Nota sobre Januária
Por Adélia Bezerra de Meneses

  Letra 

As canções dos três primeiros discos de Chico revelam seu inegável distanciamento, fruto de um profunda, intensa, sincera - e adolescente - decepção política. Daí a atitude de quem, como diz Leila Perrone Moisés, fica "Pra ver a vida passar". Ver sem participar. Não apenas a Banda passa, e o poeta chama outros para vê-la passar; o amado de Madalena fica "a ver navios" - atitude semelhante à do namorado em Fica, em Será que cristina volta e em Rita (todos suspirando pelo retorno a uma situação em que a felicidade parece que tinha acontecido).

Há, significativamente, toda uma seqüência de personagens que ficam à janela. Não apenas a Januária (e vamos ficar atentos para o jogo verbal, pois Janus em latim = janela), mas também, como o título da canção indica, a personagem feminina de Ela e sua janela; também a Maria de Juca fica à janela, de onde, aliás, a moça feia se debruça pra ver a Banda passar. Em Carolina, o tempo passa na janela, "lá fora" acontecem as coisas. Há uma relação entre ficar à janela e ficar vendo televisão: não seria essa uma versão modernizada daquela primeira atitude? E esse, aliás, o tema de A televisão, em que se fala de ficar "vendo a vida mais vivida/ que vem lá da televisão".

"Janela" significa uma relação de contigüidade, não de inserção. Uma variante dessa tópica é o muro, que coloca coloca as coisas desejáveis "do lado de lá":

"Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caía
Toda maçã nascia
Do lado de lá tanta ventura"
(Até Pensei)

Várias canções dessa fase revelam um retorno nostálgico, uma busca do primitivo, do ingênuo, do não contaminado pelo consumismo e pela massificação. Num certo nível, isso pode significar uma recusa do mundo industrializado: é também uma forma de poesia de resistência. Mas ao mesmo tempo, há a consciência de que esse primitivo está perdido para sempre. Assim, em O realejo, o poeta resolve vendê-lo, mas sabe que ele está desacreditado. Destaca-se um desencanto precoce, nesse movimento entre o já e o não mais.

Fonte: Desenho mágico, Adélia Bezerra de Meneses, Editora Hucitec, 1982
Parte I - Lirismo Nostágico, página 47