O retrato do artista

Revista dos Bancários - 04/07/2004

Vitor Nuzzi

No final de 1964, um jovem cantor, 20 anos, recebeu o seu primeiro cachê, equivalente a 30 dólares (em moeda nacional, acima do salário mínimo da época), por uma apresentação em Campinas. Gastou o dinheiro em um passeio pelo interior. E levou bronca da mãe, quando ela soube que seu filho do meio havia recebido dinheiro para cantar.

Marcado pelo golpe que derrubou o presidente João Goulart, 1964 foi também o ano da primeira apresentação desse mesmo jovem em São Paulo, em um show no Colégio Santa Cruz. Foi, segundo o próprio, o marco zero da carreira de Chico Buarque, ou Francisco Buarque de Hollanda, que em 19 de junho completa 60 anos – provavelmente sem alarde, como é de seu estilo. Filho de escritor e o quarto de sete filhos, ele nasceu em um hospital no tradicional Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Morou em São Paulo e em Roma, onde é Francesco.

“São muitos os escritores que têm a música como eixo vital. García Márquez cantou a sério, na juventude. Mas, ao menos que eu saiba, jamais compôs canção alguma. Julio Cortázar disse e redisse que se pudesse escolher teria preferido ser músico de jazz a escritor. Chico não precisou enfrentar a tensão da escolha: sempre viveu cercado de músicas e leituras, e agora compõe e escreve”, definiu o escritor Eric Nepomuceno, que um dia recebeu telefonema do amigo para saber em que lugar ele, Eric, gostaria de ficar na estante.

“Chico tem um ar de bom rapaz, esses que todas as mães com filhas casadoiras gostariam de ter como genro. Esse ar vem da bondade misturada com bom humor, melancolia e honestidade. Tem o ar crédulo, mas diz que não é, é apenas muito preguiçoso”, escreveu, em 1971, a escritora Clarice Lispector.

Em 1971, Chico e a mulher Marieta Severo (com quem viveu durante 30 anos) já haviam voltado do exílio na Itália, e com uma bagagem preciosa: a filha, Sílvia, apadrinhada por Vinícius de Moraes. Depois, viriam Helena e Luísa.

Foram, segundo reportagem de capa da revista Manchete (4 de abril de 1970), 443 dias fora do Brasil. Um exílio inevitável, já que os tempos andavam difíceis – principalmente após a decretação, em dezembro de 1968, do AI-5. Roma não chegava a ser novidade. Ao lado da mãe, dona Maria Amélia, e dos irmãos, Francesco desembarcara pela primeira vez na capital italiana em fevereiro de 1953. O pai, o escritor e historiador Sérgio Buarque de Hollanda – tema de documentário recente do cineasta Nelson Pereira dos Santos –, já estava lá, como professor de Estudos Brasileiros.

Chico estranhou a primeira noite no palazzo (edifício antigo) da Via San Mariano, mas foi se acostumando, ele mesmo conta, com a pastaciutta, o copo de vinho, os cines Capranica e Capranichetta. E viu, certa noite, o cineasta Federico Fellini sair de um restaurante. Viu e ficou mudo, “porque me pareceu que viesse a cavalo”. Enfim, havia “amore e fantasia”, lembrou, ao receber em 2003 o prêmio Roma-Brasília das mãos do prefeito romano.

Dos sete filhos de Sérgio e Maria Amélia, quatro se envolveram com música, a começar pela primogênita, Miúcha. Foi ela que teve de correr à delegacia em dezembro de 1961 para libertar o irmão de 17 anos, preso com um amigo por furtar um carro nas proximidades do estádio do Pacaembu, onde morava a família (a famosa casa da Rua Buri fica em frente à Praça Raízes do Brasil, homenagem a Sérgio Buarque). A travessura viraria a primeira aparição pública de Chico Buarque na imprensa. No jornal Última Hora, ele e o colega aparecem de olhos vendados: “Pivetes furtaram um carro. Presos”. Um deles era o menor F.B.H. Não foi bem uma estréia triunfal.

Estudante de Arquitetura, boêmio-bom- de-copo, com apelido de Carioca em São Paulo, Chico não tardaria a largar a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP. A música fisgou-o em definitivo após a audição do LP Chega de Saudade, de João Gilberto, no final dos anos 50. “Tão logo dominou a batida da Bossa Nova, Chico começou a compor”, conta Humberto Werneck em livro de 1989. Os anos 60 foram de grande agitação cultural e política. No livro, Werneck conta que o golpe de 1964 foi uma decepção para Chico principalmente pela falta de reação. Ele chegou a guardar na garagem de casa garrafas destinadas à confecção de coquetéis molotov, que nunca foram feitos.

