Nota Gota d'água
Por Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello

  Letra 

Retomando uma idéia de Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Chico Buarque transportaram a tragédia grega de Medéia (de Eurípedes) para um subúrbio do Rio, dando-lhe o nome de "Gota d'Água". Medéia, que mata os filhos e se suicida ao ser desprezada pelo amante, é na tragédia carioca Joana, companheira de Jasão, um sambista que a abandona por uma mulher rica. Embutido na recriação do drama havia o propósito dos autores de criticar e questionar as implicações sócio-políticas da ditadura militar brasileira. Toda escrita em versos, numa linguagem coloquial, "Gota d'Água" apresentava uma dúzia de composições das quais a mais importante era a canção homônima, em que a protagonista, interpretada por Bibi Ferreira, advertia o amante: "Deixa em paz meu coração / que ele é um pote / até aqui de mágoa / e qualquer desatenção / faça não / pode ser a gota d'água". Contemplada com o Prêmio Molière - que Chico recusou-se a receber, em razão de estarem os concorrentes com suas peças presas na censura - "Gota d'Água" esteve em cartaz em dois teatros cariocas, sendo uma das temporadas a preços populares. Já a canção "Gota d'Àgua', foi gravada por Bibi no disco da peça, com orquestração de Dori Caymmi, tendo no entanto maior sucesso a versão de Simone. Eurípedes, o mais moço dos três grandes trágicos atenienses, considerado o poeta do pessimismo, criou terríveis figuras femininas e exer-ceu forte influência nos trágicos latinos como Ênio e Sêneca.

Fonte: Livro 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34