Um fominha no Recreio

O Globo - Junho/2004

Fernando Calazans

Na primeira vez que fui ao campo do Polytheama, estava muito bem acompanhado: cheguei com Tostão, o campeão mundial de 70, íamos gravar com Chico Buarque uma seqüência sobre futebol para o seu especial intitulado "As cidades".

Chico já estava em ação na pelada. Ficamos assistindo quietinhos, Tostão e eu, para não dispersar a atenção de quem estava envolvido no jogo. Lá pelas tantas, a bola é passada na direção de Chico, muito forte, metade passe, metade chutão pra frente. Lance difícil. Mas Chico amortece a bola com o lado externo do pé direito e, no mesmo toque, único toque, já a oferece, macia, ao companheiro no meio da área para o chute a gol.

Sem olhar para mim, nem eu para ele, Tostão exclama:

- Puxa! Essa é de craque.

Se fosse eu a fazer a observação, ela teria um peso. Sendo o Tostão, o comentário adquire outra dimensão. Era um craque, um supercraque do futebol, tomado de surpresa pela jogada de classe de outro artista, que é o dono do campo do Polytheama, no Recreio, na Zona Oeste do Rio.

"Futebol é provavelmente a maior de todas as paixões de Chico. Maior que a música? Pode ser."

A frase também não é minha. É da jornalista Regina Zappa, no livro sobre Chico para a coleção Perfis do Rio. Também ela tem mais autoridade do que eu para falar das paixões do biografado. Paixão pela arte, paixão pelo futebol, paixão pela arte do futebol.

A vistosa matada de bola com o lado externo do pé é jogada característica de Chico, uma das suas preferidas.

Diz um amigo, companheiro de pelada, que Chico rejeita a jogada mais simples. Aprecia a firula, a graça, o rebuscamento, o drible de corpo - e já escreveu, em crônica para O GLOBO na Copa do Mundo de 98, que "o drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito".

Não raro, quer fazer com a bola o mais difícil. Certamente é quando se manifesta a alma do artista. O gosto pelo lance de efeito, o toque de letra, o enfeite, bem-sucedido ou não, tudo isso seria o correspondente, no campo, ao gosto de Chico pela música, pela literatura - prosa e poesia - o correspondente ao seu rico domínio das palavras, da sonoridade das palavras e da arte de juntar as palavras.

Que é maior até do que seu domínio de bola, mesmo com o elogio do Tostão.

Valéria, a torcedora, ganha um beijo na mão

Na segunda vez que fui ao campo do Polytheama, por enquanto a última, cheguei sozinho e não havia gravação alguma de filme ou especial. Eu é que queria gravar na memória alguma coisa sobre o já lendário time, que há 25 anos se apresenta três vezes por semana, às segundas, às quintas e aos sábados, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes, homenagem ao poeta - amigo, parceiro e compadre de Chico - que jamais pôs os pés no campo a que emprestou o nome.

Há condomínios ao redor que se cercam de seguranças. Porém, no Centro Recreativo Vinicius de Moraes, não há segurança alguma, não há sequer tranca na porta, que está sempre aberta. Visitas, como eu, são bem recebidas e têm direito a cafezinho de cortesia no bar do Severino, ao lado de um dos três campos de futebol-soçaite. Um pouco além, está o terreno que Chico doou para a construção da Casa de Arte do Terreirão, o projeto a que se dedica no momento.

Terreirão é a favela que fica a poucas centenas de metros do campo do Polytheama. Vários de seus moradores entraram ao longo dos anos pela porta aberta do Centro Recreativo e viraram companheiros de pelada de Chico e seus amigos. São seus amigos também. Circulam pelo terreno como membros do clube.

Eles tratam Chico, e Chico a eles, com o mais puro sentimento de igualdade. É Chico pra cá, Chico pra lá, olá, alô, tapinhas nas costas. Se há lugar em que Chico, o dono do campo, é menos estrela ainda do que o normal é no Polytheama. Só ensaia um ou outro estrelismo quando está com a bola no pé. Perdeu a bola, perde até o status de dono do campo.

