Notas sobre Olê, olá (Análise literária)
Por Adélia Bezerra de Meneses

Letra 

O mesmo motivo - afastar a tristeza através da força encantatória da música - será apresentado de maneira mais explícita ainda em Olê, olá:

"Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar"

O samba, que em outras ocasiões já fora sinônimo de felicidade, aqui se transforma no instrumento que há de atrair e seduzir a felicidade:

"Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar

Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga, me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar

Olê, olê, olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar"

Coerentemente com a proposta de se colocar o sofrimento da vida presente entre parênteses, há aqui, no limite, a proposta da supressão da História, pela supressão do tempo

"Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir"

No entanto, o sentimento de efemeridade vence o poema, e o quotidiano se reinstaura, com seu cortejo de limites impostos pelo princípio de realidade: o trabalho, a indiferença das pessoas, a luz do dia (que espaventa a inspiração romântica), a tristeza:

"Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar"

Finalmente, em Carolina, o poeta tenta retirar a amada para dançar, mas seus esforços são vãos:

Fonte: Desenho mágico, Adélia Bezerra de Meneses, Editora Hucitec, 1982
Parte I - Lirismo Nostágico, página 56


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