Nota sobre Amanhã, ninguém sabe
(Análise literária)

Por Adélia Bezerra de Meneses

  Letra 

Em Noite dos mascarados reponta a consciência do caráter de excecão do Carnaval:

Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal

No entanto, mais do que um "tempo forte" do samba, da dança e da alegria, o Carnaval é um rito, que transcende o espaço para ele reservado durante o ano. O Carnaval é um "estado" de ser, independentemente da data para ele fixada. Por isso, o poeta pode ter o "seu" Carnaval, fora do tempo, como em Amanhã ninguém sabe:

Há aqui nesta canção uma saturação de elementos que em geral figuram essa mesma realidade - poderíamos chamá-los de metamorfoses do Carnaval: o violão, o samba, a roda, o amor, a banda - que convocam a participação.

"Amanhã, ninguém sabe": é quase que uma utopia às avessas. Não interessa o amanhã, que é incerto, pois hoje o Carnaval pode acontecer. Mais tarde, com o amadurecimento de suas posições e de sua vivência, Chico Buarque projetará sua solidariedade humana e sua paixão libertária para um amanhã irreversível, que será o espaço da utopia.

Aqui, o estado em que se vence a tristeza e a solidão é um estado provisório. E quando o indivíduo não se recolhe de novo à sua dor, depois que o jogo se acaba, trata-se de um "desatino": o samba não pode continuar na Quarta-feira de Cinzas, quando as pessoas já estão "sofrendo normalmente". É o tema de Ela desatinou.

Outra metamorfose do Carnaval é a "banda" - que passa, "cantando coisas de amor", transfigurando a realidade.

Fonte: Desenho mágico, Adélia Bezerra de Meneses, Editora Hucitec, 1982
Parte I - Lirismo Nostágico, página 52