José Celso Martinez Corrêa publicada no programa original da peça Roda Viva


O que você acha de Chico Buarque autor? "Roda viva" pode ser chamado de um passo gigante para quem inicia?

Zé Celso - Não acredito hoje em dia em separação de gêneros de arte - teatro aqui, cinema lá, etc. Hoje tudo se mistura numa única linguagem impura e mista de comunicação, em que vale tudo. A arte toda, forma um emaranhado que se apresenta como um repertório de formas e signos a serem utilizados para comunicar o artista de hoje, principalmente no Brasil, se tem o que comunicar pode entrar por todas as linguagens e gêneros que quiser. No teatro, então, isto é particularmente óbvio. O teatro, como representação de uma ação vital, parte do princípio que tudo é representável, assim eu poderia muito bem em vez de montar "Roda viva" estar montando "A banda". "A banda" é uma canção que pode ser um filme, uma peça, um quadro, dependendo da re-leitura para embarcar em qualquer um desses gêneros. Neste sentido Chico não se inicia no teatro, mas sim usa de uma linguagem mais próxima do teatro para comunicar-se. Sua peça é uma música, é cinema, é conto, enfim, é uma forma de expressão e de opção perante as coisas de Chico Buarque de Hollanda. E é óbvio que pelo nível de relação que ele conseguiu estabelecer com o público, pelo nível de sua arte, de sua linguagem, sua peça testemunha uma força comunicativa de suas músicas. Neste sentido não é um passo gigante para um caminho de realização de autor teatral, nem creio que Chico pretenda isso, mas um passo na conquista da expressão de toda a estética com seu público. Amanhã ele poderá fazer um filme ou uma novela, por que não? E estará dando seu passo na realização de sua obra de criação.

Se a peça fosse de um Benedito qualquer você acreditaria igualmente no sucesso?

Zé Celso - Claro que sim. Tanto assim que acredito que ela vai não somente corresponder, mas ultrapassar a expectativa. O público vai conhecer os outros rostos de Chico. O que aliás é normal, pois é muito cedo para Chico ser uma imagem coagulada e definitiva. Mas evidentemente que o caso da peça se tratar de um material de Chico Buarque, o sucesso crescerá. Não somente pelo aspecto mais evidente da popularidade de Chico, como também pelo fato de dizer respeito à matéria que interessa a todo o público brasileiro. Aliás eu aceitei dirigir a peça por isso. Talvez sinceramente não tivesse o mesmo empenho se fosse de outro autor. Mas como diretor, que oportunidade rara para optar e me manifestar sobre este material que é o fenômeno Chico e seu público! Meu estímulo para o espetáculo foi poder como diretor de teatro da minha geração lidar com um material mais consumido da minha geração. Mesmo se eu detestasse a peça e o Chico, eu seria uma besta de perder a oportunidade de trabalhar com esta mtéria nas mãos. Neste sentido acho que a peça será de imenso sucesso, pois ela trata de um fenômeno nacional. Estes fenômenos estão aí para serem expostos pra jambar, pra serem analisados, elucidados e sentidos.

Você há de concordar que os principais nomes do elenco são pouco conhecidos em São Paulo. Você acredita que só o nome de Chico levará o público necessário, ou acredita mais na montagem da peça?

