O Pasquim - julho/69
Saiu evasão, a palavra da moda. Neste verão todos vão de evasão. Contestam a evasão. Dão os jornais: o movimento financeiro das indústrias discográficas italianas, em 1968, superou os 170 bilhões de cruzeiros velhos. Sublinhe-se que os melhores fregueses habitam a região mais pobre do país, tais como a Calábria, a Sicília e a Sardenha. Que significa isso? Evasão. A torcida do Cagliari, na Sardenha, impediu que se vendesse o centroavante Riva, Pelé mediterrâneo, pela soma de 9 bilhões de cruzeiros velhos. Os trabalhadores da cidade decidiram sacrificar parte do salário para manter seu herói em casa. Evasão, é claro. Tem um outro Riva, industrial de Milão, que enfiou a bancarrota no bolso e fugiu para o Líbano. Evasão? Não senhor, ai é que você se estrepa. Evasão, no sentido atual do termo, é uma fuga sem dinheiro, sem remédio e sem sair do lugar.
A música e o futebol italianos estão, comercialmente, mais desenvolvidos que no Brasil. Vide prova no preço de um jogador ou na vendagem de um disco, aqui mais que lá, dez vezes mais. Portanto, dez vezes mais ferozes urlam os críticos da evasão. Sem querer perder meu emprego (de futebolista, lógico), peço permissão para urlar junto. Também acho um absurdo. O pobretão de bicicleta sonhando com os astronautas. A mocinha sem namorado comprando disco de consolação. O menino descalço fazendo gol com bola de vento. O preço que pagam por um minuto de evasão é de fato escandaloso. Eu mesmo, ao ver o Imposto de Renda, fiquei achando que não deveria ter ganho tanto assim.
Mas o que me espanta é a agressividade que os técnicos em evasão descarregam sobre os ídolos populares. Aí já deixo de compartilhar, porque excesso de rancor afeta sempre o funcionamento do pâncreas. Os mais irritados são justamente os jornalistas encarregados de comentar a música popular. Exercem seu ofício com tamanha má vontade que a gente fica pensando: de duas, uma. Ou esse cara queria cantar e não tem voz, ou queria comentar política internacional e o diretor do jornal não deixa. No mundo da canção italiana não há lugar para a canção desvinculada do esquema industrial. Se faz sucesso, o crítico dá nota três porque é aquela besteira comercial de sempre. Se faz fracasso, a nota é dois porque onde já se viu uma canção popular que ninguém entende, é produto encalhado, é prego de duas cabeças.
Apenas a título de informação deixa acrescentar que cantor mais compositor, juntos, não percebem num disco mais que 12% de seu preço de custo. Nos demais 88% ninguém ousa atirar tomates. Diga-se de passagem que a maior acionista da maior fábrica de discos italiana é uma potência econômica religiosamente protegida de qualquer repreensão. E olha que não tenho nada de pessoal contra esse Papa. Só acho que o João XXIII era mais bacana.
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