Notas sobre Apesar de você
Folha de S. Paulo

  Letra 

"Gama e Silva, ministro da Justiça do governo Costa e Silva, autor do AI-5, garantiu que nunca escutou Apesar de você com atenção. O repórter, então, entregou-lhe a letra da música. Ele leu e afirmou que não percebia nada de mais naqueles versos. O repórter, que estava com a fita cassete do último long-play de Chico, não deixou barato e pôs para tocar a gravação de Apesar de você.

O ex-ministro permaneceu imóvel enquanto escutava; tentando controlar as expressões faciais. Mesmo assim dava para perceber tristeza e angústia em seu semblante. Mas ele não deixou que suas palavras também o traíssem e ditou, com todas as vírgulas e pontos:

-Essa música é uma beleza. A melodia é linda e a letra exprime um estado de alma e juventude, o que é perfeitamente compreensível. Aliás, apreciando, como eu aprecio a arte de Chico Buarque de Hollanda, só posso ter palavras de elogio ao grande compositor dos nossos tempos.

-Mas, doutor Gama, ele está atacando a classe política revolucionária da qual o senhor lhe dá essa resposta! Eu gostaria que o senhor comentasse a letra da música.

-Olha, essa semana que o AI-5 fez dez anos, eu fui procurado por jornalistas de todos os órgãos de imprensa para dar entrevistas e não atendi nenhum. Para você eu abri uma exceção, mas sobre a letra mesmo eu não vou fazer comentário nenhum. Fica assim: eu faço um comentário genérico e elogioso para o Chico, e quem sabe amanhã ele pode até fazer uma música para mim.

O repórter aproveitou a ocasião e pediu a Gama e Silva que falasse do AI-5.

Ele falou:

-O AI-5 foi feito para defender o povo brasileiro da corrupção e da subversão, e seria extinto em pouco tempo. Mas aí veio a doença do Costa e depois disso eu já não respondo mais pelo uso que fizeram do AI-5. Além do mais, apenas um décimo dos punidos pela revolução o foram com base no AI-5. E dos AI-2, AI-3, ninguém fala nada?

A professora Jessita Nogueira, um dos quatro coordenadores do "Livro negro da USP, o controle ideológico na Universidade" (editado pela Edusp), fala aqui sobre a música Apesar de você, depois de ter tomado conhecimento da entrevista de Gama e Silva. Mas, antes, vamos recuar dez anos na história para se entender melhor quem é Jessita:

1968 na Rua Maria Antônia, prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A porta da sala de aula é aberta como se tivesse levado um coice e aparecerem três soldados armados com metralhadoras. Diante de 200 alunos, a professora de Ciências Sociais, Jessita Nogueira Moutinho, de 24 anos, encara bem os soldados e, com voz firme, pergunta:

Você são meus alunos?

-Não, mas é que estamos procurando uma pessoa e...

-Isto aqui é uma sala de aula e aqui dentro só ficam o professor e os alunos. De maneira que vocês podem se retirar. Se vocês querem pegar alguém não será em minha aula. Com licença, por favor.

A professora indica a porta, os soldados saem e esperam do lado fora. Quando a aula termina os soldados entram de novo, mas o tal aluno já estava longe.

Agora, a opinião de Jessita sobre Chico e sua música:

"O Chico nada mais fez do que exprimir as marcas da história. Todos os Gamas e os dedo-duros da história nunca supuseram que depois de 64 e 68 chegaria 78. "Hoje você é quem manda, falou tá falado não tem, discussão". Quer dizer, naquela época qual era o direito do cidadão? Apoiar entusiasticamente o regime, como o ame-o ou deixe-o, que andou nos pára-brisas dos carros: você tinha que amar o regime ou deixar o país. Foi por isso que o Chico teve que ir para a Itália.

"O Chico assustava pois a música dele não tem aquele tom pesado, de palavra de ordem, chata, dogmática e pedagógica. Apesar de você era uma música política e por isso é que foi considerada perigosa. Você a ouvia e pensava: 'Pô, era exatamente isso que eu tava pensando, como é que esse cara pegou tão bem a minha idéia?' O Chico põe na poesia o que você pensa e não consegue expressar.

Apesar de você não é ufanista, tipo "Brasil, ó meu Brasil brasileiro..." Ela é o cotidiano do povo brasileiro. Não é tanto a música de Chico que é perigosa. A prova é que quando ele usa pseudônimo, as músicas passam pela censura.

"No fundo a música diz que toda araruta tem seu dia de mingau. E isso assusta, pois na consciência dos dedos-duros deve existir um medo. Se não houvesse medo não existiria tanta escolta militar. E eu digo mais: esse dia, que o Chico canta que há de chegar, esse dia já chegou. O que tem de gorila virando liberal não tá no gibi! Ninguém assume nada, a própria entrevista com o Gama mostra isso.

"Isso é muito típico do período nazista. Na França, agora, um nazista foi entrevistado pelo L’Express e ele afirma exatamente o que a Gaminha dizia em outro contexto: ‘Eu deportei os judeus, agora, o que fizeram depois com eles já não é de minha responsabilidade.' Foi isso que o Gaminha acabou de fazer.

"Ele esquece de dizer que o AI-5 era para ser aplicado a corruptos e subversivos, mas sobre a totalidade das pessoas atingidas na USP pelo seu ato ele ignora qual a categoria em que elas estão enquadradas. Até hoje o Gaminha não contou isso para ninguém. Se ele sabe essa resposta, ele guarda segredo."

Folha de S. Paulo 12/78

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