Chico Buarque canta e fala pela Mangueira
Normalmente arredio ao assédio da imprensa, Chico Buarque quebra o silêncio
ao participar de "Chico Buarque de Mangueira", CD e show compostos quase só
de reinterpretações de sambas clássicos da escola de samba carioca - que
elegeu o artista como homenageado de seu enredo de 1998.
Destinado a angariar fundos para a escola - inclusive para a constituição de um
Centro de Memória da Mangueira -, o projeto é produzido por Hermínio Bello de
Carvalho (leia texto nesta página).
A única canção inédita é "Chão de esmeraldas", parceria - também inédita -
entre Chico e Hermínio. O poema apresentado pelo segundo levou o primeiro ao
incomum ato de colocar melodia numa letra já pronta.
Chico falou à Folha no último sábado, no Rio, sobre Mangueira, criatividade,
política e o livro de Caetano Veloso.
Folha - Em que medida um projeto como esse da Mangueira retarda o
lançamento de um próximo disco de Chico Buarque?
Chico Buarque - Não posso nem botar a culpa nesse disco, não seria honesto.
Eu estaria lançando agora também um disco meu. Não vou por incompetência.
Não foi nem tempo que faltou, foi assunto.
Folha - Você parece cada vez ter menos pressa de lançar novos trabalhos. Por
quê?
Chico Buarque - Pressa eu não tenho. Desejo, sim. Gostaria de lançar, mas com pressa
não vale a pena.
Folha - Isso implica um distanciamento seu em relação à música?
Chico Buarque - Implica. À medida que você vai compondo, não quer repetir o que já
está feito. Parece que já fez tudo, cada vez é mais custoso. Há sempre uma
pressão interior. Se me cansar da música, escrevo um livro, mas preciso estar
criando. Senão não vou ser feliz.
Folha - Com que intensidade você é mangueirense?
Chico Buarque - Sou mangueirense desde criancinha, como dizem os torcedores.
Garoto, já cantava: "Mangueira, teu cenário é uma beleza..." Achava que era
"teu senado é uma beleza".
Folha - Desde sua geração, houve uma queda de qualidade de compositores na
MPB?
Chico Buarque - Gente nova há, a permanência é que é difícil de prejulgar. Os
compositores hoje parecem mais próximos da letra, é engraçado. Acho, como
dizia o Nelson Cavaquinho, a música mais importante que a letra.
Folha - Mesmo os bons letristas não são raros hoje?
Chico Buarque - Tenho lido letras muito boas. Li uma do Chico César que é uma
maravilha, falando dos olhinhos do gravador, da cigana lendo a mão do Paulo
Freire. Só li a letra. É de alta qualidade.
Folha - Aquela necessidade de ruptura que acompanhava sua geração deixou
de existir?
Chico Buarque - Uma ruptura no momento, não vejo. Mas é claro que vai chegar um
momento em que aparecerá alguma coisa que - tomara - me enterre de vez (ri).
Folha - Parece haver uma desaceleração nesse processo de superação. Isso
não faz com que os artistas de sua geração se tornem mitos cada vez maiores
e passem a criar menos, a ficar mais preguiçosos, desacelerando junto com
eles seus sucessores?
Chico Buarque - Não vejo preguiça nisso. Poderia até ser, mas me sinto tão criativo
quanto há 30 anos. Hoje escrever uma canção me custa mais que fazer dez há
30 anos, mas o resultado, para mim, é positivo.
Folha - Questões políticas e sociais se tornaram menos importantes na sua
música com o tempo?
Chico Buarque - Músicas diretamente políticas hoje não estou sentindo necessidade de
fazer. As com temática social sempre são feitas.
Folha - Com menos impacto...
Chico Buarque - Sem dúvida. O papel do artista na ditadura é superdimensionado. Não
tenho a menor nostalgia disso.
Folha - O governo FHC pode estimulá-lo a criar canções políticas?
Chico Buarque - Uma canção frontalmente de oposição, não. Não é o caso. Na época
do Médici, eu queria o fim da ditadura. Hoje não quero derrubar governo
nenhum.
Folha - Você leu o livro de Caetano? Qual a sua impressão?
Chico Buarque - Estou lendo. Estou gostando muito, até discordando de algumas
coisas. A forma como ele vê Augusto Boal me pareceu um pouco injusta. Ele vê
um sectarismo do Boal, eu vejo só uma surdez musical brutal. Páreo para o
Boal, só o Zé Celso (ri).
Folha - Chico Buarque escreveria um livro como esse de Caetano?
Chico Buarque - Acho difícil. Normalmente, quando sento para escrever, me sinto um
ficcionista. Quem sabe, quando chegar ao final do livro, fale: "Ah, não. Vou
contar o lado B dessa história."
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