José Geraldo Couto
Chico quer ser um sambista que escreve
Chico quer ser um sambista que escreve.
O compositor, que está finalizando um novo livro, tem seu romance
"Estorvo" lançado por uma editora alemã.
Chico Buarque, o astro principal do Brasil na 46.ª Feira do Livro de Frankfurt, sente-se
"um peixe fora d'àgua" entre os escritores. Ele está na Alemanha para divulgar o
lançamento do seu romance "Estorvo" pela editora Hanser.
Em seu hotel em Frankfurt, ele falou à Folha sobre sua divisão interna entre compositor e
romancista, e comentou as eleições brasileiras. Só evitou falar do romance que está
escrevendo: "Ainda sei muito pouco sobre ele."
Folha - Incomoda a você ser visto como um compositor popular que
eventualmente escreve, e não como um escritor?
Chico Buarque - Não me incomoda nada. Outro dia, num jornal, um sujeito para
falar mal de mim me chamou de sambista, como se fosse um insulto. E eu sou
um sambista. Quando eu morrer, quero que digam: "morreu um sambista que
escrevia livros." Não estabeleço nenhuma hierarquia.
Folha - Como é que o compositor Chico Buarque vê o escritor Chico Buarque?
Chico Buarque - Um não se dá com o outro. Voltar a fazer música depois do livro foi
muito difícil. Era como se fosse um ofício que eu não conhecesse mais. E agora
para voltar a escrever, também. Fiquei meses tentando escrever e não saía
nada.
Folha - Você escreveu livros antes, mas é com "Estorvo" que começou essa
sua divisão?
Chico Buarque - Eu acho que sim. As peças de teatro eu considero uma extensão do
meu trabalho musical. "Estorvo" e esse livro de agora correspondem a uma
necessidade íntima. Não há nenhuma pressão externa para que eu escreva.
Meus amigos músicos vivem me dizendo: "não escreve não." E o público
também. Acho que a única pessoa que quer que eu escreva é meu editor
(risos).
Folha - "Estorvo" foi lido como um testemunho do Brasil de hoje, com seu
caos social e sua falta de perspectivas. É assim que você vê o país?
Chico Buarque - Quando escrevi "Estorvo", sim, sem dúvida. Mas em nenhum momento
tive a intenção de simbolizar o que quer que fosse. Não me incomoda que haja
essa leitura, mas se eu tivesse pensado nisso, eu não conseguiria escrever.
Folha - Você acha que o fato de o Brasil ser tema da Feira de Frankfurt vai
contribuir para mudar a situação da literatura brasileira no exterior?
Chico Buarque - Espero que sim, porque é muito mais difícil ser escritor brasileiro aqui
fora do que músico. A gente encontra livros brasileiros nas estantes de
espanhóis ou hispano-americanos nas livrarias. É difícil mostrar que não temos
nada a ver com essa coisa do realismo mágico. Tem uma passagem
interessante do livro "Visão do paraíso", do meu pai (Sérgio Buarque de
Hollanda), em que ele compara os relatos dos exploradores portugueses e os
dos espanhóis na América. Enquanto os espanhóis faziam relatos exuberantes,
os portugueses atenuavam as coisas para torná-las verossímeis. Acho que
essa diferença se reflete ainda hoje na literatura da América Latina.
Folha - Você apoiou Lula. Como vê a perspectiva de um governo Fernando
Henrique?
Chico Buarque - Acho que, dos presidentes da história do Brasil, ele é o que tem a
melhor biografia. Espero que ele respeite o seu passado, embora eu tenha
minhas dúvidas. Não quero, sinceramente, dizer depois: "Está vendo, eu não
disse?" Mas não quero também que façam como depois do Collor, que diziam:
"Com o Lula seria pior." Como sabem, se ele não tem uma chance? Admiro
muito o Lula, considero-o muito preparado, mas parece que está proibido que
ele governe o país. É uma pena.