Zé Celso - Faz já um bom tempo que os nomes vedetes somente afastam o público invés de trazê-lo ao teatro. Eu estou trabalhando com uma equipe sensacional - treze atores recém saídos do Conservatório, sem qualquer ranço teatral, trazendo para cena uma vitalidade nova e uma verdade humana mais recente para os palcos - eles fazem o coro, dançam, cantam, representam, e duvido que qualquer elenco autômato e edulcorado da Broadway conseguiria: é um coro ultra-brasileiro, na base da violência de expressão, do anti-charme cafono da Broadway e que compensa em inteligência e garra tudo o que falta em técnica: são geniais e porraloucas! Depois, trabalho com cinco atores da nova geração, é só por que eu quero. Eles com sua visão mais agressiva de sua relação com o público vão transmitir fluidos positivos para o público e irão atraí-los às pampas, mesmo que for para sacudi-los no seu marasmo e na sua apatia. Agora é claro que o Chico vai trazer sua multidão para o teatro, mas esta multidão vai se dobrar em contato com o espetáculo, ou se dividir ao meio, o que é possível também. Quanto ao fato de acreditar mais na peça que na montagem, isto não existe. Para mim é tudo uma coisa só, como expressão única, nunca consigo separar uma coisa da outra. No momento em que, como diretor, eu releio o texto do autor, este passa a ser meu, texto e o que encontro no texto, ou a propósito do texto, passa a ser do autor, é uma objeção em si do espetáculo - nem do Chico, nem meu, nem do Castilho, que é um ótimo diretor musical, (compositores associados, como diz o Chico), nem do cenógrafo Flávio Império, que vai falar pacas com sua cenografia. O espetáculo é de todos nós.

"Roda-viva" é uma auto-biografia de Chico Buarque de Hollanda?

Zé Celso - Não! A não ser em um pequeno trecho do segundo ato. Mas introduz uma nova visão na biografia do Chico. Eu até sugeri que o cartaz da peça fosse o Chico num açougue. Ou os olhos verdes do Chico boiando como dois ovos numa posta de fígado cru. Foi assim que eu vi o Chico do "Roda-viva".

A peça teria condições de fazer sucesso montada em outro país?

Zé Celso - Espero que o Itamarati crie condições para este teste.

Plínio Marcos foi a grande revelação de 67. Você acredita que se o Chico continuar escrevendo poderá ser o Plínio de 68?

Zé Celso - Se a coisa é na base do autor 67, 68, eu estou muito curioso e quero montar o autor 69. Ainda bem que Chico foi lançado este ano. Espero que em 69 seja uma dramaturga.

O assunto do momento: Você aceita - e acha necessário - o palavrão no teatro?

Zé Celso - O palavrão existe no teatro e graças a Deus fora dele também - e as autoridades deveriam prestigiar o palavrão, pois se não fosse ele acho que este regime já teria caído. Como ele hoje em dia no Brasil é necessário no pão nosso de cada dia!! E como ele descarrega!!! Acho que nunca se falou tanto palavrão no Brasil como hoje em dia. Por quê?

Como você situa o teatro brasileiro? Acha que ele poderá sobreviver apesar das crises econômicas, do subdesenvolvimento, da nossa censura e da anunciada falta de público?

Zé Celso - Acho que não. Aliás, não somente o teatro não sobrevive neste país se alguma coisa não modificar. Eu sinto que nossa geração está no limiar: todo o esforço do pessoal de teatro, cinema, etc., está dando com os burros n'água em virtude da situação de crise econômica permanente e progressivo terrorismo cultural. O esforço criador é imenso e a eficiência incrível, super-desenvolvida, maravilhosa, racional. E o esforço que a censura fez para destruir tudo é maior ainda. No setor público é das raras coisas que funcionam neste país e com isso nós todos ou tomamos uma providência séria ou vamos ter uma vergonha imensa de nos encontrarmos uns com os outros. Estou só querendo esconder nossa castração progressiva e triste.

Os chamados donos de teatros estão preferindo montar "shows" musicais onde afirmam gastar menos e ganhar mais. Você aceita este tipo de montagem?

Zé Celso - Eu aceito qualquer tipo de montagem, mas esta história de gastar pouco para ganhar mais não resolve. O negócio é gastar o que for preciso para ganhar muito mesmo.

Por que as peças culturais não fazem sucesso? Nosso público ainda não está preparado para um bom teatro? Nossas montagens podem ser comparadas às melhores do mundo?