“Acusado” de comunista – chegou a receber bilhetes ameaçadores do antigo Comando de Caça aos Comunistas –, Chico nunca teve filiação partidária, embora sempre tenha participado de atividades políticas. Viagens a Cuba e Angola, a partir do final dos anos 70, reforçaram a imagem de “esquerdista”. O que o incomodava era a cobrança: “A pressão contra o posicionamento político nunca me inibiu, o que me inibia era a pressão a favor. (...) Parei de fazer show por isso. (...) A minha música passou a ser menos importante do que aquilo que esperavam que eu dissesse”.

Motor
Para o amigo Frei Betto, a indignação é que o move. “Chico não é um militante, desses que exibem carteirinha de partido e atestado de tendência ideológica. Nem ‘militonto’, que pula de palco em palco, acreditando que, com o seu violão, vai salvar a pátria e acabar com a fome do Brasil”, escreveu, no livro Cotidiano e Mistério. “Chico tem uma grande liberdade de pensamento. Tem idéias muito firmes a respeito de certas coisas. Só que catalogavam, rotulavam, tentavam dar conotações”, reforça Marieta, em depoimento à jornalista Regina Zappa, autora de livro sobre Chico.

Com fama de tímido, ele era mais envergonhado. Tanto que em programas da antiga TV Tupi, o produtor Fernando Faro teve a idéia de apontar a câmera de baixo para cima, porque ele sempre ficava com o rosto voltado para o chão. “Lembro de um programa em que ele me disse que tinha uma música que queria estrear. Era Olê, Olá”, recorda Faro, para quem Chico seja talvez “a principal figura da cultura brasileira: poeta, compositor, escritor”. Os dois se conhecem há mais de quarenta anos. “Nossa amizade começou com o futebol”, conta Faro.

Torcedor do Fluminense, Chico, não satisfeito, criou o seu próprio time, o Politheama, com direito a hino. Para ele, futebol é sagrado. Certamente não foi por outro motivo que Tom Jobim, em Carta ao Chico (1989), concluiu assim, em referência a poema de Carlos Drummond de Andrade sobre Charlie Chaplin: “Ó Francisco, nosso querido amigo/Tuas chuteiras caminham numa estrada de pó e esperança”.

A fama surgiu em 1966, com a vitória no festival da Record com A Banda, interpretada por Nara Leão. O prêmio foi dividido com Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, interpretada por Jair Rodrigues. Dividido por imposição de Chico, que avisou que não iria receber o prêmio se A Banda vencesse, segundo revelou o jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello. A Banda de fato venceu, sete votos contra cinco, mas os jurados e a Record mudaram o resultado, estabelecendo o empate, para evitar polêmica.

Esse rigor de Chico pode ser notado até mesmo em seu site oficial na internet, criado no final de 1998. “Ele fez a revisão de todas as letras. Quando sugeri que puséssemos críticas, pediu: tá bom, desde que coloque crítica que meta o pau também”, revela o curador do site, Wagner Homem. Ele recebe, “na baixa”, cem e-mails por dia. “Setenta por cento é gente querendo saber se tem show”, explica Wagner, que tem uma pasta chamada “Coisas estranhas”, com mensagens incomuns destinadas a Chico – que, aliás, não usa internet. “Algumas coisas eu mando por fax”, diz o curador. São pessoas querendo contratá-lo, outras que mandam músicas... Houve quem quisesse ter aula de piano com Chico Buarque. E já aconteceu de um antigo professor do Colégio Santa Cruz entrar em contato e mandar fotos.

Nos anos 70, ficaram famosos os embates de Chico com a censura. A marcação se intensificou a partir de 1970, com Apesar de Você, que virou hino contra a ditadura, em seu período mais feroz (assim como Vai Passar viraria, em 1985, hino informal do fim do regime). A perseguição era tanta que o compositor criou um pseudônimo, Julinho da Adelaide, e gravou música com esse nome, para despistar os censores – “Julinho”, inclusive, deu entrevista antológica ao jornal Última Hora, em 1974. A brincadeira acabou quando a censura passou a exigir documentos do autor para liberar a obra.

