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Notas sobre Vence na vida quem diz sim Por Humberto Werneck |
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Era imprevisível o que aconteceria a uma canção enviada à Policia Federal — e todas, evidentemente, tinham que passar por lá. Quase sempre era preciso argumentar e negociar com os censores. No caso de Chico, isso era feito através dos advogados da gravadora, porque ele, por princípio, se recusava a dialogar com a censura. A batalha, algumas raras vezes, dava certo. Na parte final de Flor da idade, por exemplo, baseada no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, uma vertiginosa ciranda de amores acaba por acasalar dois homens, Paulo e Juca, para o escândalo das autoridades. Em carta aos advogados, Chico citou o dicionário para argumentar que o verbo "amar" nem sempre tem conteúdo erótico. A música passou. A mesma sorte não teve Vence na vida quem diz sim — não adiantou Chico, muito sério, propor a troca de uma palavra: Vence na vida quem diz não. Às vezes, ele provocava — fazendo, por exemplo, irônicos elogios à censura, que se via então forçada a proibir também os comentários a favor. Em lugar de Cálice, vetadíssima, escrevia Pai na relação de músicas que obrigatoriamente era apresentada à Polícia Federal antes dos shows; havia sempre a chance de o funcionário bobear, e em alguns casos aconteceu.
© Copyright Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989 | |||
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