O Pasquim - agosto/69
Acordo com nova disposição, penteado novo. Jornalista
Francisco, prazer, exercendo meu ofício com toda a assunção. Já
começo até a receber cartas, vejam só. Um jornalista recebe
muitas cartas. Transcreve as amáveis quando falta assunto e
responde às odiosas com fina ironia. De qualquer modo, o jornalista sai-se sempre tão
bacana que é comum duvidar-se da autenticidade de sua
correspondência. Pois dou hoje minha entrada no rol dos suspeitos afirmando que desde a minha estréia neste pasquim, recebi um trecho de carta, dois pacotes de cigarros, um telefonema e uma dúzia de lingüiças.
A carta partiu da Sra. Lúcia Reis, de Ipanema, flamenguista, casada com
flamenguista, naturalmente. No gostou do meu primeiro artigo, isto é,
não gostou da vitória do Fluminense. A Sra. Lúcia Reis, de Ipanema,
informa que ser Flamengo é morar no Encantado. É tomar umas e outras,
sentar na geral, participar do suor comum, coisas que também aprovo
sem o menor pudor. Depois ela fala da coluna social, de impedimento,
de Armandinho, e de outros argumentos que não entendi bem. Mas deixo
de responder diretamente à Sra. Reis, em cuja caligrafia reconheço a
inspiração do marido, para desfazer um equívoco maior. Duma vez por
todas: sou Flamengo. Todo bom tricolor, a princípio, é rubro-negro.
Porém, é um rubronegro tão curtido e fermentado pela vida que, um belo
dia, pode chegar à mesa e declarar: "Irmãos, consegui! Finalmente torço
pelo Fluminense."
E os irmãos, pondo-se em fila indiana, inclinando-se e
cumprimentando-o: "Parabéns, companheiro, você merecia."

Bem-vindos os vinte maços do meu cigarro enviados por João Manuel
Fernandes, de São Paulo. Menos bem-vinda a notícia que os acompanha:
a minha marca preferida está acabando. Parou no Rio, parou em Minas.
Seu último reduto é a valente capital bandeirante que não pode parar. Aí
fico meditando sobre a ingratidão humana.
Porque, quando a gente adota um cigarro, presume estar fazendo uma
opção para o resto da vida. Assim fiz eu aos 15 anos, com precoce
determinação. Vieram os cigarros com filtro, não me alterei. Não me
arrebataram os cigarros longos king size, marca de nobreza e distinção.
Resisti até ao anúncio da moça loira, aquela da boca grande, disposta a
qualquer aventura com o homem que fumasse mentolados. Veio o
cigarro americano, a propaganda do câncer, veio o aumento, a tosse, e
cá estou eu inexpugnável, dez anos de fidelidade, cinqüenta cigarros por
dia. Façam as contas, senhores fabricantes, pensem no caso e tenham
piedade de mim.
Tom Jobim telefona de Londres... Diz ele que Londres é bom, é
civilizado, é civilizado mas é bom. Então ele mostra o bolero que compôs
para o filme. O João Gilberto faz muito bem de estar lá no México, diz
ele. O Vinícius voltou ao Brasil, né? É, o Vinícius é que está certo. O
Caetano Veloso também. Aí ele manda eu esperar um pouco e fica
aquela linha pendurada na Europa. A telefonista não gosta disso e
começa a brigar comigo. Volta o Tom e diz que o Drummond é que tem
razão: "O poeta é um ressentido, o mais são nuvens." O Caymmi
também sabe o que diz. Quando o cobrador pergunta pelo último samba,
o baiano responde que emburreceu, só isso. Em Londres ninguém cobra
nada, tem aquela cerveja inteligente e aquela grama bem cortada. Em
Londres só não come bem quem não conhece o Mercado e as sutilezas da
língua. Tom, por exemplo, vai à compra toda manhã e ordena: "Dry meat
and string beans", ou seja, carne seca e feijão de corda, que além de
bom engorda.
Por falar em comida brasileira, e para terminar, quero agradecer à alma
bondosa e anônima que deixou lingüiça na porta de casa. Era só o que
faltava. Enfim tenho a matéria prima para organizar a maior feijoada de
Roma, assim que as fraldas de minha filha desocuparem o caldeirão.
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