Notas sobre Retrato em branco e preto
Por Adélia Bezerra de Meneses

  Letra   

O desencanto atinge a máxima intensidade em Retrato em Branco e Preto:

"Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior
...
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado"

Há, na realidade, muito de saudosista nesse Chico Buarque que se confessa tão marcado por "lembranças do passado". No entanto, sua poesia, nessa fase, é caracterizada de "nostálgica" não porque utilize motivos que são figuras do passado, sejam figuras da infância ou da sociedade pré-industrial (tais como A banda; o Realejo; o bosque encantado que sempre existe nas proximidades de uma rua da nossa meninice, como em Até pensei; as fogueiras e balões de Maninha; o faz-de-conta de João e Maria), mas porque a postura do eu poético nesses poemas é a do desejo de um retorno, a ânsia dolorida por uma volta a uma situação ou a um espaço que não fazem parte da realidade atual. E isso é nostalgia (de nostos = volta e algos = dor), no seu sentido primeiro e etimológico: a dor do retorno.

Evidentemente, esse deslocamento para uma outra realidade, seja ela situada no passado ou num espaço imaginário, implica uma negação do presente, um radical não-colaboracionismo.

Em quase todas as canções dessa fase, que tratam da criação desse espaço privilegiado, a proposta é muito semelhante: o sofrimento da vida presente é colocado entre parênteses por força do encantamento órfico da música ou da dança - literalmente, do "violão", do "samba", da "banda", do "carnaval".

Em Sonho de um carnaval, uma das produções inaugurais de Chico, o poeta deixa em casa a dor, esperando-o, e vai encontrar, no Carnaval, uma realidade transfigurada:

Fonte: Desenho mágico, Adélia Bezerra de Meneses, Editora Hucitec, 1982
Parte I - Lirismo Nostágico, página 49


Leia mais notas sobre Retrato em branco e preto: