No site Tom Jobim - 16/11/96


Luiz Roberto

Conversa de camarim

Estamos com Chico Buarque, em seu apartamento no Jardim Botânico. Eu estou tomando um uisquezinho, meio sem jeito, e acho que o Chico também está um pouco sem jeito, mas...

Chico Buarque - Sem jeito e sem uísque.

Luiz Roberto - Mas por que sem uísque?

Chico Buarque - Porque eu não bebo!

Luiz Roberto - Você não bebe nada?

Chico Buarque - Eu bebo um vinho, à noite... Aliás, eu parei de beber não por força de vontade, mas por culpa do Tom. Houve uma época em que ele parou de beber, e ele conhecia um feiticeiro. Eu bebia bem, e pedi ao feiticeiro umas ervas para ficar um mês sem beber, eu queria dar uma enxugada. O feiticeiro disse: "Você não vai beber nunca mais." E eu disse: "Nunca mais, não, eu quero beber, mas só quero dar um tempo." Eu só queria dar um tempo, parar um mês, geralmente fevereiro que é o mês mais curto. E você sabe que eu enjoei ? Enjoei de uísque, de bebidas fortes, só tomo uma cervejinha ou um vinho. E o Tom, depois, voltou a beber.

Luiz Roberto - Pois é, o feiticeiro foi-se, e ele voltou a beber... Mas nunca bebeu muito, depois disso.

Chico Buarque - O Tom gostava mesmo é de cerveja.

Luiz Roberto - Mas foi o Vinícius que botou ele no uísque.

Chico Buarque - Pois é, Vinícius era diplomata, viajava muito, mas o Tom era um cidadão carioca. No Brasil, até os anos cinqüenta e sessenta, bebia-se muito pouco uísque. Os nacionais eram muito ruins, e os importados muito caros. O Tom tinha capacidade para tomar muita cerveja e chopp.
Mais tarde, a Brahma até chegou a instalar em casa dele uma choperia, sempre reabastecida.

Luiz Roberto - A Brahma deu isso a ele?

Chico Buarque - Pois é, ele fazia muita propaganda de graça. Na Plataforma, falava de Brahma o tempo todo.

Luiz Roberto - Sem dúvida, a cerveja dele era a Brahma. E ele fala nela até na letra de "Chansong".

Um violão chamado Vinicius

Luiz Roberto - Chico, quantos anos você tem?

Chico Buarque - Cinquenta e dois.

Luiz Roberto - Qual foi a primeira vez em que você ouviu falar do Tom, ou ouviu alguma música dele?

Chico Buarque - Foi num disco em 78 rotações, talvez o primeiro disco que eu comprei, para dar para minha irmã. Eu gostava da música: Teresa da Praia.

Luiz Roberto - Qual irmã?

Chico Buarque - A Miucha.

Luiz Roberto - Que naquele tempo tinha o apelido de Bubu (risos). Aí você deu a ela Teresa da Praia.

Chico Buarque - Com Dick Farney e Lúcio Alves cantando. Mas eu me ligava na música e talvez não soubesse ainda quem era Tom Jobim. Não sabia quem era o compositor, nem que a letra era do Billy Blanco. Não lembro desta época do nome de Tom Jobim. Quem eu conhecia já algum tempo era o Vinicius, amigo do meu pai, Sérgio Buarque de Holanda, historiador e crítico literário. Ambos pertenciam ao mundo da literatura.

Luiz Roberto - Você conhecia o Vinicius desde criança?

Chico Buarque - Desde criança. Durante dois anos, entre 52 e 54, minha família morou em Roma. Meu pai foi dar aulas na universidade de Roma e nesta época o Vinicius era consul em Roma. Morando em São Paulo, a gente não via o Vinicius, mas em Roma, ele como consul volta e meia aparecia lá em casa.

Luiz Roberto - Quantos anos você tinha nesse tempo?

Chico Buarque - Fui com oito anos e voltei com dez. E quando Vinicius aparecia era uma festa lá em casa, festa para a qual nós crianças não eramos convidados, é claro, ficávamos assim de longe, ouvindo.

Luiz Roberto - E você já tinha interesse naquela época, já se ligava no Vinicius, quem era aquele cara e tal?

Chico Buarque - Muito, muito. Tinha fascínio por ele, tinha fascínio porque eu era criança e via a Miucha, minha irmã mais velha , que tinha um violão que se chamava Vinicius. E através também dos meus pais que gostavam muito dele. O meu pai era fascinado pelo Vinicius. Vinicius tinha esse poder de fascinar as pessoas que, no bom sentido, tinham um pouco de inveja da maneira como ele levava a vida. O meu pai de certa forma gostaria de ser como ele. Drummond disse uma vez que o Vinicius era o grande poeta que vivia a própria poesia. Um poeta em vida. E meu pai também volta e meia contava histórias do Vinicius. Por que o Vinicius era um mito. O Vinicius tocava no violão da Miucha aquelas canções dele em parceria com Antonio Maria, outras dele mesmo, aquela "Cem por cento", "Quando tu passas por mim". Quando começou a parceria de Vinicius e Tom, pra mim o Tom não era ninguém, era parceiro de Vinicius. Eu lembro bastante do LP que tocou muito lá em casa, a Elizete Cardoso em "Canção do amor demais".

Luiz Roberto - Em que época você morou em São Paulo?

Chico Buarque - Eu fui com dois anos de idade para São Paulo, e morei lá até os vinte e dois. Morei vinte anos em São Paulo, com esse intervalo no meio de dois anos em Roma

A ruptura

Chico Buarque - Então aí tem um ponto de ruptura, que foi quando realmente aconteceu a música na minha vida. Foi com "Chega de saudade", no compacto de João Gilberto.
O João tocou violão na música "Outra vez", no disco "Canção do amor demais", que já era uma coisa estranha pra mim, mas a estranheza mesmo veio com "Chega de saudade". E era uma estranheza geral, tanto é que houve uma ruptura mesmo de gerações, de pessoas que não gostavam daquilo, pessoas mais velhas que difìcilmente engoliram no primeiro momento a Bossa Nova, aí incluindo a música do Tom e a voz, o violão, e a maneira de cantar de João Gilberto.

Luiz Roberto - O que seu pai achava disso?

Chico Buarque - Meu pai resistiu um bocado, engraçado.
Na época eu tinha uns 14 anos e me pegou em cheio. E eu percebi que com todo mundo foi a mesma coisa. Na Bahia, com Gilberto Gil, Caetano Veloso. Quem ouviu, lembra de quando ouviu e em que circunstâncias... Eu me lembro: "Nossa, tem uma música do Vinicius tocando no rádio..." E eu pedi a meu pai um adiantamento da mesada, para comprar o disco. "Chega de saudade" foi o marco histórico.

Tom ou João?

Luiz Roberto - O Tom já no inicio já fascinou você? As músicas?...

Chico Buarque - A partir daí eu comecei a descobrir que as músicas não eram do Vinicius, eram do Tom Jobim, e eu comecei a me ligar - e cada novo disco do João tinha um punhado de músicas do Tom. Mas o Tom mesmo, quer dizer ele cantando, ele gravando, foi mais tarde...

Luiz Roberto - Naquela época ele era tímido, profissionalmente muito retraído, não queria cantar nem nada, e ganhava a vida como pianista e arranjador. Mas neste começo o Tom já fascinava você ou era apenas um bom compositor - tão bom quanto outros, como Pixinguinha, como Noel Rosa?

Chico Buarque - Não. Ele pra mim desbancou todo mundo, porque eu conhecia bastante música brasileira, essa música dos anos 30, anos 40, porque lá em casa sempre houve muita música, meus pais cantavam muito Noel Rosa, tinha histórias de Ismael Silva, Ataulfo Alves. Chegou a Bossa Nova eu rompi com esse passado todo. Houve um tempo em que eu não podia nem ouvir falar. A não ser que fosse alguma coisa recriada por João Gilberto, por exemplo, João cantando Ari Barroso. Pra mim foi assim... mudou. Mais tarde eu recuperei inclusive essa formação toda, bastante forte, de música popular, música de carnaval - eu ouvia muito rádio na época de carnaval.
Quando chegava no meio do ano, gostava muito de bolero, de sambas, de marchinhas de carnaval, sabia de cor todas as músicas. Mas quando chegou Tom... Mas agora eu não sei te dizer na medida exata até onde era Tom e até onde era João Gilberto, porque a inovação também era João cantando.

CAPÍTULO II - Ciúmes

Luiz Roberto - Quando é que você conheceu o Tom pessoalmente?

Chico Buarque - Foi bem depois. Eu fui levado à casa dele pelo Aloisio de Oliveira. A casa lá em Ipanema, na rua Nascimento Silva. O Aloisio me fez cantar o Pedro Pedreiro, que foi a primeira música que eu gravei . Eu não tinha gravado ainda, então foi entre 64 e 65, uma coisa assim. O Tom muito simpático, muito receptivo, e tal...

Luiz Roberto - E o Tom conhecia você?

Chico Buarque - Não, ficou conhecendo ali.

Luiz Roberto - Mas já tinha ouvido músicas tuas?

Chico Buarque - Não, eu não tinha gravado nada ainda, o Aloisio... talvez eu fosse gravar na Elenco e acabei gravando na RGE. Eu toquei essa música, não sei se outras também, enfim... toquei porque ele me mandou tocar, mas fui lá para ver o Tom. E pronto, foi um contato rápido e depois o Tom foi para os EUA, parece... e só viemos a ter um convívio maior quando ele voltou dos EUA, quando começou a nossa parceria, já em 67.

Chico Buarque - Naquela época eu morava na rua Dias Ferreira, no Leblon, perto da casa dele, e ele morava na Codajás. Quer dizer, dava para ir a pé. Eu ia muito à casa dele, conheci muito a casa dele, mil histórias. O piano que eu comprei foi Tom que foi comigo, me levou num lugar na Lapa e ele mesmo escolheu o piano. Foi quando eu comecei a estudar música. Porque eu não tinha conhecimento teórico nenhum, tocava de ouvido, e a minha primeira parceria com ele foi nessa época: o "Retrato em Branco e Preto".
E foi um pouco o Vinicius também que aproximou a gente.

Luiz Roberto - Sem ciúmes?

Chico Buarque - Ciúmes disfarçados. Grandes ciumes disfarçados.

Luiz Roberto - Como foi esse isso? Ele tinha ciúmes, mas aproximou vocês.

Chico Buarque - O Tom morria de ciúmes do Vinicius: (imitando o Tom) "Ah, o Vinicius fica fazendo letra pra todo mundo, pra qualquer um..." (risos) "Ele conheceu um rapaz de Juiz de Fora e já saiu fazendo músicas..." (risos) Tinha um fundo de ciúmes bravo aí...
Vinícius foi sempre muito carinhoso comigo, até por essa relação de família. Quando ele ia a São Paulo ele ia muito à casa da Rua Buri, e então, nessa época, eu me lembro muito de Vinicius com Baden e com Alaíde Costa; lembro do Baden cantando as parcerias com Vinicius pela primeira vez, lá em casa, "O samba da benção", e tal... E eu ainda não conhecia o Tom - o Vinicius foi muito generoso me apresentando a ele.

Luiz Roberto - Mas ele de alguma forma estimulou vocês para uma nova parceria, ou isso aconteceu naturalmente?

Chico Buarque - Ele sabia o que estava fazendo... Não sei te dizer porque, mas o Vinicius a partir de uma certa época deixou de fazer música com o Tom. Eles continuaram amigos até o fim. Amicíssimos.
Vinicius fez música com o Carlos Lyra, com o Baden Powell, com todo mundo. Com todos os grandes, não é?

Luiz Roberto - Com os pequenos também, muitos...

Chico Buarque - E muitos desconhecidos. E parou de fazer músicas com o Tom - eu nunca soube de nenhum problema entre os dois, pelo contrário, eles se encontravam muito, na época eles iam ao Antonio's, bebia-se muito e tal... No Antonio's, Vinicius, Tom, eu e mais tanta gente. Sempre foram grandes amigos, nunca me explicaram, não sei o que houve.

A primeira parceria

Luiz Roberto - Chico, como é que foi fazer tua primeira letra pra ele? Você achou dificil, foi uma emoção, foi uma coisa especial para você? Como é que foi esse "Retrato em branco e preto", que antes se chamava "Zíngaro"?

Chico Buarque - Quando o Tom me deu essa música para fazer letra... engraçado que nesse comecinho não sei se era uma impressão minha ou se era real, eu tinha impressão que ele estava me dando uma força, ele insistia muito para eu fazer a letra - porque comparando com outras músicas que ele fez mais tarde, quando a gente já tinha uma amizade maior, era mais difícil fazer letra para o Tom, porque ele interferia demais. Nessa letra ele não interferiu nada. Ele "Tá ótimo, tá ótimo, tá ótimo", assim como quem faz cerimonia ou paternaliza um pouco, não sei, porque nós não tínhamos uma relacão ainda assim próxima, eu ainda tinha esse respeito por ele.

Chico Buarque - Entra uma certa cerimonia. Eu não me lembro de problema nenhum, não me lembro de história nenhuma, ele me entregou a música, que já estava até gravada e era "Zíngaro" e tal... e eu fiz a letra em casa e mostrei pra ele: "Ótimo, ótimo, ótimo" e ficou por isso. Não tenho uma lembrança maior. E foi para mim um desafio grande porque eu não era letrista nessa época, quer dizer, eu era letrista de minhas próprias músicas.

Luiz Roberto - O Tom foi seu primeiro parceiro?

Chico Buarque - Não, eu tinha feito uma vez para o Toquinho. Uma música chamada "Lua cheia" em 65 por aí, então eu não tinha prática e não sabia exatamente como ele receberia a letra - aprovar assim de cara, pra mim foi ótimo eu não tinha muita segurança daquilo não, porque eu fui aprender a fazer letra com a prática, inclusive trabalhando com o Tom. De você tentar dominar a música do teu parceiro, entrar naquela música, fazer a letra que você imagina que o sujeito quer fazer com aquela música e tal. Eu era verde ainda para ser parceiro do Tom na época, e mais tarde por exemplo, dez, vinte anos depois, quando eu já estava mais consciente do que eu estava fazendo, eu tinha de discutir com o Tom porque...

Piano na Mangueira

Luiz Roberto - Por que?

Chico Buarque - Porque o Tom era implicante com o negócio da letra, e eu tinha de discutir e tinha de convencê-lo, porque ele nunca me dobrou - só que aí eu tinha certeza do que eu queria, entende, ele brincava muito e tinha aquela coisa dele...

Luiz Roberto - "Monday, tuesday, wednesday"... Aconteceu isso mesmo?

Chico Buarque - É...

Luiz Roberto - "Mandei subir"...

Chico Buarque - É, e aí eu ganhava a discussão, mas ele tinha uma coisa de pirraça de crianca, e depois mais tarde ele era capaz de gravar "Mandei subir o piano pra Mangueira" ele mesmo...

Luiz Roberto - Ele mesmo adaptou....

Chico Buarque - Mas na época ele (cantava a música) "Já mandei..." (e brincava): "monday, tuesday, wednesday..." e tal. Acusei o golpe e falei o seguinte: - ô Tom, é "já mandei" porque o piano está subindo o morro puxado naquelas cordas, está indo todo torto, então ele vai desconjuntar e tem que ter essa sílaba tônica no lugar errado: "já mandei subir"...
E ele parecia concordar: "Até que você tem razão...", e mais adiante, gravando, ele cantava mesmo é "mandei subir o piano"...
E com esta música mesmo tem várias histórias: ele fez a música, mandou a música, e eu fiz a letra respeitando cada nota, respeitando cada movimento, procurando ser o mais fiel e o mais preciso e o mais irretocável. Algumas vezes aconteceu, inclusive com o Piano na Mangueira, que quando eu terminava a letra, ele ouvia, às vezes fazia algumas brincadeiras e tal, mas eu ficava sério, pronto para sustentar o meu ponto de vista, e aí às vezes o que ele fazia? Ele mudava a música!
Depois da letra pronta, sendo que eu tinha feito a letra exatamente para a música como ela era.

Luiz Roberto - Na métrica exata da música...

Chico Buarque - E aí ele mudava a música, respeitando a letra. Eu ficava um pouquinho assim (chateado), e pensava: "Mas me deu tanto trabalho fazer a letra para essa música, e ele faz outra música com a minha letra." Com o "Piano na Mangueira" aconteceu isso - tem um trecho (de melodia) no final que ele mudou, não tinha nem na música nem na letra que eu fiz.

Luiz Roberto - Ah é ?...

Chico Buarque - Não tinha esse troço... (cantarola) "onde a cabrocha pendura a saia no amanhecer da quarta-feira..." Ele fez isso depois...

Luiz Roberto - E essa frase aguda do final ("...no amanhecer da quarta-feira") será que não foi pra dar um certo clímax, uma resolução da melodia?

Chico Buarque - É, mas ele musicou a letra ! Eu tinha certeza de ter feito correto pra música dele, e ele deu a volta, na realidade.

Luiz Roberto - E aí acabou ficando "mandei subir o piano pra Mangueira".

Chico Buarque - O "meu piano" foi outra coisa que eu discuti com ele: - ô Tom, é "o piano...". Aliás, eu trazia a letra pronta e aí ele ia cantando, cantando, e como se estivesse errando, mudava a letra. "Mandei subir meu piano pra..." e estava escrito "...o piano pra Mangueira". Eu pensava, bom, ele leu errado, agora vai cantar certo, e eu dizia: -Tom, não é "meu piano" é "o piano", uma coisa mais vaga assim... E ele dizia "Ah, tá bom" e na vez seguinte cantava "meu piano"...

Chico Buarque - E eu falava: - É bonito "o piano" sem ser "meu", porque em francês, onde tudo é possessivo (e eu tenho essa experiência agora que eu estou traduzindo um livro), tem que ser "meu piano" ou "seu piano", piano dele ou piano dela. Eu lembro de ter comentado isso com o Tom, é bonito na língua portuguesa, "mandei subir o piano"...

Quem fez o que nas parcerias. Ligia, Sabiá, e as parcerias que não aconteceram.

Vou te contar

Chico Buarque - Às vezes o Tom implicava com certas coisas, e uma vez ele abortou uma letra minha.

Luiz Roberto - Qual foi?

Chico Buarque - Não lembro qual foi a música, foi há bastante tempo, eu comecei a fazer a letra e ele começou a fazer piada em cima da letra (risos), e eu perdi (a vontade de fazer). Depois eu até usei em uma música minha. Era uma letra que falava: "Quem vem lá ? Que horas são ? É você ? É o ladrão ?" E ele dizia: "É o sapatão?..." (risos). Abria um caderno que ele tinha, pegava aquele começo de letra e fazia uma letra enorme com as palavras dele. E eu falava: "ô Tom ???!!!" Era engraçado mesmo... Porque a gente nunca brigou mas às vezes ficava nesse ponto...

Luiz Roberto - Meio tenso?

Chico Buarque - É...

Luiz Roberto - Sem querer talvez ele ridicularizava um pouco nesse negócio do "monday", "o sapatão", e tal - isso doía um pouco em você?

Chico Buarque - Não, não doia não, porque eu tinha certeza do que eu queria. Se fosse na época do "Retrato em Branco e Preto" sim, mas depois não, eu discutia com ele a letra pau a pau, e eu também já não tinha mais cerimônia com o Tom, e sabia que tinha uma coisa um pouco dele muito crítica, de querer interferir na letra. Então eu falava: "Tom, faz você a tua letra porque você é o teu melhor letrista."
Muitas vezes, muitas músicas que ele me deu eu não fiz letra, não por não querer ou não gostar - às vezes até por não conseguir - e depois ele fez lindamente. "Luiza" mesmo, ele tinha me dado para colocar letra . O "Wave" também.

Luiz Roberto - Como é que foi "Wave" ? Dizem que você fez "Vou te contar".

Chico Buarque - Exatamente, "Vou te contar" e pronto...

Luiz Roberto - Quer dizer que "Vou te contar" é teu ? (risos).

Chico Buarque - É engraçado, eu lembro do "Wave" quando ele me mostrou, e eu demorando a fazer, não saía nada além de "vou te contar", e aí ele disse: "Pô, Chico, você não quer ficar rico?" (risos)
Ele já adivinhava que "Wave" seria uma das músicas mais executadas, já pressentia que ia ser um sucesso.

Jogando futebol

Chico Buarque - E só para concluir, esta história foi até engracada. O Piazzola uma vez me mandou uma música para fazer letra, música lindissima, em setenta e pouquinhos. E eu nunca fiz, aí uma vez ele veio ao Brasil fazer um programa de televisão, aquele programa que eu tinha com o Caetano. E aí quando ele chegou, ele ia ficar uma semana ensaiando e eu lembrei daquela música e falei: "ô Piazzola, eu vou tentar fazer aquela letra, porque aquela música é tão linda, vai ser legal a gente cantar essa música no programa." Música inédita e tal. Ele me disse que não se lembrava mais daquela música, e aí eu catei a fita e ensinei pra ele, ele pegou a música, fez arranjo, fez tudo o mais. Uma semana depois, no dia da gravação, eu simplesmente não tinha conseguido fazer a letra, porque ou você consegue ou não consegue, não é?

Luiz Roberto - Não saiu...

Chico Buarque - Eu lembro que na hora do ensaio, ele tinha recebido a notícia de que eu não tinha feito a letra, e ele ficou enfurecido, coitado, ele não entendeu...

Luiz Roberto - Achou que era desleixo.

Chico Buarque - Disseram a ele: "O Chico vai chegar mais tarde porque está jogando futebol". Eu não ia fazer a letra se eu não jogasse futebol, eu jogo futebol porque eu jogo sempre... Quando eu cheguei lá, estava o Tom acalmando o Piazzola, que estava à beira de um ataque de nervos: "O Chico é assim mesmo, ele fica jogando futebol" (risos). Ele falando de um jeito tal, que aí o Piazzola, vindo do Tom... ele aceitou.

Sabiá e Ligia

Luiz Roberto - Como é que foi Sabiá ? A letra é sua inteirinha?

