Baú é onde estão as coisas velhas; onde estão jogadas reminiscências.
No Baú a gente encontra, embolorada ou empoierada, um pouco de nossa vida passada.
Aqui está um baú. Uma seção destinada aos ex-alunos do colégio. Que se encontram agora nos mais diversos lugares, nos mais diversos campos de atividade, nas mais diversas condições. Mas têm elementos em comum: estudaram no Santa Cruz, viveram juntos, compartilharam do mesmo banco, do mesmo espírito.
O Baú tem vários objetivos. Servir de comunicação, um ponto de encontro dos ex-alunos. Para que eles nos tragam experiências e lições. A nós que logo passaremos pelo que hoje eles passam. Para que encontrem nesta seção o pedaço de sua vida, empoierado, talvez. Mas que não se encontra em muitos calhamaços que sobre eles há nos arquivos do colégio.
Todos os ex-alunos estão intimados a enviar notícias, artigos, reportagens, crônicas, poesias. Tudo enfim para que essa seção possa ser mantida. As colaborações devem ser enviadas para:
Jornal Santa Cruz
Colégio Santa Cruz Caixa Postal, 8258
São Paulo - Capital
Neste número a crônica: "Fotonovela", de Francisco Buarque de Hollanda, que se encontrava em nossos arquivos.
Fotonovela
Onde uma ia, outra ia, o que uma apreciava, apreciava a outra, o penteado da primeira era o penteado da segunda, e suas roupas, sem coincidir, jamais descombinavam. Assim eram Taís e Tereza, amigas como raramente se vê fora do cinema, televisão ou fotonovela, onde as personagens não têm tempo para cansar-se dos imutáveis programas e fisionomias.
Estudantes de dezoito anos, com uma série de caracteres comuns, traços físicos, reações sentimentais, traumas psíquicos, Taís e Tereza tinham como afinidades mais sérias, as modas de além-mar e o chamado curso de "espera marido". A leitora talvez conheça casos idênticos, amizades doentias, inabaláveis, e freqüentemente envenenadas de ciúmes. Eu não vou dizer que conheço, por que é mentira, mas sei que é um mal, e um mal de coração. O que torna tudo mais grave, posto que o amor não aceita a eficácia de um remédio inofensivo. Todos perceberam que, no caso, o remédio será um rapagão que, modéstia à parte, é uma penicilina e tanto para mal de mulher. Confesso que, por infelicidade, meu continho vai tomando um ar de fotonovela. Quem não gostou pode ir ficando por aí, que ainda tem mais. Pois bem, nosso fotonovelístico personagem entrava na história a 120 km. p/h. numa Ferrari vermeha, fiel ao padrão do príncipe encantado, é alto, forte, moreno, médico diplomado sem jamais trabalhar, pois aos vinte e cinco anos, já tem seu futuro assegurado, principalmente porque no momento, ele deve preocupar-se somente do enredo da fotonovela. A única atenuante, é que nosso homem não tem por nome Billy, ou Jerry, nem ao menos um latino Gian Carlo. Chama-se Alarico.
Pulando algumas páginas de menor interesse, vamos encontrar Alarico e Taís de mãos dadas e olhares sonolentos, bandeiras inconfundíveis do namoro-modelo, que para quem não sabe fica definido como uma "instituição social cujas atividades se dividem entre dança, sábado à noite, e cinema, domingo à tarde, com direito a beijinhos e ciúmes. A organização tem por lei não olhar para terceiros na presença do par convencional sob pena variável de um a dois sábados sem baile. A instituição ainda indica ao modelar ultrajado um pilequinho de rum diante de testemunhas de confiança, seguido de opção por reconciliação ou novo engajamento".
Assim se divertiam os três, pois Teresa continuava a acompanhar Taís em seus cinemas bailes e passeios de automóvel. É fácil imaginar que seus ciúmes crescentes mal conseguem se acomodar. Tereza se sente traída, e Alarico se dá conta pela metade, interpretando a seu gosto os ciúmes mal ocultos da amiga de sua namorada. É assim que sentindo-se um pouco ridículo, com seus 25 anos no papel ignóbil e adolescente de namorado-modelo, Alarico parte para a aventura, trocando de namorada. Ó cega vaidade masculina, não vê que ela o rouba à outra, por ódio a ti e amor àquela. Claro como água e depois vais beber, chorando que o coração de mulher é um mistério.
Invertem-se os papéis e cria-se um triângulo quase original, onde os três vértices aparecem ativos e indispensáveis. Alarico ama Tereza, que ama Taís, que ama Alarico, e quase que se plagia o velho Drummond. A mudança ocorre quase sem atrito, de tal forma que Tereza passa a amar Alarico por tabelinha como se diz na gíria. E Taís, pivô desse amor desencontrado toma o antigo papel da amiga, substituindo o ciúme por uma potente arma tipicamente feminina, que atende pelo simpático apelido de "dor de cotovelo".
"Porque eu não sei como é que você pode suportar o Alarico. Só fala de automóveis, não sabe o que é casamento... Eu não agüentei, chutei ele".
"Mas ele diz que foi ele quem te chutou".
"Tá vendo, além de tudo não tem caráter".
Com os dias, a influência de Taís vai crescendo, em contraste com o prestígio de seu ex-namorado. Alarico experimenta mil e um recursos de sobrevivência. Tenta separar Tereza de Taís contrariando as leis do magnetismo, exalta a primeira e rebaixa a segunda, contrariando as leis da gravidade, tenta tudo em vão, sem perceber que as duas são uma só. Por fim, ainda ousa introduzir ao conto um quarto personagem e isso, protesto, sem a autorização do próprio autor. O intruso, seu primo Belmiro, tem por função cativar a despeitosa Taís. Sucede que além de gordo, baixo e chato, o coitado nem bicicleta tem, o que completa sua incapacidade de cativação.
É assim que nitidamente sem outra saída, Alarico sai da história tão rápido quanto entrara. E eis-me aqui desanimado, desorientado, desclassificado até como fotonovelista, com um personagem a mais em meu conto, e um ponto a menos em minha auto-cotação. Numa inútil reabilitação, Belmiro sai também da história pendurado num bonde.
Sobram Taís e Tereza, fiéis amigas do princípio desta inofensiva crônica. E sobra com elas uma oportunidade para qualquer dia desses, quem sabe, dar outro fim a este ponto de parto de partida tão promissor.