O Rio de um de seus maiores poetas não é melhor nem pior que a cidade gigante, complicada e vaidosa
da vida real. É, todo dia, o cenário mágico que abriga a beleza dos voadores de asa-delta e do sol poente na espinha das montanhas - para depois virar endereço da rotina crua das meninas prostitutas de Copacabana. Entre uns e outros, vive gente desimportante, como o vendedor de pamonha, os sambistas de bairro e os religiosos que pregam na praça para quase ninguém. É assim, real e belo, o
Rio de Janeiro de Chico Buarque, descrito nos 29 versos de "Carioca", principal música do novo disco do compositor, "As cidades", que chega às lojas em novembro.
O embrião da música é outro momento supercarioca - o carnaval. Chico compôs a canção para retribuir a homenagem feita pela Mangueira, no desfile deste ano. Promovido a baluarte verde-e-rosa após a apoteótica apresentação no Sambódromo, o homem caprichou, para compensar o título de "carioca da gema", promulgado pelo samba-enredo da escola. Até a festa da Sapucaí, ele não se considerava totalmente do Rio, por ter vivido em São Paulo na juventude. Mas, nesse caso, é muito mais questão
de alma do que de certidão de nascimento - e é daí que vem "Carioca".
Na homenagem, Chico descreve um dia inteiro na
terra carioca, partindo do pregão do vendedor de
pamonha, passando pelo entardecer emoldurado
pelas montanhas, até chegar às meninas
recém-chegadas à adolescência se vendendo na rua,
tragédia noturna de Copacabana. Mas a música,
como qualquer outra, é uma para quem faz e outra
para quem ouve. Por isso, prostitutas de todas as
idades se sentiram homenageadas pelo compositor.
- É lindo estar numa música dele. Eu amo o Chico -
derrete-se Gleice, 22 anos parecendo menos, que
trabalha na Vila Mimosa durante o dia e em
Copacabana à noite. - Com sua poesia, ele vai ajudar
a derrubar um preconceito que só existe no Brasil -
acredita ela, ignorando a denúncia embutida nos
versos finais.
Mônica, habitué do calçadão em frente à Praça do
Lido, arregalou os olhos ao ler a letra. Não dá nem
para lamentar a tristeza das adolescentes à venda,
porque, exultante, ela conta ser fã de Chico, a quem
viu passar "uma vez, de braço dado com a filha".
- Ele canta umas coisas muito bonitas, fala sempre
de mulher. Agora falou de mim - apropria-se ela,
totalmente seduzida pelo poeta. Aliás, como a
esmagadora maioria das mulheres.
O Rio "Carioca" é sedutor nas ondas do mar,
marginal na neblina da ganja (resina que serve de
base ao haxixe), melancólico no "povaréu sonâmbulo
ambulando que nem muamba". A cidade que desfila
encantos e mazelas, mas "arromba a retina" de
quem a vê. Como bem diz o poeta.
O mais carioca de tudo, porém, é a inspiração que
Chico encontra nos cantos e fatos mais prosaicos. O
melhor exemplo talvez seja o reverendo num
palanque lendo o Apocalipse - na verdade, o orador
evangélico e anônimo que prega todas as manhãs na
Praça Antero de Quental, no Leblon. O compositor
viu a cena da janela do apartamento de sua irmã
Miúcha. O vendedor de pamonha é mais íntimo -
acorda Chico aos berros, todos os dias.
Aqui, de novo houve gente que entendeu diferente.
Os operadores da Bolsa de Valores esqueceram-se
até da crise para saborear a homenagem que,
segundo eles, vai até o verso seguinte, que fala em
baile funk. O movimento do pregão lembra a
coreografia que vem do morro. E quem vai convencer
aqueles homens de que Chico não falou deles?
- Andamos meio esquecidos e é maravilhoso ser
lembrado por alguém como ele - festeja Belino
Vasconcellos, o mais antigo operador, com 40 anos
de pregão. - Acompanho a carreira dele desde os
festivais, adoro "A banda" e "Roda-viva". Eu me sinto
homenageado, sim - completa, lamentando que no
pregão o único som seja o da campainha que abre e
fecha o período dos negócios.
Erenilton de Oliveira Silva, 15 anos de corre-corre e
gritaria no pregão, quase lamenta a comparação pela
fama de violência que acompanha os bailes funk.
Mas não resiste à citação ilustre.
- A coreografia parece mesmo. Mas aqui ninguém
briga. Mas é uma satisfação - agradece ele, fã de
"Tatuagem" e "Quem te viu, quem te vê".
Mas bom mesmo é quando não há nenhuma dúvida,
caso de Alexandre Cordeiro, 35 anos, praticante de
asa-delta há oito. Ao ouvir a referência, ele vai ao céu
- sem precisar de equipamento.
- Eu sou o homem da Gávea que criou asas?
Demais! - comemora. - É maravilhoso pensar que o
Chico Buarque presta atenção nos nossos vôos.
Na história "Carioca", apenas três bairros mereceram
a honra de ser citados explicitamente: a Copacabana
das prostitutas, a Gávea dos voadores - endereço de
Chico por muito tempo, até ele se mudar para o alto
do Jardim Botânico - e o Flamengo, onde tem
samba.
Mas foi São Cristóvão que virou cenário do clipe que
retrata a música. Sob direção de José Henrique
Fonseca, Arthur Fontes e Fábio Soares, da
Conspiração Filmes, o compositor gravou anteontem
as cenas que reproduzem um bar do Rio antigo.
Rodada em 35 mm, em preto e branco, a produção
mostra Chico Buarque na mesa de um bar, em frente
a uma janela, sobre a qual imagens do Rio vão sendo
projetadas, através de efeitos especiais produzidos
por computador.
A cidade que aparece na janela da ficção é linda.
Mas perde da realidade narrada pela poesia do
compositor - definitivamente um carioca que vê e
entende sua terra como quase ninguém.
Uma obra que vai do Borel ao Redentor
Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros ganharam o
mundo falando do Rio do cartão-postal, daquela
garota, do Cristo Redentor de braços abertos sobre a
Guanabara. Chico Buarque sempre preferiu a vida
real dos habitantes da cidade para criar versos e
músicas de extrema beleza. "Homenagem ao
malandro", por exemplo, fala da Lapa das brigas com
navalhas; "Estação derradeira" lembra a Mangueira;
e seu "Pivete" desce a Carioca, sobe a Frei Caneca
e se manda pela Tijuca até subir o Borel. E "Vai
trabalhar, vagabundo" conta a história de domingos à
toa passados no Mangue. Mas a obra de Chico não
seria genuinamente do Rio se omitisse a poesia das
paisagens. Ela está em "Dois irmãos", que fala do
morro no fim do Leblon; em "Samba do grande
amor", onde o apaixonado sobe a pé o Redentor. O
amor da música era mentira - mas o do Rio é a pura
verdade.