O Pasquim - agosto/69
A exemplo da galinha e do ovo, esporte e indústria têm-se
gerado reciprocamente na Itália. A melhor época da bicicleta
italiana coincidiu com a glória de Fausto Coppi nos giros
ciclísticos europeus. Escalando barrancos a trancos e
pedaladas, Coppi foi o justo herói para os anos difíceis de após
guerra. Agora, pernas pro ar que ninguém é de ferro. A
monotonia vingou na Itália como em nenhuma outra parte. E
para ilustrar o sucesso da mercadoria, eis que surge imbatível
o campeão mundial de motociclismo, um italiano, boa pinta,
chamado Agostini. No entanto, dizer que Agostini foi
simplesmente inventado pela indústria é como insinuar que
Pelé jogue do jeito que ele joga para satisfazer a fábrica que
exporta chuteiras com o seu nome. A verdade é que esse
corredor está atingindo a popularidade dos grandes nomes da
canção, do futebol e do cinema. É o modelo que faltava para
desenfrear de vez o já fabuloso consumo de bicicletas
motorizadas.
Sempre em dia com a onda, comprei também a minha
motoneta. É uma vespa de 50 cilindros, ou 50 cilindradas, ou
pistões, não sei bem, é uma vespa de 50 alguma coisa. Todos
os meninos do bairro têm a sua, e domingo a gente promove
umas corridas legais, lá na vila Borghese. Com isso evito a
amolação de viver pedindo chave de carro ao papai. E não
bastasse o prazer que a motoneta proporciona, precisa ver
como ela é útil durante a semana. Segunda-feira, de gravata e
capacete, vou motorizado ao centro da cidade e estaciono a
bicha de qualquer jeito. O diretor tem uma Mercedez grande e
uma raiva enorme de minha pessoa. Cáspite, Tchico, você
deveria ser o último a montar nessas bicicletas. Venha cá que
te faccio vedere una cosa. Ecco, vedi questo? Ele abre um
fichário e mostra a crise do disco na Itália. A queda começa no
ano passado, justamente quando aparece a moda desses
motorini maledetti. Pois é natural, digo eu. O jovem que, até
então, comprava dois discos por mês, com as mesmas duas mil
liras paga a prestação de uma mini motocicleta. Depois, as
garotas não vão sair comigo só porque tenho um disco do
Morandi em casa. Você sabe, elas hoje querem saber é de
velocidade, emoção, aventura, e com a minha vespa chego a
dar oitenta por hora na descida. Ma stai attento, Tchico, que
você já não é um ragazzo. Se os seus discos encalharem, se a
fábrica falir, quem é que vai pagar a benzina del tuo motorino?
Quem paga o latte de tua figlia? Ora velho, não tem problema,
adoro correr esses riscos. Adoro apostar em cavalo azarão. Não
é à toa que escrevo para um jornal carioca que toda semana é
motivo de apostas, se vai a falência neste ou no próximo
número.
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