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Depois que a banda passa, a realidade de novo se desencanta. Em Tem mais samba, uma das
primeiras composições de Chico, o sofrimento é conjurado pelo samba:
"Vem, que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver."
E naquilo que o poeta fala que "tem mais samba":
"Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua"
- podemos apontar que se privilegia aquilo que é mais concreto, que se aproxima mais da
viabilidade de um contato, tudo aquilo que anula a distância. Assim, privilegia-se o encontro, em
detrimento da espera (que é virtualidade); o porto, lugar da chegada, e não a vela; o perdão
(possibilidade de reencontro) e não a despedida, que é separação, etc. "Tem mais samba nas
mãos do que nos olhos": aqui também o critério do contato e da materialidade dominou. As
mãos, órgãos do tato, entram em contato com a matéria, a nível de pele, e de seu objeto
apreendem uma gama de sensações: textura, calor e frio, umidade e secura, maciez e rigidez.
O olhar é mais "espiritualizado" do que o tato. "Tem mais samba" aquilo que é mais concreto;
que propicia a possibilidade de uma transmissão energética, a nível de corpo.
Vejamos onde mais radica essa "concretude": no chão, no som que vem da rua, no homem que
trabalha: preocupação com o "popular" na lírica de Chico Buarque?
Mas o que importa aqui é que "samba" é sinônimo de amor e felicidade, e "sambar" é a grande
proposta do poeta.
Fonte: Desenho mágico, Adélia Bezerra de Meneses, Editora Hucitec, 1982
Parte I - Lirismo Nostágico, página 55
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