aí, essa época, fui pra Cataguases, 15 anos.
Tarik - O que aconteceu no grupo ultra-católico? Por que você foi parar em
Cataguases?
Chico - Eram os Ultramontanos. Negócio medieval. Diziam eles que vinham aí
abalar, que iam sobrar só os bons predestinados. E os garotos bons
predestinados vão ser criados pro novo mundo que vai surgir. Garotos de 14
anos, 15, embarcam nessa. Até que as pessoas atinam.
Tárik - Você era contra o pessoal?
Chico - Não, entrou todo um grupo.
Ziraldo - Você chegou a ser dos Ultramontanos?
Chico - Quando era admitido começava a usar o escudinho. Não cheguei a
entrar nessa. Mas tava sendo preparado. Barra pesadíssima. Acontece que o
pessoal, os pais, sacaram qual era. No começo achavam muito bom: as
crianças de repente quietinhas, estudando, rezando, comungando todo dia.
Mas antes que o negócio engrossasse, dissolveu.
Ziraldo - Isso é interessante pra conhecermos a sua vivência.
Chico - Não é questão de tomar uma porrada na cara quando garoto, porque
foi preso, e ter que devolver o negócio. É como o Ivan falou, mais tarde...
Leva tempo. Tem que ter as duas coisas. A vivência e um conhecimento
existencial. Junta as duas coisas e dá uma indignacão maravilhosa. (ri) Com
base de corpo inteiro.
Ziraldo - No momento em que o artista fala não só pro cara ali na sua frente,
mas pra muita gente, se soube da coisa, tem como obrigação comunicar isso
pra todo mundo. É fundamental. Por que você faz isso? Por que toda obra sua é
quase um aviso?
COCO - Não coloco como obrigação pra ninguém porque não tô aqui pra ditar
regra.
Ziraldo - A tônica do seu trabalho é a busca da felicidade. A felicidade
social, humana, do convívio. Qual é a consciência que o Chico tem disso? Sai
naturalmente? Ou você, achando a obra vazia, enxerta? Até mesmo "Valsinha"
não é solta, tá preocupada com o ser humano.
Chico - Tudo isso que você falou, e a minha dificuldade em responder, está
nisso: porque sai naturalmente.
Ziraldo - Porque não podia sair outra coisa.
Chico - Vou ter que parar pra pensar porque fiz tal coisa, quando ao fazê-lo
não pensei. Minha resposta pode soar falso.
Ivan - Todo homem é o resultado daquilo que fez, de onde esteve e com
quem falou.
Ziraldo - Esse tipo de colocação te preocupa de vez em quando?
Chico - Que tipo?
Ziraldo - "Porque estou fazendo isso?"
Chico - (faz que não com a cabeça...) O que estou fazendo, como criação,
não posso parar pra pensar. Esse tipo de explicativa procuro para as minhas
atitudes fora da criação. Faço isso ou não... isso é certo ou errado. Apesar de
na minha vida ser também intuitivo. Ir fazendo as coisas porque pintou, porque
é legal ou não é legal fazer.
Ivan - E Julinho de Adelaide? O PASQUIM ia fazer uma matéria a respeito, mas
foi cortada.
Tárik - Foi enterrado.
Chico - Mataram.
Ziraldo - Quando foi que descobriram que Julinho de Adelaide era você?
Chico - Não sei. Foram descobrindo aos poucos. Começou a sair, em jornal. A
única informação que podiam ter era na UBC, a arrecadadora.
Ziraldo - "Acorda Amor" é Julinho de Adelaide?
Chico - É.
Ziraldo - Não sairia com teu nome de jeito nenhum, né?
Chico - Acho que não. E agora não pode mais.
Ivan - Por que não?
Chico - Depois dessa história de Julinho de Adelaide, pintou um negócio que
pra mandar a música pra Censura, tem que mandar carteira de identidade, CPF,
o cacete. Tem que explicar direitinho.
Ziraldo - O que você achou do Glauber ter te chamado de nosso "Errol
Flynn"?
Chico - Acho o Glauber muito engraçado.
Ziraldo - Você entendeu o que quis dizer?
Chico - O que você acha que quis dizer?
Ziraldo - Que você virou um pouco o herói que tá fazendo as coisas pra
gente. Muita gente quieta em casa, puta da vida, que diz: "Isso Chico! Dá-lhe
Chico"! E não faz nada.
Chico - É. Pode ser colocado assim.
Ziraldo - Porque você sabe do negócio de catarse do teu trabalho.
Chico - Situado diante do Gláuber é outra conversa. Mas quanto a esse
problema, porra, tenho muita consciência dele. Vivo com esse problema e
tenho falado sobre, respondido a isso. Acho que tenho consciência de já ter
reagido a isso. Deu mil mal-entendidos. Fui interpelado por estudantes que
entenderam errado.
Ziraldo - Isso te incomoda, as pessoas te passarem o bastão e exigirem um
comportamento?
Chico - É claro: fui xingado por isso. Tava me referindo ao show do Casa
Grande e ao Circuito Universitário. Falei "Não vou fazer mais não. Do jeito que
tá não dá". Os Diretórios Acadêmicos começaram a fazer um show atrás do
outro, e deu aquele delírio que eu não te a fim de endossar. Deô ser o Errol
Flynn desses estudantes. Tenho muita coisa mais importante do que isso a
fazer. Apesar de que, de vez em quando, o fato de manter uma chama acesa é
bom. Viver disso é que não é legal.
Ricky - E Canecão?
Chico - "Tá fazendo isso pra ganhar dinheiro." Ganho a mesma coisa que
ganhava no circuito Universitário. Agora estou um pouco mais tranqüilo quanto
a isso. "Tô fazendo esse show pra classe média que tá vindo aí."
Ziraldo - É a sua profissão, pô.
Chico - Tá legal. Isso acabou. Mas o outro negócio cria um conflito. Há um
ano, mais ou menos, sem querer, estou sendo sustentado por essa imagem de
Errol Flynn. As pessoas achando que era despojamento. Não é não. É o mesmo
trabalho de sempre. Não vou botar uma máscara pra fazer aquilo. Também não
pode ficar com essa mistificação, essa catarse em cima, que aí eu acho uma
merda. (para o garçom) Outra caipirinha com vodca, pouco açúcar e um maço de
Charme.
Todos - Charm?
Ivan - Não fumas o cigarro do Kojak?
Wilma - Ainda precisa pedir mais um maço de Charme...?
(Chico sorri, abrindo o bigode sobre os dentes brancos, perfeitos, franzindo os
olhos profundamente verdes... Daí pra frente o papo degenerou na noite
carioca.)
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