Pasquino


O Pasquim - 12/09/69

O Departamento de Pesquisas decidiu inaugurar suas atividades em Roma rebuscando as origens remotas do PASQUIM. Seu generoso arquivo de amizade informara-lhe que a palavra pasquim deriva de Pasquino, personagem que habitou e abalou a Roma do Século XV. Partindo desse dado o Departamento passou a desemaranhar os livros e as ruas desta cidade para, após cuidadoso e exaustivo exame, salvar de traças e ruínas o serviço que segue abaixo.
Mestre Pasquino teria sido o barbeiro predileto dos figurões da corte e do clero. Corta daqui, apara dali, e a nobre clientela fofocando. Pasquino fazia-se de surdo e bobo, mas na manhã seguinte os vícios dos ilustres já eram do conhecimento público. Outras versões sustentam que Pasquino foi um alfaiate ou, ainda, proprietário dum restaurante. Uma última fonte classifica-o "literator seu magister Iudi (vide Carmina qua ad Pasquillum fuerunt posita in anno MCCCCCIX)", coisa que o Departamento de Pesquisa não pode constatar por absoluta ignorância do latim.



De um modo geral, porém, as indicações coincidem na imagem dum Pasquino intimamente ligado à classe dominante, da qual gozava os melhores favores e publicava os piores segredos. O privilégio da informação direta e o talento para o verso satírico valeram-lhe uma reputação que lhe sobreviveu. Ainda depois de morto, Pasquino continuou a desacatar autoridades através de manifestos pendurados numa estátua de origem obscura. Escondidos sob o prestígio e o estilo do mestre, seus "secretários" compuseram célebres pasquinadas, muitas delas impublicáveis, que atacaram desde os papas do renascimento até os líderes do fascismo.



Com o tempo, Pasquino ficou sendo nome da estátua que servia de mural às pasquinadas. Eesse monummento, que na verdade ninguém sabe o que representa, acabou por superar a reputação do mestre. Tanto é que, em 1500 e tantos, o Papa Adriano VI, ficou fulo da vida e resolveu destruir a estátua, ordenando que se a mutilasse e atirasse no Tibre. Torquato Tasso, com muita sabedoria, dissuadiu o Papa afirmando que, mesmo no fundo do rio, Pasquino contaria com a voz das rãs para espalhar o vitupério.
Como testemunha da História e das lendas, sobra apenas um rosto desfigurado sobre um tronco de mármore corroído. Trata-se da outrora implacável estátua de Pasquino, encostada discretamente na pequenina praça do mesmo nome.



Ultimamente Pasquino tem andado quieto, protegido ou censurado por uma cerca de um guarda civil. Entretanto, graças à fotografia de Araújo Netto e à ousadia dum alpinista eventual, o Departamento de Pesquisa conseguiu reanimar a velha estátua em versão tropical. Desafiando a polícia, eis o fruto da temível pasquinada: um papagaio de Copacabana, uma alusão ao rato televisivo, um exemplar do Pasquim e o boneco Fio travestido em tricolor.