O Pasquim - 1969
É difícil voltar a O PASQUIM depois de tanta ausência,
principalmente porque prometi, e vou ficar devendo, uma
entrevista com Josephine Baker. Para quem não se lembra ou
não era nascido, Josephine foi a bacana lá da Martinica, a tal
que se vestia de banana nanica. Profetizou a minissaia,
valorizou a pele mulata, espalhou o charleston, depertou
paixões e escandalizou os puros. Pouco a pouco foi trocando o
escândalo pela caridade pública, as bananas pelo vestido
longo. Hoje, com 63 anos, volta ao palco porque não tem
outros meios e precisa sustentar 14 filhos adotivos.
Acompanhei-a, junto ao bravíssimo chitarrista brasiliano
Toquiño, em seus 45 dias de tournée pela Itália. 45 vezes
esperei a oportunidade de lhe falar d'O PASQUIM, do Sérgio
Cabral que reclama e da leitora que me chama de relapso. Mas
Josephine só dá entrevistas coletivas, sempre muito simpática,
sempre muito profissional, sempre mãe adotiva de 14 crianças
de todas as raças. Evidentemente não a impressionei, nem
como repórter amador, muito menos como menino
desamparado. Num desses coquetéis à imprensa cheguei até a
posar ao lado dela para as fotografias. Dia seguinte comprei
todos os jornais, mas só deu retrato de Josephine Baker às
vezes com um pedaço de bochecha minha. Sem fotos e sem
entrevista, resta-me a lembrança de 45 espetáculos assistidos
vagamente dos bastidores.
Josephine entra em cena pedindo desculpas, pois na sua idade
não há pernas que agüentem um charleston. Aí ela dança um
charleston. Hélas, mes amis, já não tenho pernas para a
minissaia. Aí ela senta lá dum jeito que o público aplaude com
entusiasmo os 63 anos sem varizes ou celulite. Segue uma
bossa-nova francesa que não é boa não. Boa é a sua
interpretação de "La vie en rose". Fala de Edith Piaf com muito
carinho, muda para um potpourri de boogie-woogies, desce à
platéia e vai conversar com a primeira fila. Geralmente perco
essa parte do show porque tem alguém que me procura no
camarim. Chego lá, não paga dez, é brasileiro.
"Eu estava aqui passando e vi seu nome..."
Brasileiro está sempre passando em qualquer fim-de-mundo.
Feitas as confraternizações pergunto como vão as coisa no
Brasil e o brasileiro diz que vão mal, apesar da classificação
nas eliminatórias para o México. No resto, diz ele que as coisas
vão muito mal porque a televisão é aquela mesma coisa, os
programas não mudam, só tem um agora que as pessoas ficam
provocando até que Rio e São Paulo começam a brigar. "Fora
isso, Juca, muitas saudades de você, daquela sua música, A
praça, minha filha sempre pergunta onde é que anda o Juca, e
tem meu filho que todo mundo acha que é a sua cara." Antes
de se despedir, o brasileiro ainda me chama de Juca umas
cinco vezes e diz que é meu muito admirador. Voltando ao
show, encontro tudo mudado, a luz roxa, a música solene e
Josephine que dedica uma mensagem de paz à humanidade.
Canta "Quand je pense a ça", e o ça que ela pensa são os
pobres órfãos, as guerras, os preconceitos raciais, etc.
Quando pensa nisso, dá-lhe uma espécie de tonteira e ela cai
no chão com as mãos no rosto, a cortina sobe e desce, o
público aplaude e só então ela esquece os pobres órfãos, as
guerras e os preconceitos raciais. Levanta-se e manda todo
mundo sorrir ao amor, sorrir à vida, sorrir ao próximo, sourrir
toujours sourrir, encerrando o espetáculo com aquilo que o Ciro
Monteiro costuma chamar de hipotenusa final.
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