Nota sobre Partido alto
Por Humberto Werneck

  Letra 

De bem com o público e de mal com a censura, Chico Buarque desenvolveu intensa atividade artística em 1972, que incluiu a participação como ator e autor da trilha sonora no filme "Quando o Carnaval Chegar", a peça musical "Calabar" (que não chegou a ser encenada), versões para o espetáculo "O Homem de La Mancha" e, por fim, um show com Caetano Veloso, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Uma das músicas compostas para o filme foi o samba "Partido Alto", que se tornou um sucesso, em gravação do MPB 4. Imitando, sem rigorismo musicológico, essa forma primitiva de samba, ele criou uma espirituosa letra em que, entremeadas por um refrão, são cantadas quatro estrofes, procurando dar a impressão de que elas estão sendo improvisadas por partideiros. E sem prejuízo do humor, aproveitou para lançar mais algumas farpas contra a ditadura - "Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia / Deus me deu muitas saudades e muita preguiça / Deus me deu pernas compridas e muita malícia / pra correr atrás de bola e fugir da polícia / um dia ainda sou notícia..." Como era fácil de prever, a censura considerou o samba "uma ofensa ao povo brasileiro" e só consentiu em sua liberação depois de vetar algumas palavras como "titica" ("Como é que pôs no mundo essa pouca titica", que passou a "pobre coisica") e "brasileiro" ("Na barriga da miséria eu nasci brasileiro", substituído por "batuqueiro"). "Partido Alto" tem uma versão francesa com o curioso título de "Qui Ces't Lui-lá?"

Fonte: Livro 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34
 

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