Notas sobre Sabiá (Entrevista)
Por Luiz Roberto de Oliveira

Letra 

Luiz Roberto - Como é que foi Sabiá? A letra é sua inteirinha?

Chico Buarque - A letra é minha.

LR - Eu ouvi dizer que, quando vocês estavam fazendo a música, você viajou, e que o Tom completou os últimos versos.

CB - Não, essa história é a seguinte: eu fiz a letra, terminei a letra - e quando eu viajei, ou um pouco antes de viajar, o Tom achou que tinha que aumentar a letra, e eu ou não tive tempo, ou porque viajei, ou porque não concordei, não aumentei a letra - e dei a letra por terminada ali. Quando eu terminei a letra, ele achou que era insuficiente porque a música repete outras vezes, ele achou que pedia mais uma letra, e eu achei que não pedia. E aí ele fez à minha revelia, na minha ausência, um pedaço de letra, que depois sumiu.

LR - Você lembra?

CB - "Que a nova vida já vai chegar", uma coisa assim "que a solidão vai se acabar", você lembra disso?

LR - Tinha esquecido, agora que você está falando me veio à memória.

CB - Isso ele acrescentou depois, eu não aceitei muito essa.

LR - Houve até alguma gravação em que entraram esses versos.

CB - Sim, chegou a ser gravado, essa é a parte dele que ele resolveu (fazer), mas depois acho que ele voltou atrás, porque mais adiante cantou mil vezes a música e nunca mais cantou esse pedaço.

LR - Exato...

CB - Eu nem falei nada pra ele, fiquei um pouco assim, né... porque não era o combinado.
........
CB - Eu digo, um cara para implicar com minha letra, para mexer, para recusar, para... ele fazia isso porque ele era danado - eu lembro de "Sabiá", a polêmica do "Sabiá" no feminino...

LR - Uma sabiá...

CB - Ele falava: é bom "uma sabiá", porque é linguagem de caçador... caçador não fala um sabiá, fala uma sabiá, uma gambá... e depois, ele gravou "O meu sabiá". (risos)
Ele cantava: "Minha sabiá... o meu sabiá..." O Tom era muito engraçado e eu morria de rir com ele.
Talvez isto escrito pareça uma briga, mas era impossível brigar porque eu achava graça nessas implicâncias dele... era uma coisa de birra meio infantil, então eu achava graça daquele homenzarrão implicando com "Mandei subir meu piano na mangueira"... (risos)... porque eu sabia que era uma coisa de pirraça, de birra mesmo, e era muito engraçado isso nele.

© Luiz Roberto de Oliveira, na Home Page de Tom Jobim

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