Chico Buarque - A letra é minha.

Luiz Roberto - Eu ouvi dizer que, quando vocês estavam fazendo a música, você viajou, e que o Tom completou os últimos versos.

Chico Buarque - Não, essa história é a seguinte: eu fiz a letra, terminei a letra - e quando eu viajei, ou um pouco antes de viajar, o Tom achou que tinha que aumentar a letra , e eu ou não tive tempo, ou porque viajei, ou porque não concordei, não aumentei a letra - e dei a letra por terminada ali. Quando eu terminei a letra, ele achou que era insuficiente porque a música repete outras vezes, ele achou que pedia mais uma letra, e eu achei que não pedia. E aí ele fez à minha revelia, na minha ausência, um pedaço de letra, que depois sumiu.

Luiz Roberto - Você lembra?

Chico Buarque - "Que a nova vida já vai chegar", uma coisa assim "que a solidão vai se acabar", você lembra disso?

Luiz Roberto - Tinha esquecido, agora que você está falando me veio à memória.

Chico Buarque - Isso ele acrescentou depois, eu não aceitei muito essa.

Luiz Roberto - Houve até alguma gravação em que entraram esses versos.

Chico Buarque - Sim, chegou a ser gravado, essa é a parte dele que ele resolveu (fazer), mas depois acho que ele voltou atrás, porque mais adiante cantou mil vezes a música e nunca mais cantou esse pedaço.

Luiz Roberto - Exato...

Chico Buarque - Eu nem falei nada pra ele, fiquei um pouco assim, né... porque não era o combinado.

Ligia

Luiz Roberto - Chico, como é que foi "Ligia", porque tem duas versões, tem "olhos morenos", tem "olhos castanhos"...

Chico Buarque - Olhos morenos. Mas "Ligia" é o seguinte....

Luiz Roberto - Você fez alguma destas versões?

Chico Buarque - "Ligia" é o seguinte: a letra é do Tom. Eu não assino a parceria - na verdade ele me entregou a letra bem adiantada, e eu terminei, ou eu mexi, ou ele me pediu para refazer alguma coisa, e eu dei uma mexidinha na letra.
Mas pelo menos metade da letra era dele, e naquela época, eu estava cheio de problemas com a censura, e gravei um disco só de outros autores. O Caetano fez uma música para mim, o Gil fez uma música pra mim, eu gravei uma música só minha com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, e gravei o "Ligia" só com a assinatura do Tom.

Luiz Roberto - Sei.

Chico Buarque - E o Tom falou: "Não, você é parceiro, e tal". Primeiro, porque a letra meio que deu uma consertada, e depois, por motivos técnicos de não querer ter meu nome em uma música daquele disco, e por uma questão de justiça, mais tarde, ele falou: "Tem um dedo do Chico nessa letra". Mas eu não assino essa música.
E ficou parecendo que era minha também, porque eu fui o primeiro a gravar, nesse disco que se chama "Sinal fechado".

Luiz Roberto - Que modificações você fez?

Chico Buarque - Esse começo é todo Tom, a graça toda... "Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol"... isso tudo é coisa do Tom. Eu fiz uma coisa segura: "E quando eu lhe telefonei, ...foi engano, seu nome eu não sei..." Aí tem o meu dedo. Mas quando ele me entregou, a letra já estava bastante adiantada.

Bate boca

O caso do "Bate boca", essa música inédita, até agora eu não sei o que eu faço, porque vou sentir falta do Tom implicar comigo, quando fizer alguma letra, entende... porque o Paulinho (Jobim) falou: - Mas você não vai fazer o "Bate boca" ?, e tal...
Quando ele me deu a fita do "Bate boca", a letra estava quase toda pronta. Eu disse: "Tom, faz você essa letra"... E ele: "Não, você tem que terminar, tem que dar um jeito na letra."

Luiz Roberto - Ah, o Tom já tinha feito um esboço dessa letra?

Chico Buarque - Tinha, naqueles cadernos em que ele escrevia, e cada vez que ele cantava, ele dizia umas coisas: (cantarola) "Você não quiz, você não diz, você não é..."
Eu lembro dele cantando com vários pedaços de letras, e eu disse: "Tom, é só você juntar... pede para alguém organizar essa letra para você, que ela está pronta..." E aí ele ficava me provocando para terminar a letra, mas eu não mexi nela.
É engraçado... porque com o Tom eu tive esse tipo de problema que nunca tive com nenhum outro parceiro, mas hoje, ele não estando aqui...

Luiz Roberto - Você sente falta.

