Arthur Laranjeira
Aos 32 anos, cheio de planos, sem tempo e vontade de fazer shows - pelo menos por enquanto -, Chico Buarque continua mostrando como é possível criar, apesar de todas as dificuidades, para que tal objetivo seja atingido.
No novo disco de Nara Leão, ele aparece como parceiro de Sivuca, na música "João e Maria" uma composição feita há 30 anos e que só agora recebeu letra. Os Saltimbancos, sua adaptação à realidade brasileira de "Os Músicos de Bremem", dos Irmãos Grimm, deve estrear, dentro de um mês, no Canecão, Rio, apresentada nas tardes de sábados e domingos. Com direção de Antônio Pedro, o elenco da primeira experiência de Chico Buarque para e com o público infantil será encabeçado por Grande Otelo e Marieta Severo.
Aqui ele fala do seu trabalho, dos seus projetos -"vastos e vagos"- e da música popular brasileira em geral.
Antes de fazer qualquer projeto, tenho de estar lendo a Coluna do Castelo, no Jornal do Brasil, para saber como está o momento político e para ver se vou fazer uma música infantil ou peça de teatro.
No começo de minha carreira, que coincide também com o início de Edu Lobo, outro compositor com um trabalho muito ligado ao teatro, havia uma união muito grande entre grupos de teatro e o pessoal de música, tanto no Rio como em São Paulo, "Teatro de Arena", "Oficina"... Havia muito esse contato, muito mais do que hoje. Então, teatro foi um trabalho que para mim sempre correu paralelo à música. Quando eu musiquei "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, ainda não pensava em fazer teatro. Eu estava começando a fazer música, música com letra, tinha feito poucas, tinha gravado apenas umas duas músicas, quando o Roberto Freire me chamou para trabalhar em "Morte e Vida Severina".
Naquela época, em todas as áreas - cinema, teatro, música - havia um contato maior entre todo mundo, mas muito maior mesmo do que hoje. Mas, principalmente de 68 pra cá, houve uma repressão muito grande, aqueles grupos todos já não existem mais. Então ficou todo mundo muito mais isolado. Isso eu acho muito negativo, procuro estar em contato com as pessoas, se bem que não é nunca um trabalho tão de grupo como era antes... Seminários, discutir tal peça, etc. Hoje a gente se junta assim, duas ou três pessoas. Não como era antes.
Agora, eu e o Milton Nascimento estamos começando a pensar em fazer uma peça de teatro. Conversamos com Guarnieri também. A trinca seria essa mas o trabalho em si ainda não está muito definido. A gente conversou, Guarnieri deu umas idéias, estou com músicas do Milton para botar letra, mas ainda não posso dizer muito o que é que vai ser porque o trabalho ainda não está muito definido.
O meu trabalho com Paulo Pontes começou quando ele produziu "O Homem de la Mancha" e chamou a mim e ao Ruy Guerra para fazermos as versões. A partir daí, comecei a ter mais contato com ele, até que um dia me procurou para fazermos "Gota d'água". E, até sua morte, tínhamos mil planos. A gente começou a pensar várias coisas diferentes, até que partimos para um projeto definido, uma comédia, "O Dia em que Frank Sinatra Veio ao Brasil". Ele chegou até a começar esse trabalho. Mas, com a morte de Paulo, esses projetos pararam. Se o "Frank Sinatra" estivesse um pouquinho mais adiantado, até talvez eu tivesse me animado a terminar a peça. Mas não, estava ainda no embrião, havia muita coisa que a gente não tinha resolvido. Cheguei até a conversar com ele, sobre isso, no hospital, já no fim. E ele estava tão entusiasmado, com tanta vontade de voltar a trabalhar, que a gente conversou sobre a possibilidade de encostar o "Frank Sinatra" e partir para uma outra coisa... Quer dizer - então, o "Frank Sinatra" foi pro cesto.
Eu acho que no momento, por parte do público, está havendo uma receptividade muito grande em relação à música popular brasileira, muito maior do que alguns anos atrás. Se compararmos com cinco anos atrás, a música popular brasileira não está em crise, não. Está muito viva, até. Agora, se a gente comparar com 10 anos atrás, aí já fica diferente porque, naquele tempo, havia uma renovação muito maior. Havia mais estímulo, e isso não acontecia apenas com a música. Havia um mercado de trabalho muito maior. Agora a gente vende muito mais discos do que vendia antes. Mas são poucos esses artistas que vendem discos. Há uma marginália enorme, gente que eu não conheço. Não aparece gente nova porque essas pessoas não têm oportunidade de aparecer, como há 10 anos atrás.
