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Bastidores" (1980) redimensiona a angústia da perda que se mostra sutilmente velada em "Trocando em miúdos":
A diluição da relação conjugal é aqui tratada em tom de arrebatado desespero. Dicotomicamente, há a presença da mesma dor que destrói (nos bastidores) e constrói (no palco). Os dois momentos alternam-se, a partir da terceira estrofe, entre brilhos e lágrimas, entre aplausos e prantos.
Note-se que a mesma dor intensa que leva o eu-emissor a cometer atos desatinados (primeira estrofe) impulsiona-o a mascarar-se para o palco e a soltar a emoção que contagia a platéia:
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Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim
O poema realça a necessidade da emoção intensa (dor) na criação artística ("E chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente"). Ao alternar as estrofes entre a dor da perda - a corrida ao lar para certificar-se da ausência do ser amado (bastidores) - e o desempenho emocionante que arrebata a platéia (palco), o poeta enfatiza o paradoxo das situações geradas pela mesma dor.
Os dois últimos versos, retomando os dois primeiros ("Chorei, chorei/ Até ficar com dó de mim") sugerem a inexorável solidão do sofrimento.
Sem fantasia - Masculino e feminino em Chico Buarque
Maria Helena Sansão Fontes - Editora Graphia, 1999
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