Última Hora - 09/12/68
Estava mal chegando a São Paulo, quando um repórter me provocou: "Mas
como, Chico, mais um samba? Você não acha que isso já está superado?" Não
tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em
voga. Já era hora de enfrentar o dragão, como diz o Tom. Enfrentar as luzes,
os cartazes, e a platéia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra
frente, de franca oposição. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do
meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em
que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionária, pelo meu
desinteresse em participar de uma passeata cívica contra a guitarra elétrica.
Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o
tamborim. O importante é ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco.
Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua música
estereotipada, onde samba, toada etc. são ritmos virgens para seus melhores
músicos, indecifráveis para seus cérebros eletrônicos. "Só tenho uma opção,
confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimúsica. Veja, os Beatles,
foram à Índia..." Donde se conclui como precipitada a opinião, entre nós, de
que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malícia, a malemolência. É certo
que se deve romper com as estruturas. Mas a música brasileira, ao contrário
de outras artes, já traz dentro de si os elementos de renovação. Não se trata
de defender a tradição, família ou propriedade de ninguém. Mas foi com o
samba que João Gilberto rompeu as estruturas da nossa canção. E se o
rompimento não foi universal, culpa é do brasileiro, que não tem vocação pra
exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos
ansiosos por um primeiro prêmio. Mas não é bom usar de qualquer recurso, nem
se deve correr com estrondo atrás do sucesso, senão ele se assusta e foge
logo. E não precisa dar muito tempo para se perceber "que nem toda loucura é
genial, como nem toda lucidez é velha."
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