O Pasquim - 26/06/69
Ser antiflamenguista e ostentar no meio da cara um diploma de ressentido. É detestar Mangueira, o carnaval e tudo o que
cheire a popular e unânime. O neném desmamado, o menino asmático e o homem traído, esses terão sempre o direito de
gritar contra o Flamengo. Por isso mesmo é muito fácil ser rubro-negro. Fácil de mais. É como ser a favor do sol no meio
do deserto, ou comemorar o Dia da Árvore no coração da Amazônia. Aliás, nunca existiu um flamenguista. Flamengar é
verbo imperfeito que só se conjuga no plural. Por exemplo: E advogo, tu bates o ponto, ele mata mosquito; nós
flamengamos, vós flamengais, eles flamengam. Mas torcer pelo Fluminense, modéstia à parte, requer outros talentos. Precisa
saber dançar sem batucada. O tricolor chora e ri sem ninguém por perto. Ele merece um campeonato, ele merece.
Antes mesmo de ser informado, via satélite, por essa estranha seita chamada "Jovem Flu", fiquei sabendo da notícia por meu
pai, que é Bonsucesso. Um "Velho Bom", em suma. Depois veio o telefonema dum bando de amigos, jogadores e rodrigues, cujo amontoado de vozes deixou-me entender pouco mais que
a confirmação da vitória. Mas foi o bastante para me deixar emocionado e sem sono, fumando na janela. Eram cinco horas
da madrugada e ninguém se manifestava nas redondezas do Vaticano. Ignoravam o campeão carioca num silêncio
canônico, donde pude constatar que, naquele exato momento, em assuntos de futebol eu era o homem mais feliz de Roma.
O amigo Franco Beretta, co-proprietário do bar Nuova Sicília, ofereceu-me um vinho pela vitória do Fluminense no
campeonato brasileiro. Bom, eu disse brasileiro para simplificar, porque eles não entendem
os nossos campeonatos regionais. Disse também que a bandeira do campeão brasileiro era
igual à da Itália, vermelha, verde e branca, mas evitei jurar que se tratasse de uma
homenagem. O Franco Beretta achou que era uma homengem sim, que tem muito italiano
no Brasil, ele mesmo tem um primo que está milionário em Montevidéo. Para dizer a
verdade, o vermelho do Fluminense é mais chegado ao tom do vinho barolo que o Franco
ofereceu mais um. E o verde da camisa tricolor é o mesmo das azeitonas que a gente foi
comendo e comendo, falando de futebol.
Não, o Pelé é do Santos. Se o Fluminense ganhou do Santos? Ora, pois já não lhe disse
que o meu clube foi campeão? (Franco Beretta, como todo italiano, desconfia muito de
futebol brasileiro sem Pelé). Você pode comparar o Fluminense com o time da Fiorentina,
campeão da Itália. No lugar do Superach temos o Félix, goleiro da seleção. No lugar de
Amarildo temos o Lula, e daí? Se achar pouco um Lula, tome um Lulinha que eu nunca vi
mas já gostei. Pega o Ferrante, líbero da cabeleira loura e abundante, faz uma permanente
e pinta todo de preto, pinta de novo porque não ficou no ponto, passa uma terceira mão
de tinta, fosforescente, e você tem o Denílson. O De Sisti, capitão fiorentino e gênio
nacional, é um Samarone sem malícia. Se o Samarone é do escrete? Não é não. Nem o
Galhardo. O Chiarugi, ah. Chiarugi é um maluco, segundo o meu amigo italiano. Chegou a
ser afastado do primeiro time porque dribla muito mais, engraçado, foi com a sua volta que
a Fiorentina partiu firme para a liderança. Vem cá, O que Chiarugi seria capaz de marcar
um gol com a mão? Ah, aquele é capaz de tudo, diz o italiano, pode ser até que o juiz
confirme o gol. E então meu caro Beretta, você não acha que ele é um ponta-direita para
a seleção italiana? Para a seleção está bem, diz ele, se o Chiarugi marcar gol de mão
contra a minha Roma desço no campo e faço um estrago naquela cara.
Franco Beretta ia sendo convertido mansamente. Passei do Wilton para o Oliveira, deste
para o Assis, daí ao Silveira e a bola foi parar nos pés do Cláudio. Nisso o Franco centrou e
perguntou pelo nosso Riva, o artilheiro. Mas qual Riva, qual nada, muito melhor! (Riva foi o
goleador do campeonato italiano: 19 gols em trinta partidas.) E você vem falar de Riva.
Olha aqui, não sei como lhe explicar, mas o campeonato carioca começa com doze clubes e
de repente tem oito, quer dizer... O fato é que o Flávio foi o artilheiro do Brasil com 49 gols
e pronto. Se é novo esse Flávio? É, começou este ano. Não, antes dele a gente não
costumava fazer gols. Antes do Flávio jogava de centro-avante o fantasma do Valdo. E
tem mais: a revelação do ano é um sujeito que se chama Cafuringa. Mas ao aouvir
Cafuringa o meu amigo achou demais, disse que eu já estava exagerando e foi cuidar da
vida.
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