Notas sobre A banda
Da entrevista para o MIS - Museu da Imagem e do Som. - 1966

  Letra 

E - Como é que nasceu A banda? Porque é realmente uma explosão na música popular brasileira, pela repercussão, pelo próprio mito de que ela se constituiu. Como é que nasceu? Como é que você a compôs? Houve alguma inspiração, alguma imagem de infância, alguma coisa?

C - Tem duas coisas. Primeiro esse problema que um jornalista escreveu de que eu não poderia ter escrito A banda porque eu nasci em cidade grande e nunca vi banda. Talvez eu não tivesse visto mesmo. Eu vi, mas não me lembro de nenhuma especialmente que tenha me levado a fazer A banda, mas eu vi. Eu morava na Hadock Lobo, em São Paulo, o terreno de costas era baldio, que é na Rua Augusta. Hoje a Rua Augusta é aquele negócio, mas naquele tempo tinha circo, parque de diversão, eu lembro que tinha bandinha lá. Quando eu estudei em Cataguases havia bandas. Quando estive na Europa eu vi a banda de escoceses, a troca de guarda, que inclusive marcou bastante. Vi que a banda é um negócio alegre para todo mundo, mas não foi um pensamento: vou fazer música com banda. Quando eu voltei da Europa veio aquela onda de fazer coisas, aí que eu fiz uma série de músicas e A banda saiu aí no meio. Eu lembro que fiz até na hora do almoço, não tinha nada aver com banda, estava com fome, esperando o almoço. Eu tive a idéia da imagem da banda passando e vi várias coisas acontecendo. Não saiu a letra antes da música, foi a idéia da letra que saiu antes de qualquer coisa. A idéia da banda passando e das coisas que acontecem. Logo eu tive várias imagens: a moça que vai para janela, o cara contando o dinheiro. Aí peguei o violão e saiu.

E - Sabe a data precisamente?

C - Não sei, mas foi em julho desse ano.

E - Você elaborou a estrutura básica da melodia da música antes do almoço ou almoçou e de barriga cheia fez essa obra prima?

C - (risos) Eu não sei. Quando vem a coisa assim já fico entusiasmado. A coisa melhor do mundo é isso. Faz um tempão que não faço nada, ontem tive a impressão que ia fazer um samba, aí fui buscar o violão, quando achei já não tinha mais vontade. Na hora tem aquela idéia fixa, aí não tem fome, não tem nada.

E - Você não almoçou no dia em que compôs A banda?

C - Almocei sim. Devo ter almoçado mais tarde, com o lápis e papel na mão. Eu fiz quase inteira de estalo, o único problema que ficou foi de mandar a banda embora. Aquele final todo foi posterior. Não queria deixar a banda tocando para sempre na rua, porque eu gosto de deixar as coisas mais reais.

E - Qual foi o primeiro privilegiado a quem você mostrou a música? No auge do entusiasmo você compôs a música num dia e no dia seguinte mostrou ou guardou?

C - Guardei um pouquinho, a gente sempre tem medo de mostrar antes. Ao mesmo tempo tinha feito outras músicas, como Morena dos olhos d'água. Eu lembro que fui mostrar num bar, lá em São Paulo, que cantávamos com os Baianos, Gilberto Gil, Torquato. E eu lembro que eu fui mostrar mesmo era Morena dos olhos d'água que eu tinha em papel. A banda eu tinha mas estava incompleta ainda. E eu mostrei Morena dos olhos dágua. E eles gostaram. Ainda não era a hora de eu mostrar, mas com o entusiasmo, mostrei A banda incompleta. Eles entusiasmaram-se muito mais com A banda, tanto que não ia mandar para o festival, ia mandar esse outro samba.

E - Portanto o grupo Baiano foi o primeiro a ouvir A banda? Gostaram e você resolveu mandá-la para o festival?

C - Não, aí eu acabei. Quando eu acabei chegou o Caetano Veloso, no outro dia, e pediu para eu mostrar A banda. Ele se entusiamou. Aí eu fiquei em dúvida, no fim eu mandei A banda pro Festival.

E - Você imaginou que ela pudesse fazer esse sucesso extraordinário?

C - Não, de jeito nenhum. Mostrei para a Nara, logo em seguida, já pronta. Eu nunca tenho idéia se vai fazer sucesso ou não, mas pela reação que o pessoal tinha eu comecei a pensar "essa música deve pegar". Mas desse jeito eu não imaginava, não. Olê, ola, que tive dificuldade de mostrar a primeira vez, eu achei que música nunca fosse fazer sucesso nenhum. Quando a Nara gravou disse: "Pô, nunca pensei... eu gravei porque acho bonita... não tive a menor intenção..." Principalmente em São Paulo teve um sucesso razoável, depois de A banda é difícil falar. Mas fez mais sucesso do que tinha feito Pedro pedreiro.

Entrevista para O Museu da Imagem e do Som, 11/11/66

Leia mais notas sobre A banda: