Notas sobre Acorda amor
Por Humberto Werneck

Letra 

"Depois de Calabar, Chico percebeu que seria difícil passar alguma coisa com o seu nome. O jeito, descobriu, era disfarçar-se num pseudônimo. Nascia Julinho da Adelaide, compositor mais falante que prolífico, autor de três canções: Acorda amor, Jorge Maravilha e Milagre brasileiro. Como a Censura nada tinha contra Julinho, sua criações passavam tranqüilamente. Pouco se sabia a seu respeito até que Chico, em setembro de 1974, entrou na pele da personagem e deu uma longa entrevista ao teatrólogo Mário Prata e ao jornalista Melchíades Cunha Jr., para a edição paulista de Última Hora.
O texto da entrevista não registra a colaboração do pai de Chico, que garimpou em seus livros a foto de uma mulher negra, muito bonita. Saiu no jornal com a legenda "Adelaide na época de Orfeu Negro e da Brasiliana". Mas não foi apenas com seu rosto que a mãe de Julinho apareceu na imprensa. Em 1975, a boa senhora começou a fazer palavras cruzadas, que enviava ao cruzadista do Jornal do Brasil, Carlos Silva. Ao encaminhar a primeira, Adelaide de Oliveira Kuntz mandou também uma carta onde ressaltava a importância desse hobby em sua vida - "um agradabilíssimo passatempo e um conforto para quem, como eu, está irremediavelmente condenada a uma cadeira de rodas". Carlos Silva, um cavalheiro, não apenas publicou a criação como acrescentou uma palavrinha de estímulo: "Seu primeiro problema está muito bom e esperamos que seja o início de ótimas produções." Chico diz que apesar disso ela ficou um tanto aborrecida com Carlos Silva, que corrigiu o seu problema - trocou "ratificará" por "ratificada", por exemplo.
Numa carta a Mário Prata, por essa época, Chico explicou que Adelaide se tornou cruzadista ao ficar paralítica, e que ficou paralítica ao perder o filho. Julinho morreu, de fato, naquele ano de 1975, ao ser desmascarado numa reportagem do Jornal do Brasil sobre censura. Depois dessa revelação desmoralizante, a Polícia Federal passou a exigir que as músicas submetidas à sua aprovação fossem acompanhadas de cópia dos documentos do compositor.
Por motivo de falecimento, Julinho da Adelaide não chegou a mandar para Brasília a sua criação número três: O milagre brasileiro (gravada tempos depois por Miúcha).

© Copyright Humberto Werneck in Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989

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