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E N T R E V I S T A E X C L U S I V A |
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E X - C E N S O R |
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A idéia desta entrevista surgiu quando eu falava com um amigo sobre este site. Ele me disse que seu pai havia sido censor. Mesmo sem saber se ele tivera ou não alguma relação com as tesouradas na obra de Chico, pensei em entrevistá-lo. Surgiam dois problemas: um, se o Chico toparia. Ele topou. O outro, mais difícil no entender do meu parceiro Miltão, da CPC, era se Lúcio, o próprio censor toparia. Ele também topou e a entrevista foi feita no dia 2 de novembro de 1998, por telefone. Carlos Lúcio Menezes, 69 anos, aposentou-se como censor em 1981. Casado, dois filhos, cinco netos, formou-se em Jornalismo, Relações Públicas e Pedagogia. Fez curso de extensão universitária em Cinema, na Universidade Católica de Minas Gerais e iniciou, mas não concluiu, o curso de Direito. Trabalhou na Assessoria de Imprensa dos presidentes da República Médici e Geisel. Depois de ser entrevistado, Lúcio deu o seguinte depoimento:
O editor |
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Antes de ser censor o que você fazia? Em qual jornal você trabalhava? E você cobria que área? E como você resolveu entrar para a censura? Existia um concurso? Você lembra o nome da peça?
De modo que naquela época eu já tinha uma ligação com a parte artística. Trabalhei em rádio fazendo também rádio-novela, que naquela época era rádio-teatro, uma coisa muito incipiente na minha terra e .... Você disse que foi convidado a integrar a censura. Isso me leva a crer que não havia, então, concurso. Ou havia um concurso? |
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Desde que ano a censura prévia existiu, de maneira institucionalizada? Não vamos falar do velho DIP. Vamos falar do pós-revolução. Isso foi em que ano, Lúcio? A censura prévia, em que era obrigatório todo mundo mandar todos os textos antes, após a revolução de 64, foi institucionalizada quando? Em que ano foi isso, Lúcio? Mas ainda não havia uma obrigatoriedade de se mandar tudo para o Serviço de Censura? Eu pergunto, este fato, quando é que ele começou a acontecer? Em 60? Quer dizer que isso ocorria mesmo antes de 1964? |
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E você ficou na censura até que ano? Me parece que você se aposentou na censura. Ainda hoje existe alguém que tenha esse cargo de censor, se é que ele existe e que esteja no Governo Federal? Volto a perguntar. Em um determinado momento você foi convidado a integrar o serviço de censura. E depois você participou até da reformulação da lei da censura, pelo que eu entendi, no sentido de tentar institucionalizá-la, etc. Existia, depois dessa época, algum requisito para pessoa ser censor? Veio a existir concurso para censor? Então deixa eu fazer mais um parênteses. O Augusto, que foi zagueiro na copa de 50... Ele tinha curso superior? Porque ele era censor... Você sabe que num show com a Bethânia, acho que quando a letra de uma música do Chico chamada Tanto mar foi proibida, o Augusto é que foi proibir. Aí, dizem que o Chico falou: Porra, além de você perder a copa de 50, ainda vem me aporrinhar... |
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Hoje em dia, é relativamente comum um jogador de futebol ter nível superior. O cara vai e faz Educação Física, faz alguma coisa... Eu também não sei.. Vou tentar descobrir. Um censor - se tinha ou não esse nome não importa - depois que o cargo foi institucionalizado, ganhava bem? Dá para você lembrar mais ou menos, comparando com a média salarial? A não ser a regalia dos Avant première... de poder ver os espetáculos em primeira mão. Depois desse trabalho de institucionalização existia realmente um manual com regras muito claras, do tipo, "isso pode, aquilo não pode; a palavra tal pode, palavra tal não pode: pode-se citar fulano, não se pode citar fulano". Eu volto a insistir, a gente está falando mais do período pós 66, que é o período que a gente abrange no site do Chico. Eu gosto. Muito. Aí você me apertou... |
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É como em Santa Catarina. Em Santa Catarina é assim também. Eu vou dar um exemplo com uma música do Chico. Lá pelas tantas a personagem fala "me agarrei nos teu cabelos, nos teus pêlos". Num determinado momento a palavra pêlo foi proibida. A música se chama Atrás da porta. Isso aconteceu em 72 ou coisa que o valha. Existiam algumas outras palavras como pentelho, isso foi proibido. Proibições desse tipo eram da alçada do censor. Não estavam em regra básica? Um dos episódios mais marcantes da censura em relação a obra teatral do Chico Buarque foi o caso da peça Calabar. Você tem alguma notícia disso? Participou? Soube? Saber, seguramente você soube disso, não é? Parece que no Calabar, houve um desrespeito, segundo se lê nas diversas entrevistas sobre isso, um desrespeito às próprias regras da censura. Porque a peça passou por todos os rituais da censura, ou seja: manda o texto, discute, tira ali, corta aqui etc. A peça estava pronta para ser encenada e a censura não compareceu ao espetáculo destinado à apreciação... Ensaio Geral. Simplesmente não apareceu ninguém uma pessoa da censura avocou o texto para exame superior e a coisa morreu por aí. Só oito anos depois é que a peça foi liberada. Os produtores faliram etc. Então, até o próprio ritual da censura teria sido desrespeitado nessa altura, segundo o Chico, os diretores e os produtores. E ainda aconteceu um outro episódio: foi proibido divulgar a proibição. |
