Jornal do Brasil - 02/12/95


Antonio Augusto

Quero passar um mês dormindo

Cansado de escrever, Chico diz que em breve voltará a compor

Foi difícil fazer o arredio Chico Buarque falar sobre Benjamim. Durante o último ano, em que se dedicou exclusivamente ao livro, ele quase não saiu de casa, não ouviu nem fez música, não foi ao cinema e só abriu concessão ao ir teatro - e chorar de emoção - na estréia de Torre de Babel peça protagonizada pela mulher Marieta Severo. Pedindo desculpas pela voz sonolenta ao meio-dia, e pensando muito antes de responder, ele falou de Benjamim ao JB, por telefone.

JB - Quanto tempo depois de Estorvo nasceu Benjamim?

Chico - Só comecei a trabalhar nele há um ano. Não consigo fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Ou é música, ou é literatura. Eu pensei numa linha mestra onírica, parti da morte do protagonista e fui desenvolvendo a história conforme escrevia, porque acima de tudo sou um formalista, só sei mexer com palavras. De uma certa maneira, as imagens é que vão me guiando.

JB - Qual a diferença entre os dois livros?

Chico - Estorvo era em primeira pessoa. Por isso. a distinção entre sonho e realidade era muito difusa, muito subjetiva mas, ao mesmo tempo, estava claro que ela existia. Benjamim apesar de ser todo um sonho honestamente mostrado assim, desde o começo, toma ares mais objetivos porque é narrado em terceira pessoa. A difusão desta vez está no fato de o narrador ver pelo olhar de cada personagem, parcialmente

JB - A impressão cinematográfica que o livro passa vem daí, da sensação de uma câmera passando de mão em mão?

Chico - Certamente, além das próprias referências cinematográficas de ritmo e imagem. Além disso, como no cinema, as emoções não são descritas, são insinuadas pelas imagens. Não quero fazer nada descritivo, quero que o leitor tenha espaço para suas próprias conclusões.

JB - A cidade onde se passa o sonho parece o Rio, tem Marina da Glória, tem Ilhas Cagárras, tem subúrbio e Zona Sul, ainda que com outros nomes. Por que não falar do Rio mesmo?

Chico - Porque eu queria falar de um sonho de Rio de Janeiro. Não queria nada jornalístico e cheguei a tentar usar os nomes de verdade, mas quebrou o clima onírico e deu um tom realista demais. E um plágio descarado do Rio, a partir da minha observação da cidade.

JB - Como uma pessoa que sempre teve participação política, não deu vontade de falar das coisas que impedem que o sonho de Rio se torne realidade?

Chico - Não quero cair na denúncia social nos livros. Quero que o público compreenda que o cidadão não tem nada a ver com o compositor nem com o escritor. Há referências no livro à violência, mas o policial que está entrevado por causa de uma bala não aparece sendo baleado. Não me sinto compromissado com bandeira nenhuma por causa da minha biografia de participação política.

JB - As comparações com João Gilberto Noll, em Estorvo, ou com Rubem Fonseca, em Benjamim, são quase inevitáveis. Elas o incomodam?

Chico - Não, mas não acho que o livro se pareça com outros autores. Rubem Fonseca é um grande amigo e meu maior incentivador. Mas o que escrevo é muito diferente. Se tiver que apontar uma influência literária, esta influência não vem da literatura, mas da música. Nenhum nome em especial mas o que escrevo é resultado do meu trabalho musical. Não quero que ninguém vá ao livro buscando o discurso político do cidadão que sou ou o lirismo das canções. Quero fazer literatura. Só isso.

JB - Já existe idéia de um novo livro?

Chico - Eu não durmo há um ano escrevendo Benjamim. Você passa a viver o livro, a ir dormir com ele na cabeça, a sonhar com ele, acordar, escrever, voltar a sonhar. É muito cansativo. Agora só penso em passar um mês dormindo. Depois vou voltar a compor.


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