Cálice, composta por ele e por Gilberto Gil, hoje ministro da Cultura, ficou cinco anos na gaveta. Durante o show Phono 73, em São Paulo, Chico tentou cantá-la, mas à medida que se aproximava dos microfones eles iam sendo desligados. A música só seria gravada (com Chico e Milton Nascimento) em 1978, período em que se falava na abertura política com mais insistência. Foi quando o movimento sindical começou a ressurgir, contando com apoio de Chico em atividades para arrecadar fundos.

Os vaivéns com a censura renderam histórias curiosas. Em show com Maria Bethânia no Rio de Janeiro, o censor presente à apresentação queria proibir Tanto Mar. E era ninguém menos que Augusto, zagueiro do Brasil na Copa de 1950, perdida para o Uruguai em pleno Maracanã. Chico não deixou por menos: “Porra, Augusto, você perde a Copa e ainda vem me aporrinhar...” No show, Tanto Mar foi apenas tocada, sem a letra.

Criação
Uma das perguntas que Chico mais ouve é sobre seu processo de criação. “É uma coisa muito íntima, você tem que estar sozinho, com suas caretas e esgares, como diz um poema do João Cabral”, disse em entrevista em 2000. Em 1965, o jovem Chico Buarque musicou o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. “Às vezes tem aquela coisa, parece que tá tudo na mão, mas falta uma coisinha... Mas não tem sofrimento, não”, afirmou na mesma entrevista, à revista Bundas.

Claro que nem sempre é fácil. O compositor argentino Astor Piazzolla, já falecido, foi uma das “vítimas” de Chico. Certa vez, ele mandou uma música para Chico fazer letra – que nunca saiu. Ficou aborrecido, mas acabou sendo acalmado por Tom Jobim, homenageado por Chico na música Paratodos (“Meu maestro soberano/Foi Antônio Brasileiro”). Na vida real, eles às vezes brigavam na hora de compor. A música Wave tem uma participação curiosa de Chico: apenas o primeiro verso (“Vou te contar...”). “Não saía nada além do “vou te contar”, e aí ele disse: pô, Chico, você não quer ficar rico?”, contou o compositor, lembrando da brincadeira do amigo.

Algumas das composições deram origem a lendas. Apesar de Você seria um recado direto ao então presidente Emílio Garrastazu Médici. Jorge Maravilha teria referência a Ernesto Geisel (“Você não gosta de mim/Mas sua filha gosta”). E até no trabalho mais recente, As Cidades (1999), houve quem percebesse indícios de uma indireta a Fernando Henrique Cardoso em Injuriado. Chico sempre contestou essas teses. Mas Jorge Maravilha, pelo menos, foi feita pensando nos policiais que iam prendê-lo durante os anos 70 e, no elevador, pediam autógrafo para a filha. Nas eleições municipais de 1985 em São Paulo, Chico chegou a fazer versão de Vai Passar para apoiar Fernando Henrique, (o vencedor foi Jânio Quadros). Em 1989, 1994, 1998 e 2002, apoiou Lula nas eleições presidenciais. Neste ano, manifestou preocupação com os rumos do governo.

Bomba
Apesar da grave crise econômica em seus primeiros anos, a década de 80 trouxe de volta a democracia. Com sustos como o do Riocentro, em 1981, quando uma bomba levada por militares explodiu antes do tempo enquanto artistas se apresentam em show comemorativo ao 1º de Maio – Chico era um dos organizadores. Em 1984, ano em que as Diretas-já não passariam no Congresso, ele fazia uma espécie de acerto de contas com Vai Passar (“Dormia a nossa pátria-mãe tão distraída/Sem saber que era subtraída/Em tenebrosas transações”).

A partir do final dos anos 80, os discos e apresentações tornaram-se mais esparsos: Francisco (1987), Chico Buarque (1989), Paratodos (1993) e As Cidades (1999) foram os mais recentes. O primeiro LP saiu em 1966. De lá para cá, são quase vinte discos-solo, sem contar os projetos e shows gravados. Ele também escreveu peças (Roda Viva, Calabar, com Ruy Guerra, Gota d’Água, com Paulo Pontes, e Ópera do Malandro) e uma “novela pecuária” (Fazenda Modelo).

Nos últimos doze anos, mergulhou na literatura, com Estorvo (1991), Benjamim (1995) e, ano passado, Budapeste. Uma nova face do compositor de olhos ardósia que ainda faz suspirar o público feminino. Um homem, como ele mesmo disse, que “não se veste de celebridade”, ou “um andarilho contumaz”. Que gosta de caminhar, falar sobre futebol – e, às vezes, cantar. “Enquanto eu puder sorrir, enquanto eu puder cantar, alguém vai ter de me ouvir.”