Folha de São Paulo - 18/06/94


Augusto Massi

Chico Buarque completa 50 anos amanhã

O compositor carioca fala sobre seus 30 anos de carreira, seu processo de criação, cinema e o disco "Paratodos"

O compositor Chico Buarque de Hollanda, responsável por uma das mais consistentes obras musicais da MPB, completa amanhã 50 anos. O aniversário será comemorado em Paris (França).
Em entrevista concedida à Folha à época do lançamento de seu último disco, "Paratodos", Chico fala sobre seus 30 anos de carreira.

Criação

Não faço um disco quando quero, faço quando preciso. Não sei exatamente o que dita esta necessidade. Não é uma pressão de fora, é uma pressão que eu mesmo me coloco. Não sei explicar qual a sua natureza, mas a verdade é que isso vale para todos os meus discos. Outro dia eu li que o pintor Pierre Bonnard ia com seus pincéis para o museu onde suas obras estavam expostas. Quando o guarda não estava olhando, ele dava uma pincelada e corrigia um trabalho de dez anos atrás. Eu me identifico perfeitamente com isso.

Na primeira pessoa

Muito do meu trabalho nos anos 70 estava ligado ao teatro. Eu falava através de personagens, enxergava através de outros olhos. Deixei de compor para teatro e para cinema. A partir desta mudança, penso que uma existência mais isolada como a que me foi exigida para escrever "Estorvo" acabou resultando num caminho mais solitário e numa linguagem mais individual.

Lirismo atual

Muitas de minhas canções amorosas também por conta do teatro eram sempre dramáticas. "Olhos nos olhos" por exemplo é uma canção muito teatral. As músicas mais recentes como por exemplo "Valsa brasileira" e "Futuros amantes" são mais líricas e mais poéticas. Já não há tipos, nem personagens femininos. De qualquer forma, sem precisar me expor pessoalmente, eu assinaria todas essas canções teatrais como experiências minhas. São canções pessoais.

Cinema

Gosto muito de Fellini e de Buñuel. Me sinto mais em casa com Buñuel, mas não é um juízo de valor. É apenas uma questão de afinidade.

Auto-retrato

Eu sou uma pessoa muito afetiva, que age sempre por afeto. Eu sou o homem cordial.


Anterior Próximo