Valéria, uma negra bonita e simpática, de sorriso muito branco e pernas grossas, foi do time feminino do Polytheama, quando existia o time feminino do Polytheama. Hoje que o time está em recesso, ela joga às vezes entre os homens. E joga bem, segundo o depoimento geral. Agora ela está na pequena arquibancada, assistindo à pelada da segunda-feira ao meu lado. E não pára de gritar:

- Solta a bola, Chico.

- Chico, não tem ninguém na defesa.

Vira-se pra mim:

- O time hoje está muito desfalcado.

E volta os olhos para o campo:

- Vamos reagir, o Politheama não pode perder.

- Bolão, Chico, bolão!

Quando sai de campo substituído, para descansar um pouco e voltar depois, Chico se dirige a nós, na arquibancada e, gentilmente, beija a mão de Valéria, sua fiel torcedora.

No campo, jogam sete de cada lado, contando o goleiro. Para quem gosta de esquemas táticos (e não é o caso de Chico), o Polytheama joga num 3-1-2. Esse 1 aí é o Chico. É o homem que faz a ligação entre o meio-de-campo e o ataque.

Chico admirava o estilo de Pagão, craque do Santos já falecido que foi seu ídolo desde a infância, desde os tempos em que Chico entrava no Pacaembu no intervalo dos jogos para não pagar ingresso (era a promoção da época em São Paulo). Ele prefere o passe ao chute. Não liga muito para fazer gol nem conta os que já marcou em sua sólida carreira, que, aos 60 anos, em boa forma física, está longe de terminar. Chico se compraz em preparar os gols de Carlinhos Vergueiro, o cantor e compositor, e de Vinícius França, seu amigo, produtor musical, empresário, homem de confiança e artilheiro absoluto do time.

Conta a lenda - e vamos deixar combinado que a lenda conta muita coisa quando se trata de Polytheama - que Vinícius França já teria alcançado a astronômica marca de 7.961 gols, e isso até a tal segunda-feira em que estive no campo.

- Não é nenhum absurdo - sustenta ele. - Se contarmos que a gente joga três vezes por semana, 144 vezes por ano, há 25 anos, são quase quatro mil partidas. Fora os jogos que fazemos em outros campos.

A favor do Vinícius (e da lenda, não se esqueçam), posso testemunhar que os jogos no Polytheama terminam com resultados de 6 a 5, 8 a 6, 10 a 9 e até 14 a 14 como aquele que eu presenciei, depois de várias prorrogações até o time de Chico, que estava perdendo - desfalcado, como informou a Valéria, lembram-se? - conseguir o empate final.

Pelo Centro Recreativo Vinicius de Moraes passou, sem lenda nem exagero, a fina flor do futebol brasileiro, que foi lá para homenagear Chico Buarque e ser homenageada por ele. Na calçada da fama particular do clube estão imprimidos os pés de gente como Pagão, Zizinho, Nílton Santos, Silva, Tostão, Zico, Júnior, Leandro, Reinaldo, Sócrates, Romário, Ronaldinho e outros.

Mané Garrincha, Pelé, Didi e Canhoteiro, outros ídolos de Chico, além de Pagão, aos quais ele dedica a música "O futebol" ("Para estufar esse filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei"), nunca passaram pelo Polytheama, mas bem que Chico gostaria que eles tivessem passado e perpetuado seus pés no cimento.

Na linguagem popular do futebol, Chico é o que se chama de fominha. Fominha de bola. É capaz de sair do sério quando os adversários lhe fazem falta - Chico é contra as faltas e os brucutus do futebol - e quando os companheiros demoram a lhe passar a bola.

Há quem se queixe de que Chico não costuma participar do terceiro tempo das peladas. Peladeiros em geral curtem o que eles chamam de resenha, que é o bate-papo após o jogo, geralmente em torno de garrafas de cerveja. É quando eles mesmos analisam a partida, discutem os lances capitais, avaliam as atuações, elegem o craque e o perna-de-pau do dia, exatamente como a gente ouve no rádio, vê na televisão e lê no jornal.

O tricolor Chico Buarque, que já foi de freqüentar o Maracanã mas hoje acompanha futebol pela televisão, não participa desse ritual. Encerrada a peleja, é o mais rápido a tomar banho e trocar de roupa. Despede-se dos amigos do Polytheama e do Terreirão, deixa o Centro Recreativo Vinicius de Moraes, pega o carro, dispara, desaparece - até a próxima pelada, que não vai tardar.