Chico Buarque - Eu digo, um cara para implicar com minha letra, para mexer, para recusar, para... ele fazia isso porque ele era danado - eu lembro de "Sabiá", a polêmica do "Sabiá" no feminino...

Luiz Roberto - Uma sabiá...

Chico Buarque - Ele falava: é bom "uma sabiá", porque é linguagem de caçador... caçador não fala um sabiá, fala uma sabiá, uma gambá... e depois, ele gravou "O meu sabiá". (risos)
Ele cantava: "Minha sabiá... o meu sabiá..." O Tom era muito engraçado e eu morria de rir com ele.
Talvez isto escrito pareça uma briga, mas era impossível brigar porque eu achava graça nessas implicâncias dele... era uma coisa de birra meio infantil, então eu achava graça daquele homenzarrão implicando com "Mandei subir meu piano na mangueira" ... (risos)... porque eu sabia que era uma coisa de pirraça, de birra mesmo, e era muito engraçado isso nele.
No tempo do "Retrato branco e preto", ainda havia aquela cerimônia, e se ele tivesse falado qualquer coisa, eu ficaria arrasado - e talvez percebendo isso, ele nunca falou nada, ele aceitou como era...
E mais adiante sempre houve uma intimidade, um certo conflito. Vai ver que é por isso que o Vinicius deixou de...

Luiz Roberto - Vinicius passou o abacaxi para você...(risos)

Chico Buarque - Passou esse abacaxi... vai ver que foi...

I hate music!

O Tom era muito ligado em letra, em literatura. Ele dizia: - Sou um literato... "I hate music!"

Luiz Roberto - Ele dizia isso?

Chico Buarque - Ele gostava de dizer isso. Era difícil falar de música com o Tom... eu falava de todos os assuntos, menos de música.

Luiz Roberto - Eu nunca consegui falar sobre música com o Tom por mais de dez minutos.

Chico Buarque - Pois é, ele não gostava de falar de música... eu nunca vi ele falando de acordes, por exemplo, e também não falava de política.

Luiz Roberto - Política ele detestava...

Chico Buarque - Detestava. E adorava literatura - ele era capaz de recitar trechos inteiros de Guimarães Rosa, poemas de Drummond, T. S. Eliot, "Terra desolada", textos inteiros que ele sabia de cor. Então, ele tinha muita ligação com a parte literária das canções.

Chico tenta reconstruir Tom a seu lado.

CAPÍTULO IV - Eu te Amo

Chico Buarque - Na verdade eu não tocava músicas do Tom. Nunca toquei, porque ele me passava a música no piano, a gente gravava a fitinha, e eu levava pra casa e fazia a letra.

Luiz Roberto - E o Tom gostava muito das suas músicas, mas gostava demais. Dizia: "Pois é, Luiz, você sabe, o Chico tem essa música aqui, ouve só!" E aí ele tocava, sabia todas as suas músicas. Sempre que eu estive com o Tom e que havia um piano por perto ele tocava música sua. A "Modinha", por exemplo, ele adorava.

Chico Buarque - O Tom sempre foi muito generoso e amoroso comigo. Ele também gostava de algumas das minhas primeiras músicas, como "Ela Desatinou", "A sua lembrança me dói tanto" ...

Bororó: "Ele toca mas não grava"

Chico Buarque - Ele tinha isso com muitas músicas de outros compositores também, ele era atento. Só no fim é que ele começou ficar já meio enfastiado, intoxicado de música. Ele dizia "I hate music", mas por outro lado, o tempo todo ele ouvia muita gente nova, e antiga também, o Bororó, o Custódio Mesquita, e tal. E gostava muito do Ary Barroso.

Luiz Roberto - Tocava várias do Bororó sem errar uma nota.

Chico Buarque - Um dia eu encontrei o Bororó num escritório de direitos autorais, e eu não o conhecia. Falei: "Bororó, que coincidência, muito prazer, Chico Buarque, e tal ! Você sabe que ontem, (e era verdade) - ontem à noite eu estive na casa do Tom, e ele ficou tocando músicas suas ?" E então o Bororó respondeu: "Ele toca mais não grava". (risos)

Chico Buarque - E o Bororó é famoso pelo mal humor... Depois o Tom acabou gravando uma música dele.

Luiz Roberto - Deve ter sido "Curare", que o Tom gostava muito.

Meu Maestro Soberano

Luiz Roberto - Que coisa bonita você chamar o Tom de "Meu Maestro Soberano", naquela sua música.