Zé Celso - Quem inventou isso de que as peças culturais não fazem sucesso? Talvez esse nome "peça cultural" é que cheirou um pouco mal, deve ser invenção do teatro cafono de Boulevard para destruir o que acabou com ele. Hoje em dia somente fazem sucesso as peças que tenham um sentido de choque cultural.
Com a TV à toda a única função do teatro será a de auto-penetração coletiva e discussões de nossas mitologias mais recalcadas e profundas, de nossas neuroses coletivas - e são muitas!!! O teatro tem que exercer a sua função de diálogo cara a cara com o público - e é este encontro que nós brasileiros de classe média nos furtamos a todo momento: que se tem de acontecer que aconteça no teatro.
E novela de televisão - ela esmaga um ator no sentido da palavra apesar de consagrá-lo junto ao público, como é o caso de vários "canastrões" que foram transformados em ídolos? É a mesma engrenagem da "Roda-viva" do Chico?
O fato de ser ou não canastrão não importa tanto, talvez ajude um pouco o indivíduo a ser ídolo - um temperamento de ator com uma personalidade mais revolucionária, mais complexa, mais criativa, talvez não servisse, talvez a imagem de uma TV censurada e totalmente comercializada precise mesmo de canastrões - mesmo porque o público médio de TV é ultra-canastrão. Quando não se pretende mais de um indivíduo do que vender-lhe sabonete, acho que mesmo o autor não sendo um canastrão (conheço vários que não são e fazem da TV um meio de vida e são meus amigos) - é conveniente se castrar, esquecer seu estômago e sua cabeça e ser um boneco estúpido, entretanto não creio que o mal seja da novela em si e das comunicações de massa, o problema é o da censura e o da TV existir como veículo de vendas tão somente, sem o menor sentido cultural de diálogo de uma sociedade de massas com seus modelos - os modelos são impostos e fabricados sem nenhum sentido como veículo de consumo: uma sociedade que pode consumir, consome seus cacarecos e muito bem, é o que eles tem que fazer. Mas no Brasil, onde existe todo um esquema de necessidade de revolução social e política, a TV como se estrutura hoje é um ópio do povo. É neste sentido que ela aparece em "Roda viva" - e ela passa a canalizar para seu universo de conformismo todas as revoltas latentes. Assim, no primeiro ato, todo o sentido religioso da TV fornecendo meios de satisfazer misticamente todo o anseio de consumo do povo que não poderá consumir: Bem Silber - o ídolo de prata. O ídolo é devorado e idolatrado enquanto representa aquele membro da comunidade que consome mais que todos. No segundo ato a fossa do ídolo, o drama do ídolo vendido alimenta toda a "fossinha nacional". Finalmente sua revolta política é logo canalizada para a festividade, para a bossa. "Poder Jovem", para a grandiloqüência de sê-lo comemorativo à TV, capitaliza e vende a imagem bossinha e esquerdinha do ídolo, até vender a sua morte. O espetáculo termina com mais mistificação. O "hippie" apalhaçado, importado, o culto da margarida, e terminado o espetáculo - programa de TV, tudo volta ao seu lugar, nada se passa - a banda passa - e tudo continua na mesma, muito barulho por nada.

Por que o teatro sério não fez sucesso na televisão? Culpa do público ou do horário em que eram montados?

Zé Celso - O teatro nunca foi montado seriamente na TV. Na Europa alguns canais que fazem peças dão a mesma importância que dariam se este espetáculo fosse estrear numa casa de espetáculos importante ou como se rodasse um filme. Os ensaios levam o tempo que a peça normalmente exigiria: são feitos cenários, figurinos especiais, música, etc., e a coisa é divulgada com antecedência até o dia em que a peça vai ao ar. Neste dia os receptores captam um espetáculo da qualidade de um bom filme ou de uma peça no teatro e não um improviso como sempre foi o caso na TV brasileira. Eu vi Pequenos burgueses na TV italiana, era um grande espetáculo; o vídeotaipe italiano depois foi dublado e passou por toda a TV européia, foi um enorme sucesso. Ë claro que não serve para vender sabonete, pois a peça era tão boa e interessante que o espectador depois dela podia até ficar sem tomar banho uma semana.

Alguém pode viver de teatro no Brasil?

Zé Celso - Eu vivo. Mal, como a maioria do nosso povo, mas vivo.


Próxima