Chico Buarque canta sobre a terra

Cerca de quinze minutos depois de terminado o evento de lançamento do livro "O Espírito e a Letra", de seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, na última sexta-feira no Masp, o cantor e compositor Chico Buarque foi embora para sua casa em São Paulo caminhando pelas ruas. Dispensou seguranças e seguiu a passos acelerados: "Adquiri sotaque paulista nos pés".
Foi apenas interrompido por um guardador de carro: "Oi, estou guardando vosso motor". Cumprimentou-o: "Mas você não me guardou, não, estou a pé". Em uma conversa rápida nesse trecho, Chico falou sobre o projeto que vem fazendo com Sebastião Salgado para o livro "Terra".

Folha - Você prepara um CD para ser lançado com o livro "Terra", do fotógrafo Sebastião Salgado?

Chico Buarque - É um projeto em conjunto com o Salgado e a Companhia das Letras. Na capa do livro vai ter um encarte com o CD, que é um compacto pequeno, com umas quatro músicas, uma coisa simples... Tenho uma música e meia pronta. A que está feita chama "Levantadas do Chão", e a outra é um baião, que estou querendo terminar agora.

Folha - Mas você e Salgado trabalharam juntos?

Chico Buarque - Tivemos uma conversa, e ele deixou as fotos que vão constituir o livro. Isso foi o que eu dispus para compor. O tema é a terra, o trabalhador sem terra, o sem-terra na cidade e no campo.

Folha - Tem pesquisa de ritmos?

Chico Buarque - Não, não existe uma fidelidade ao folclore. São canções que me apareceram. Na verdade, a letra que já escrevi foi sobre uma música que Milton Nascimento me mandou para fazer. Falei: "Opa, essa música tem tudo a ver com as fotos do Salgado". Aí fiz a letra em cima das fotos e da música do Milton.

Folha - Você está viajando ao exterior para escrever um livro?

Chico Buarque - Não, tenho um show em San Remo (Itália) e vou terminar o acompanhamento da tradução do livro "Benjamin" para o francês e inglês.

Folha - Você pretende um dia transformar o hobby futebol em um projeto para livro ou disco?

Chico Buarque - Não, futebol eu só gosto de jogar. Aliás, vou perder amanhã porque não vou acordar cedo.

Folha - Você caminha tão rápido para não ser assediado?

Chico Buarque - Não, aprendi a andar rápido morando em São Paulo. Costumo dizer que meu apelido aqui era Carioca porque sempre mantive o sotaque do Rio. Mas adquiri sotaque paulista nos pés, que me faz andar depressa. No Rio, parece que estou fugindo das pessoas, mas não é, é um hábito. É o sotaque que me restou

Entrevista para Daniela Rocha, Folha de São Paulo, 25/11/96
(entrevista completa)