Muito prazer, finalmente, de
Luis Fernando Veríssimo



Zero Hora - 12/08/1999 Luis Fernando Veríssimo

Teve uma vez no Antonio's, do Rio. Nós estávamos com o Glauco Rodrigues e a Norma, que ele conhecia de Roma. Ele sentou à nossa mesa, disse que estava aproveitando um rápido habeas corpus concedido pela Marieta, não podia demorar. Isso há uns 200 anos. Depois a dona Eva proporcionou um encontro no Theatro São Pedro, quando ele esteve aqui da última vez. Trocamos alguns silêncios, ele também não podia demorar. Nos cruzamos no Salão do Livro de Paris, no ano passado, mas nos perdemos na multidão. Trocamos abanos durante a Copa do Mundo, de longe. Este ano a Lúcia falou com ele pelo telefone, para transmitir um pedido. Depois ele fez uma gentileza com a nossa filha, a Fernanda, que estava dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros, em Moçambique. Telefonou para explicar por que não podia atender ao pedido.

Disse "Aqui é o Chico Buarque" e a Fernanda disse "Aqui é o Papa". Há dias nos falamos pelo telefone, ele perguntou se eu tinha topado mesmo fazer o encontro de amanhã, eu disse que sim, combinamos que sempre haveria a possibilidade de o mundo acabar antes e nos salvar. Tudo isso para dizer que só agora, finalmente, espero, vou poder dizer "Muito prazer", com algum vagar, ao Chico Buarque. Um "muito prazer" não-protocolar, abrangente e retroativo, significando que foi um imenso prazer não apenas conhecê-lo mas ser seu contemporâneo, eu e todo o Brasil. Vou agradecer por todos estes anos, pelas músicas e a poesia, pelas peças e os livros, e pelo exemplo.