Jornal do Brasil - 10/11/97


"Vou arrepiar no desfile" O DESFILE "Eu preferia desfilar no chão, mas sou disciplinado e aceito o que a Mangueira decidir. Estou contente em ser enredo, é a maior homenagem que um sambista como eu pode merecer. Eu sabia que era trabalhoso ser enredo, acompanhei de perto quando o Tom Jobim também foi e até compusemos um samba em homenagem (Piano na Mangueira, regravado no CD em lançamento). Mas eu sabia que seria também bonito e emocionante. Durante o ano todo aquelas pessoas estão pensando, cuidando da gente. A costureira, os passistas, a bateria, os compositores, a velha guarda. É claro que tenho que aparecer muito, mas é difícil ser Mangueira low profile."

UM MUSICAL, TALVEZ
"Como artista, como criador, sou exibicionista. Gostaria de lançar um disco anual. Não lanço porque já não faço mais 12, 15 músicas por ano. Com o passar do tempo a gente vai ficando mais exigente, mais cauteloso, não quer se repetir. Mas é engano pensar que não faço discos ou shows por timidez ou para me resguardar. Não quero expor a minha pessoa, tenho realmente muito cuidado com a minha privacidade, mas quero escrever música, lançar discos, fazer shows muito mais do que tenho feito. Quando terminar meu novo disco penso em escrever outro livro (já há cinco músicas gravadas para o CD que será lançado após o carnaval, entre elas a parceria Você, você, com Ginga, o tema de A ostra e o vento, com participação especial de Branca Lima, e a canção Assentamento, que está no livro de Sebastião Salgado e José Saramago.) Fui sondado para participar da feitura de um musical, achei interessante, mas a proposta ainda é embrionária."

SER BRASILEIRO HOJE
"Como brasileiro, hoje me sinto um pouco preocupado, mas torcendo muito pelo país, querendo que dê certo. Isso até tem a ver com o musical que eu falei, estou preocupado com o pacote que vai ser anunciado na segunda-feira (hoje), porque espetáculos, shows, todas essas coisas dependem de incentivo. Talvez os patrocínios que incentivam tanto nosso cinema, nosso teatro, estejam correndo riscos."

O DISCO E AS FESTAS
"O disco Chico Buarque de Mangueira foi idéia do Hermínio (Bello de Carvalho), que escolheu o repertório, chamou os cantores, fez tudo. Até a nossa parceria (em Chão de esmeralda) foi idéia dele. O disco tem a ver com o Centro de Memória da Mangueira, um projeto do Hermínio. Reúne um pessoal muito bom. Tem o Jamelão, o João (Nogueira), a Alcione, a velha guarda. Acho que tudo está muito bonito. Já sei que na hora do desfile vou arrepiar. Sou eu que vou estar lá, e não um personagem, uma máscara. Então já sei que vai dar aquele friozinho na barriga, porque, naturalidade, isso eu não tenho mesmo".

"O JORNALISTA, QUEIRA OU NÃO, EXERCE UM PODER"

RELAÇÕES PERIGOSAS
"Eu não gosto de intimidade com jornal e são poucos os jornalistas com quem mantenho amizade. Não gosto da idéia de estar conversando com uma pessoa, porque a tenho como uma amiga, e essa pessoa, por sua vez, possa estar interessada profissionalmente na conversa, tornando depois público o que era particular. Isso me inibe e faz deteriorar qualquer amizade. Há muitos jornalistas que sobrepõem a profissão à amizade. Já houve quem se utilizasse da minha amizade para obter informações usadas depois indevidamente. Então você é obrigado a conversar com um pé atrás e isso não é conversa de amigos. Se um amigo que é jornalista está me entrevistando, eu me comporto como um artista falando para um órgão de imprensa. O jornalista, queira ou não, exerce um poder e eu não quero ser simpático a poderoso nenhum."

CORPORATIVISMO
"Escrevi em jornais alternativos como O Pasquim, fui do conselho editorial do jornal Opinião e de outros que a censura perseguiu e esmagou. Por isso mesmo, não sou simpático a nenhuma medida restritiva à liberdade de imprensa e muito menos à idéia de uma lei que ameace economicamente a existência dos jornais. Por outro lado, acho que deveria haver menos espírito de corpo por parte dos jornalistas. Na ação que estou movendo contra o jornal de Goiás eu acabo aparecendo como racista, já que os jornais dizem que eu estou processando porque alguém falou que meu neto é mulato. E não foi isso (o juiz Itaney Francisco Campos, de Goiânia, considerou justificada a ação, fixando uma indenização de 100 salários mínimos em favor do compositor). Eu também observo que, embora exponham sem cerimônia a vida das outras pessoas, os jornalistas permanecem, por sua vez, a salvo. Há alguns muito conhecidos, pois têm suas fotos estampadas nas colunas, dão entrevistas na televisão, lançam livros, o público poderia estar interessado na vida deles também. Mas um jornalista não toca na vida pessoal de outro jornalista."

MANGUEIRA
"Sou Mangueira como sou Fluminense. Sinto uma vibração pela Mangueira que vem desde criança e chegou através das músicas que falam sobre a escola, aquelas pessoas, aquele lugar. É uma coisa mitológica para mim. Mas eu não conheço a fundo escola de samba, não tenho intimidade com samba-enredo. Vai passar é um samba-enredo estilizado, uma coisa longínqua, de ouvido desatento. Não sei dizer se um samba-enredo é bom ou não. Mas estranho esse comportamento inseguro, temeroso de se criticar o samba vencedor da Mangueira porque os autores são paulistas. Isso não combina com o espírito e o jeito do Rio. Grandes cariocas como João Saldanha, Antônio Maria e Rubens Fonseca não nasceram no Rio. O que é que tem se os autores são paulistas? Comentaram que alguns versos sugerem que eu morri. Quando a gente é homenageado já está um pouquinho morto mesmo (diz isso em tom de brincadeira). O samba mais carioca que conheço é Conversa de botequim, de Noel Rosa, em parceria com o Vadico, que era paulista. No disco que a gente está lançando eu canto Sala de recepção, do Cartola. Alguém comentou sobre a participação de portelenses (entre eles, João Nogueira). Mas o sentido da música é esse mesmo, de conciliação e encontro. Na sala de recepção da Mangueira até o Clinton foi bem recebido."


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