Chico Buarque - Quando eu fiz essa música, em homenagem ao Tom antes de tudo - homenagem à música brasileira, mas através do Tom - eu pedi para fazerem uma cópia em CD só dessa música e mandei para ele. Eu não queria chatear o Tom, sabendo que ele não estava muito afim de ouvir música nova, e deixei um recado assim: "Tom, ouça só uma vez essa música, é uma música só !" (risadas). E ele ouviu e ficou tão contente, tão tocado.
E mais tarde até gravou a música comigo num especial de televisão. Foi uma das últimas vezes que eu estive com ele. Ele ficou todo feliz.

Jardim Botânico, Rio de Janeiro

Luiz Roberto - Chico, eu quero que esta nossa entrevista se chame "Meu Maestro Soberano".

Chico Buarque - Eu adoro que você coloque esse nome. No Jardim Botânico tem uma árvore grandona, enorme, chamada Sumaúma ou coisa parecida, de que ele gostava muito, que ele abraçava. Puseram lá uma placa: "Maestro Soberano - Tom Jobim". E depois ele deu ao último disco dele o nome de Antonio Brasileiro, que é como eu o chamo nessa música.

Luiz Roberto - Essa sua letra me toca profundamente.

Chico Buarque - E era uma brincadeira com ele o tempo todo, ele tinha um pouco essa mania: "O meu pai era gaúcho, o meu avô era de Leme, em São Paulo, o meu bisavô era cearense, e eu sou até primo de Vinícius".
Aí eu comecei essa letra lembrando: "O meu pai era paulista, meu avô pernambucano..." e desembocou nele.

O Tão

Chico Buarque - Eu chamava o Tom de Tão, e ele falava: "O pessoal na roça me chama de Tão, lá em Poço Fundo."

Luiz Roberto - O (Leo) Peracchi também o chamava de Tão. "Porque o Tão é um bom menino, o Tão faz umas músicas bonitas."

Imagina

Chico Buarque - O Tom dizia que era difícil fazer letra para Imagina, porque a música tinha sido composta como instrumental. Era quase impossível botar letra naquelas notinhas todas - na verdade, não era adequada para letra. Mas a gente estava fazendo a trilha de um filme, e eu resolvi fazer a letra pra essa música. E era dificil mesmo, mas consegui fazer. Ele estava em Nova York quando recebeu essa letra, e mandou um telegrama dizendo: " It's very exquisite !" Mas no fim, ele gostou muito do resultado.

Luiz Roberto - É uma bela letra, música lindíssima. Depois veio "Anos Dourados" - e o "Piano na Mangueira" foi a última que você fez para o Tom. Contam as más línguas que você demorou para fazer a letra de "Anos Dourados".

Chico Buarque - É verdade, atrasei, mas eu não sou muito rápido não. "Anos Dourados" era pra ser tema de uma mini série com o mesmo nome, e entrou sem letra porque a letra não ficou pronta. Depois que a mini série saiu do ar, é que a letra apareceu.(risos)

Luiz Roberto - Valeu a pena esperar, sem dúvida.

Chico Buarque - (brincando) A mini série é que foi precipitada...

Olhando por cima do ombro

Luiz Roberto - O que é o Tom para você ? O que ele representa ? Na música, como pessoa, como amigo?

Chico Buarque - Para mim como artista criador é um buraco, uma falha muito grande, a ausência do Tom. Agora que eu estou voltando a fazer música depois de uns dois anos, eu procuro ressuscitar um pouco o Tom ao meu lado...
Às vezes eu tenho a impressão de que ele ainda está por aí, de que ele não vai me abandonar.
Eu disse num momento de emoção: "Tudo que eu faço é para o Tom", e realmente isso saiu de forma impensada, mas é uma verdade. Tem um poema de João Cabral (de Melo Neto) que fala numa pessoa que estaria por cima do seu ombro, vendo o que você está escrevendo - o Tom é muito isso. Muitas coisas que eu escrevi, músicas que eu fiz, eu tinha a impressão, ou gostaria, que o Tom estivesse por cima do meu ombro vendo aquilo, aprovando ou não. Mesmo porque já mais pro fim da vida o Tom não tinha mais muita paciência para ouvir coisas novas, e eu já não tinha muita esperança, já não tinha muito desejo ou intenção de mostrar música nova pro Tom, mas a existência dele ali valia como uma referência. Eu pensava: se o Tom tivesse paciência de ouvir essa música, ele gostaria. Com a ausência dele você tem uma noção mais clara do que ele representava.

Chico Buarque: um artista soberano.

Visite o site do Clube do Tom: www.nortemag.com/tom


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