Os festivais não eram causa nenhuma disso, desse aparecimento de novos valores. Eram uma conseqüência do ambiente que existia. O que houve com os festivais foi que as pessoas tiveram a inteligência de pegar o que estava acontecendo nos bares, nos teatrinhos, coisas assim, e levar tudo isso para o grande público. E como tudo aquilo estava no ar, o público também se interessou por aquilo. As pessoas estavam sempre se encontrando, trocando idéias, e, naquela época, isso acontecia especialmente em São Paulo, em 66, 67. E a televisão então pegou, captou isso. Só. Tanto que depois ficou uma coisa artificial.
Eu acho o seguinte: se você pegar pessoas que estão aí e fizer uma competição pura e simples, é uma coisa. Se pegar pessoas que estão se encontrando, se transando, que estão discutindo, fazendo um trabalho, por mais diferente que seja o trabalho de fulano de X para Y, é um movimento em si. É um movimento sem nome. Foi assim que existiu um movimento naquela época. Acontece que agora não há esse movimento. O que se pode fazer agora é uma competição entre um baiano que fez uma música lá, um carioca, um paulista, um cearense. Mas acredito que não existe a vitalidade que havia naquela época. Era uma coisa polêmica em si, entende? Era uma coisa discutida.
Por exemplo, num festival, quando entravam as músicas, a gente já sabia, eu já sabia a música do outro, a gente transava isso antes, conversava, discutia. Isso é muito bom. Não quer dizer que isso fosse um clube. Mas era tudo curtido, tudo discutido. E isso tudo começava na universidade, universidade livre. Porque a gente ia lá, grêmio e tal, tinha eleição, tínhamos discussão sobre tudo, sobre cultura, sobre política. E isso a gente está sabendo que dentro das universidades quase que não se pratica mais. Não era que eu ficasse tocando violão o tempo todo, não. A gente participava de tudo. A gente discutia até politicamente as coisas. Era a cultura mesmo em seu sentido mais amplo, havia um ambiente cultural dentro das universidades, que não há mais. É claro que a coisa era competitiva, no caso dos festivais. Mas não era só competitivo. Se eu estava com uma música, um colega meu estava com outra, nós dois íamos participar do festival, mas já havíamos discutido o nosso trabalho, eu com ele, ele comigo. Então havia, inclusive, troca de informações. Não era uma competição pura e simples. Podia até participar de um festival, mas sabendo que a música do outro era melhor do que a minha. Eu cansei de dizer, nessa época mesmo, que a melhor música não era a minha, era a do outro. Eu acho "Domingo no Parque" melhor do que "Roda-Viva". Então, o que acontecia era uma coisa um pouquinho mais ampla do que uma competição pura e simples, do que um prêmio.
No momento, estou com vários projetos e o que está me atraindo mais é o com o Milton e o Guarnieri.
Eu sinto que está havendo por parte do público uma sede muito grande de informação, de comunicação, inclusive dentro da própria platéia. E isso eu digo porque fico impressionado de ver Milton Nascimento lotando o Maracanãzinho e o Ibirapuera durante três noites. Vejo também gente, que até há pouco tempo tinha pouco público - Joyce, por exemplo - lotando aqueles shows da Concha Verde, no Morro da Urca, aqui no Rio.
Acho que o público está sentindo necessidade de se juntar. Esse shows lotados refletem também a necessidade de as pessoas se encontrarem.
A cultura brasileira viveu uns cinco anos de inteira perplexidade. Isso se refletiu também nas peças de teatro e está ligado a um certo afastamento do público do próprio teatro. "Gota d"Água", "Último Carro", de João das Neves, por coincidência, essas peças apareceram na mesma época em teatro. Essas peças, eu acredito, não teriam público há quatro anos.
Porque, por um lado, havia a classe média com sensação..., com aquele ufanismo todo, colocando plásticos de Brasil grande e, por outro, uma garotada que, diante disso tudo, estava inteiramente perdida e bastante desiludida. Foi o baque de 68. Muito forte. Então, até 73, vivemos anos muito marcados. Agora, acredito que a própria classe média caiu em si. Então, quando se fala em teatro para o povo, teatro popular, e se cobra Cr$80 pelo ingresso, acho que não existe condição nenhuma. Acho que é função da gente também alertar a classe média sobre os problemas do povo, dos quais está completamente desligada. Houve esse fenômeno durante algum tempo. De repente, ficou de mau gosto falar em povo, falar em desastre da Central era de péssimo gosto, e falar de reforma agrária era uma gafe. Por causa de uma ressaca, de muito que se falou nisso e que não deu em nada.
