Plinio Fraga
Em Paratodos estou mais músico
O Chico Buarque que sobe ao palco do Canecão hoje à noite – vestido impecavelmente, do azul dos sapatos ao blazer, pelo figurinista Cao – está mais contido do que no último espetáculo, "Francisco", realizado há seis anos. Anteontem, no seu penúltimo ensaio, Chico falou sobre "Paratodos".
O show
"É mais um recital do que um show. O que importa são as canções, as letras. Nele, estou mais músico do que nos outros. Toco violão o tempo todo, participei mais dos arranjos. É o show que mais exerço esse lado de músico. É um show de clima tranqüilo, mas não é morto. Tem umas músicas animadinhas."
O Repertório
"Escolhi músicas que sinto prazer em tocar. São as 12 do novo álbum e outras 12 antigas, menos conhecidas do público. As novas exigem mais do público do que normalmente, porque eles têm que prestar mais atenção nas letras. As antigas são canções que fui redescobrindo."
Palco
"Toco o tempo todo no show, tenho que me preocupar com os
acordes, que são muitos. E olha que não estou errando quase
acorde nenhum (risos). Não dá para dançar como no outro
show, até porque tenho que fazer algo diferente. Não sou
um artista de palco, por isso não sou assíduo. Seis anos longe
não é tanto tempo assim. Já fiquei 13 anos sem fazer show.
Sou um compositor que esporadicamente faz shows."
Academia
"O Tom Jobim falou essa história de me levar para a Academia
Brasileira de Letras de brincadeira. Ele próprio não é candidato
de verdade. O candidato dele é o Antonio Callado. Mas mesmo
assim eu respeito uma posição tomada por meu pai (o
historiador Sérgio Buarque de Hollanda). Quando a ABL elegeu
Getúlio, meu pai, Drummond e outros intelectuais assinaram
um documento se recusando a pertencer à academia. Esse
documento é hereditário."
Política
"Li nos jornais que Caetano e Gil defendem a candidatura do
Jaime Lerner. Eu me reservo o direito de aguardar mais um
pouco. Não tenho candidato ainda."
Campanha da Fome
"É claro que tem algo de assistencialista nela. É claro que as
questões estruturais têm que ser atacadas. Desde 64, ouço
falar em reforma agrária. Precisamos investir em educação. Mas
enquanto isso, temos que fazer alguma coisa por quem morre
de fome."