| E teve sua Sabiá, feita com Tom Jobim, soterrada por vaias quase unânimes no Maracanãzinho, a 29 de setembro de 1968, no final da fase brasileira do III Festival Internacional da Canção. "A mais sonora vaia já acontecida em toda a história dos festivais de música popular", descreveu o repórter da Folha de S. Paulo. Maior mesmo que a que fora despejada sobre Caetano e sua É proibido proibir, duas semanas antes, no TUCA, na primeira eliminatória paulista do FIC. Dessa vaia no Maracanãzinho Chico escapou - estava em Veneza quando os apupos dos torcedores de outra finalista, Caminhando ou Para não dizer que não falei de flores, de Vandré, ensurdeciam Sabiá, mesmo assim premiada. "Por favor, venha, não me deixe só", pediu Tom num telegrama patético que o amigo interpretou como brincadeira. Mas pegou o avião e desembarcou no Rio no dia da vitória de Sabiá (que foi composta para a soprano Maria Lúcia Godoy e antes de ter letra se chamou Gávea) na finalíssima da fase internacional. O público havia esgotado seu estoque de vaias, mas as críticas continuavam. Comparada com o engajamento explícito da música de Geraldo Vandré, Sabiá, como Bom tempo, meses antes, era vista como uma canção desvinculada da realidade nacional. A pouca gente, naquele instante de exaltação, ocorreu tomá-la como uma nova e premonitória canção do exílio.
© Copyright Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989
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