O que eu acho é que as necessidades do nosso povo não foram resolvidas, continuam aí, continuam existindo. Então não se fala mais nisso - por quê? Vai ter que se falar sempre. Pode ser que haja uma nova Censura, um novo desinteresse, conseqüente mesmo do problema da Censura. Mas, depois, se volta a falar, até que os problemas sejam resolvidos. A classe média tem que estar participando disso, sem dúvida nenhuma.
Outro problema que existe, em maior ou menor grau, é a autocensura. É quase um desespero aquele negócio de "para que eu vou escrever"? Mas a gente tem de escrever de qualquer jeito, nem que seja apenas como um exercício. Porque depois, quando o cara quiser escrever, no caso o cara que ficou proibido de fazê-lo durante algum tempo, está desacostumado ou então já está com uma autocensura muito forte. Isso tem que ser evitado, mesmo porque existe uma certa tentação (acho que até muito lógica) das pessoas não fazerem nada, e, bom, botar a culpa na Censura e aí parar de criar e ter uma desculpa que é verdadeira, não é apenas um pretexto. Aliás, Graciliano Ramos já falava sobre isso no tempo "brabo" mesmo da Censura do DIP e ele dizia isso, que a Censura pode servir de desculpa para as pessoas não fazerem nada. E olha que ele produziu pra burro, naquela época. Então não se pode parar de escrever, de criar, porque são coisas que um dia serão publicadas, peças que um dia serão montadas, filmes que serão feitos, músicas que serão gravadas.
Por enquanto, não estou com vontade de fazer shows, mesmo porque eu não teria tempo, teria de renunciar a todos esses projetos que eu tenho e partir para fazer show, dormir em hotel, viajar. Cansei um pouco disso.
O problema do direito autoral está mobilizando a classe. É um problema difícil de ser resolvido, mas as pessoas estão se reunindo para discutir, o que não acontecia. Até há pouco tempo, era cada um por si. Eu ainda recebo pelo sistema antigo. Agora que mudou, só vou sentir o que aconteceu no mês que vem. Eu não sou um cara com grandes problemas de direito autoral. Mas, e o João do Valle? Aí é que está. Porque não interessa a ninguém estar passando para trás uma pessoa que esteja mais em evidência, como é o caso de alguns poucos compositores. E isso acontece porque eu tenho possibilidades de dizer que estão me roubando, chio. Então não interessa a ninguém me passar para trás.
Tenho também um projeto de fazer uma coisa mais para crianças. "Os Saltimbancos" foi uma adaptação que serviu como treino para mais tarde fazer uma outra coisa, em que eu faça também a música, escreva o texto. Simone gravou agora a primeira música do Milton com letra minha, "Primeiro de Maio". Estou com mais duas músicas dele para botar letra. Mas o nosso relacionamento está muito cerimonioso, ainda. Então, para fazer uma letra para uma música dele, é mais difícil que com Francis Hime, com quem tenho mais intimidade. Mas eu acho que vem muita coisa boa com o Milton. Então, meus projetos são vários e vagos. Tenho a idéia de fazer um filme com Ruy Guerra, meio documentário, que seria também junto com Milton - isso é para julho. Seria uma viagem nossa à África e documentar isso. Seria também um trabalho no sentido de ir lá ver o que está acontecendo. Aliás, tenho ouvido uns discos de músicas angolanas e moçambicanas. Levei até um susto porque pensei que fosse muito mais samba e são, na realidade muito mais caribe. O meu editor de São Paulo me convidou para fazer um trabalho sobre lendas brasileiras, uns discos com estorinhas uma série. Estou fazendo música para cinema, o filme de Hugo Carvana, que, por sinal, está atrasado. Tem também um musical que o MPB4 e o Quarteto em Cy estão querendo fazer juntos. Isso seria para o próximo ano, mas já estou pensando nesse trabalho. Acho que vai dar pé fazer um trabalho bonito com os oito num show. É isso, ainda tem a peça do Augusto Boal, "Mulheres de Atenas". Mas ainda está com alguns problemas de produção, ainda tenho de fazer três canções, mas Ruth Escobar, que é a produtora, está pensando em fazer um musical mesmo. Então, esse projeto ainda não está resolvido.
A verdade é que eu, antes de fazer qualquer projeto, tenho de estar lendo a Coluna do Castelo, no Jornal do Brasil, para saber como é que está o momento político. Para ver se vou fazer uma música infantil ou uma peça de teatro.