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Existia alguma espécie de marcação homem a homem? Por exemplo: fulano de tal marca o Caetano Veloso, ou se especializa nas letras de Caetano Veloso; fulano de tal se especializa nas letras do Chico Buarque, ou coisa que o valha? Então, fazendo um gancho com volume de trabalho, o Chico deu uma entrevista para o Jô Soares, falando exatamente do volume de trabalho. Ele disse mais ou menos o seguinte: "O negócio tava meio feio e eu imaginava aqueles censores entupidos de trabalho, com a mesa cheia de coisas e eu já era um cara meio marcado. Então, se eu inventar um outro nome, as coisas passam." Foi aí que ele inventou o tal do Julinho da Adelaide. Então, o pressuposto de Chico estava certo? Volume de trabalho tinha. O episódio do Julinho da Adelaide ficou muito famoso. O Chico inventou aquele heterônimo, chegou até a dar entrevistas, e esse heterônimo teve três músicas aprovadas pela censura. Tempos depois, em 75, a coisa foi desmascarada e todo mundo sabia que era o Chico Buarque. Alguém deve "ter pago o mico" por conta disso dentro da censura. Ou não? Esse Julinho da Adelaide fez três músicas. E era o Chico Buarque. E com isso ele conseguiu driblar, segundo ele, a censura. Lúcio, se alguém pergunta a qualquer pessoa se gosta do seu trabalho, a pessoa diz que tem hora que sim, tem hora que não. Tem prazer, tem desprazer. Quais teriam sido os seus prazeres e os seus desprazeres nessa função de censor? Você pode exemplificar? E o desprazer? Tem algum de que você se lembre especificamente? Você me contou, ontem, um episódio interessante, que eu gostaria que você repetisse e que é a história que aconteceu em Brasília. As sociedades arrecadadoras de direitos, não é? |
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E esse episódio de Brasília? Como é que foi? Eles queriam cobrar do Chico para ele poder cantar as próprias músicas. Queriam que o espetáculo fosse censurado, é isso? - "O Chico vai cantar essas músicas que são da autoria dele." Muito bem. A entidade foi e arbitrou uma taxa. Mas depois ele quis aumentar a taxa. Eu disse:
E liberei. Assumi a responsabilidade. O Chico nem sabe disso. Mas vai saber. Como é que você via, naquela época, e como é que você vê hoje a obra do Chico? Tem alguma música do Chico de que você goste e que você, de vez em quando, se surpreende assobiando por exemplo? Por exemplo.... Fala uma de que você não gosta. Você foi muito enfático quando falou "tem algumas que eu não gosto". Então, essa você deve saber exemplificar... Geni? |
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(com cara de bobo, perplexo) Eu não sei. Posso até tentar descobrir... Mas onde que pegava a Geni? Era na palavra "bosta" ou no fato de ser uma narração de um homossexual? Deve ter causado um belo rebuliço. A censura recebia muitas cartas de gente pedindo para censurar isso ou aquilo? A pessoa que nos aproximou, que foi o Zé Carlos, me disse que você gostava muito do Glauber Rocha e, agora entre aspas, "pena que ele era subversivo". Voltando um pouco à questão da censura de palavras, ao caso do "joga bosta na Geni"... Hoje, a coisa tá muito mais liberada. Você vê esses conjuntos todos aí, com um gestual muito mais insinuante, com palavras muito mais fortes etc. A minha pergunta é a seguinte: Qual é sua opinião? Deveria haver censura prévia hoje? Não deveria? A coisa tá muito liberal? Não tá? O tempo mudou e tem que ser assim? Como é que você vê isso hoje? Censura classificatória. Alguns episódios relacionados ao Chico, como invasão de teatro, eram coisa de grupos paramilitares. Óbvio que isso não tinha á nada a ver com o serviço de censura... Invasão de teatro. Roda viva, aqui em São Paulo. O grupo paramilitar CCC invadiu o teatro, espancou atores etc. Isso, com o espetáculo liberado, pois o espetáculo só podia estar sendo encenado, se estivesse liberado. Sobre o episódio de Roda viva, você tem alguma informação? Não só aqui em São Paulo. No Rio Grande do Sul, o espetáculo estreou e não teve a segunda apresentação porque seqüestraram até atores. Não... Obviamente... eu acredito que não. Eram grupos paramilitares mais ou menos comuns na época, o chamado CCC. |
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