Notas sobre A banda
Por Adélia Bezerra de Meneses

  Letra 

Outra metamorfose do Carnaval é a "banda" - que passa, "cantando coisas de amor", transfigurando a realidade. Sua passagem altera o modo de ser das mais diferentes pessoas: o homem sério, o faroleiro, a namorada, a moça triste, a meninada, o velho fraco, a moça feia - todos, sintetizados em:

"A minha gente sofrida que
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
"

Trata-se, evidentemente, do apelo órfico do canto, da música, do ritmo, da dança, que infringe o princípio de individuação, que rompe o isolamento dos indivíduos. A Banda é o próprio cortejo dionisíaco, cuja passagem não altera só o mundo humano, mas transfigura toda a natureza. Convocando-a:

"A rosa triste que vivia fechada, se abriu
A lua cheia que vivia escondida, surgiu
"

- Estabelece-se uma comunhão de que os homens e a natureza participam:

"Sob o encanto de Dionísio, é insuficiente dizer-se que a fraternidade renasce: a natureza, tornada estranha, hostil ou reduzida à servidão, celebra sua reconciliação com o homem, seu filho pródigo. (...) Nesse momento o escravo é um homem livre; nesse momento vemos que cedem todas as rígidas e constrangentes barreiras que a necessidade, o arbítrio e a "moda insolente" estabeleceram entre os homens. Nesse momento, no evangelho da harmonia universal, cada um se sente não somente unido, reconciliado, confundido com seu próximo, mas um com ele, como se o véu de Maia se estraçalhasse e que só seus farrapos flutuassem em torno do mistério da unidade primitiva. É por cantos e danças que o homem se manifesta como membro de uma coletividade que o ultrapassa." (Nietzsche: La Naissance de le tragédie. Paris, Denoel-Gontthier, 1964, p. 21)

Mas este estado de comunhão e euforia que o cortejo dionisíaco instaura é fugaz, dura apenas enquanto dura a canção:


"Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
E em cada canto uma dor
Depois que a Banda passou
Cantando coisas de amor"


Depois que a banda passa, a realidade de novo se desencanta. Em Tem mais samba, uma das primeiras composições de Chico, o sofrimento é conjurado pelo samba.

Fonte: Desenho mágico, Adélia Bezerra de Meneses, Editora Hucitec, 1982
Parte I - Lirismo Nostágico, página 54


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