Sobre nascimento da filha Silvia


Fatos & Fotos - abril/69

No dia 28 de março, nascia a filha de Chico Buarque de Hollanda e Marieta Severo. O parto, induzido e difícil, causou algumas complicações. A menina nasceu com algumas manchas no rosto e a cabeça ligeiramente deformada. Mas, apesar da preocupação do pai, os problemas desapareceram no terceiro dia e Sílvia já está em boa forma. Marieta, que foi internada na Clínica Moscatti, nos arredores de Roma, resistiu bravamente ao seu primeiro parto e assim que pode, numa rápida assembléia com Chico, escolheu Vinícius de Moraes para padrinho, Na confusão dos três primeiros dias de sua filha Chico fala para Fatos e Fotos sobre a menina, o trabalho e as saudades do Brasil.

Estou em Roma desde o início do ano e pretendo ficar até julho, mais ou menos, depende... É preciso tomar um chá de tranqüilidade assim de vez em quando. A Itália oferece trabalho, Roma é apaixonante e o italiano é quase irmão da gente.
Saudades do Brasil é claro que tenho. Da praia, do Antonio´s, do futebol, dos amigos. Dos amigos, principalmente, mas ainda bem que puseram um satélite lá em cima e a gente se telefona volta e meia.
Não vou vou dizer que estou estourando na praça européia porque é mentira. Meus discos vendem bem, está dando para viver, já é muito. Os críticos aplaudem, os teatros também, mas o sucesso popular, popular mesmo, não é mole, sabe? A gravação Far Niente (bom tempo), as aparições na televisão e um programa fixo na rádio estão ajudando. Pelo menos o público já sabe que eu sou Tchico Barcue, cantautore brasiliano, conterrâneo de Pelé, Garrincha e Altafini.
Vou a Paris gravar um álbum em francês, com as mesmas músicas do disco italiano. Isso de ficar cantando em língua estrangeira não estava nos meus planos, mas é o mínimo que a gente pode ajudar para se fazer entender. Esse tal de velho mundo tem o ouvido cansado, carece de um ritmo novo, de melodia diferente. Mas é preciso ir aos poucos, facilitar, senão eles acham que samba é exotismo nosso. É por isso que faço questão de acopanhar as traduções, mesmo convencido de que é impossível traduzir o espírito, as rimas e os ritmos que o samba tem. Ainda bem que tenho como tradutor a excelente figura de Sérgio Badotti, italiano que ama o Brasil como poucos brasileiros. Agora ele está trabalhando também com o Vinícius. Ele paquera o samba com amor e tempo integrais.
Tenho composto sim, devagar e sempre, coisas novas para lançar no Brasil. Aliás, no fundo tenho pensado mesmo é nas gravações brasileiras. A essa altura já deve ter saído por lá um disquinho com umas e outras. Taí uma gravação que me deu gosto. O resto segue num elepê até junho. É bom mesmo que faça esse disco correndo, senão a fábrica continua lançando meus discos estrangeiros no Brasil. Quanto a festivais, trato de tirar o corpo fora. É justo que o público exija caras novas e vice-versa. Eu já estava virando cara velha.
Não, minha filha não vai se chamar Rita, nem Carolina. Nem Roda-Viva. Talvez Sílvia, não sei. Temos ainda um mês para decidir e registrar no consulado, brasileirinha sim senhor.
Olha aí, pode dizer até que eu sou esse artista de projeção, mas deixa eu brincar de vez em quando. Três anos de vida pública cansam qualquer um, mas não quero que minha filha me encontre circunspecto. Afinal, ela é afilhada do Vinícius, há de ser minha amiga. É por isso que, à noite, sempre vou grudar o rosto no vidro do bercário. Ela é muito preguiçosa e dorme o tempo inteiro, rindo. Mas, quando abrir o olho, ela talvez me veja como vejo meu pai. Sabe duma coisa? Ela não vai ser filha de Chico Buarque nenhum. Eu é que vou ser pai dela.