Folha de São Paulo - 11/11/97


Chico Buarque canta e fala pela Mangueira

Normalmente arredio ao assédio da imprensa, Chico Buarque quebra o silêncio ao participar de "Chico Buarque de Mangueira", CD e show compostos quase só de reinterpretações de sambas clássicos da escola de samba carioca - que elegeu o artista como homenageado de seu enredo de 1998.

Destinado a angariar fundos para a escola - inclusive para a constituição de um Centro de Memória da Mangueira -, o projeto é produzido por Hermínio Bello de Carvalho (leia texto nesta página).

A única canção inédita é "Chão de esmeraldas", parceria - também inédita - entre Chico e Hermínio. O poema apresentado pelo segundo levou o primeiro ao incomum ato de colocar melodia numa letra já pronta.

Chico falou à Folha no último sábado, no Rio, sobre Mangueira, criatividade, política e o livro de Caetano Veloso.

Folha - Em que medida um projeto como esse da Mangueira retarda o lançamento de um próximo disco de Chico Buarque?

Chico Buarque - Não posso nem botar a culpa nesse disco, não seria honesto. Eu estaria lançando agora também um disco meu. Não vou por incompetência. Não foi nem tempo que faltou, foi assunto.

Folha - Você parece cada vez ter menos pressa de lançar novos trabalhos. Por quê?

Chico Buarque - Pressa eu não tenho. Desejo, sim. Gostaria de lançar, mas com pressa não vale a pena.

Folha - Isso implica um distanciamento seu em relação à música?

Chico Buarque - Implica. À medida que você vai compondo, não quer repetir o que já está feito. Parece que já fez tudo, cada vez é mais custoso. Há sempre uma pressão interior. Se me cansar da música, escrevo um livro, mas preciso estar criando. Senão não vou ser feliz.

Folha - Com que intensidade você é mangueirense?

Chico Buarque - Sou mangueirense desde criancinha, como dizem os torcedores. Garoto, já cantava: "Mangueira, teu cenário é uma beleza..." Achava que era "teu senado é uma beleza".

Folha - Desde sua geração, houve uma queda de qualidade de compositores na MPB?

Chico Buarque - Gente nova há, a permanência é que é difícil de prejulgar. Os compositores hoje parecem mais próximos da letra, é engraçado. Acho, como dizia o Nelson Cavaquinho, a música mais importante que a letra.

Folha - Mesmo os bons letristas não são raros hoje?

Chico Buarque - Tenho lido letras muito boas. Li uma do Chico César que é uma maravilha, falando dos olhinhos do gravador, da cigana lendo a mão do Paulo Freire. Só li a letra. É de alta qualidade.

Folha - Aquela necessidade de ruptura que acompanhava sua geração deixou de existir?

Chico Buarque - Uma ruptura no momento, não vejo. Mas é claro que vai chegar um momento em que aparecerá alguma coisa que - tomara - me enterre de vez (ri).

Folha - Parece haver uma desaceleração nesse processo de superação. Isso não faz com que os artistas de sua geração se tornem mitos cada vez maiores e passem a criar menos, a ficar mais preguiçosos, desacelerando junto com eles seus sucessores?

Chico Buarque - Não vejo preguiça nisso. Poderia até ser, mas me sinto tão criativo quanto há 30 anos. Hoje escrever uma canção me custa mais que fazer dez há 30 anos, mas o resultado, para mim, é positivo.

Folha - Questões políticas e sociais se tornaram menos importantes na sua música com o tempo?

Chico Buarque - Músicas diretamente políticas hoje não estou sentindo necessidade de fazer. As com temática social sempre são feitas.

Folha - Com menos impacto...

Chico Buarque - Sem dúvida. O papel do artista na ditadura é superdimensionado. Não tenho a menor nostalgia disso.

Folha - O governo FHC pode estimulá-lo a criar canções políticas?

Chico Buarque - Uma canção frontalmente de oposição, não. Não é o caso. Na época do Médici, eu queria o fim da ditadura. Hoje não quero derrubar governo nenhum.

Folha - Você leu o livro de Caetano? Qual a sua impressão?

Chico Buarque - Estou lendo. Estou gostando muito, até discordando de algumas coisas. A forma como ele vê Augusto Boal me pareceu um pouco injusta. Ele vê um sectarismo do Boal, eu vejo só uma surdez musical brutal. Páreo para o Boal, só o Zé Celso (ri).

Folha - Chico Buarque escreveria um livro como esse de Caetano?

Chico Buarque - Acho difícil. Normalmente, quando sento para escrever, me sinto um ficcionista. Quem sabe, quando chegar ao final do livro, fale: "Ah, não. Vou contar o lado B dessa história."


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