O teatro todo destruído a pauladas


A reunião do secretário de Segurança com a comissão de artistas durou uma hora e meia. O próprio secretário telefonou a todas as delegacias e ao DOPS, e não conseguiu localizar os dois homens presos durante as violências de ontem à noite no Teatro Galpão. Ele prometeu policiamento nos teatros. Às 14:30 horas os artistas se reúnem para falar com o governador. À noite tem Roda Viva outra vez, no mesmo lugar.

Às onze e meia da noite de ontem, o elenco da peça Roda Viva, no Galpão do Teatro Ruth Escobar, tinha agradecido os aplausos e já estava nos camarins. Começavam a mudar a roupa, quando ouviram os primeiros gritos e o grande barulho que vinha da platéia. Ninguém sabia o que estava acontecendo.

Muita gente nem tinha-se levantado das cadeiras, quando mais de vinte rapazes, armados de cassetetes e revólveres, deram um grito, e começaram a depredar tudo dentro do Teatro galpão. Não deu tempo para nada: os guardas de três radiopatrulhas que estavam na porta, em frente do número 209 da rua dos Ingleses, correram, mas não puderam entrar. Foram impedidos por mais de 100 pessoas que queriam sair daquela confusão.

Lá dentro, continuava o quebra-quebra. Primeiro foram os espelhos dos camarins externos, que ficam bem perto do palco. Depois foi a vez dos projetores de Slides e dos microfones. Os instrumentos dos músicos também foram quebrados a pontapés e pauladas. Todos corriam, ninguém sabia o que acontecia. Marília Pêra, a atriz principal da peça, Margot Baird, dentro dos camarins internos, foram agredidas, os homens arrancaram suas roupas. Walkíria Mamberti, outra atriz da peça, também foi despida e espancada, apesar de avisar, aos gritos, que estava grávida.

Margot, com os olhos vermelhos de choro, passando as mãos pelos cabelos, quase não consegue falar, por causa dos soluços e do susto que passou:

- Eu estava tirando a blusa, para trocar de roupa, quando ouvi um barulhão. Não sabia o que era, abri a porta e vi uns homens correndo para cima de mim. Fiquei assustada a Marília apareceu, entrou no meu camarim, fechamos a porta. Daí a pouco, começaram a bater e a gritar para que abríssemos. Seguramos a porta, mas não adiantou nada: eles arrombaram tudo, arrancaram nossas roupas, rasgando, e começaram a apertar a gente, gritando: "Isso é que é revolução, isso é revolução".

No palco e na platéia, a confusão continuava. O eletricista Vicente Dualde, o contra-regra José Luís - este foi para o pronto-socorro Iguatemi - com a bacia quebrada - e a camareira Isa apanharam bastante. Rodrigo Santiago, artista principal, também foi espancado. Lá fora, os guardas não conseguiam entrar. Uma porta lateral foi arrombada pelos que queriam sair, um extintor de incêndio foi disparado contra o rosto de Rodrigo. Muita gente rolava pelas escadas.

Modesto Ramone Junior, agente do DOPS designado para trabalhar na porta do teatro, na hora da confusão viu que podia fazer muito pouca coisa. Viu dois homens saírem correndo. Um deles com um cassetete na mão. Pulou em cima dele e agarrou-o:

- Daqui, você só sai morto.

Um dos detidos imediatamente disse que era o 2º. Tenente do Exército, e se identificou como Flavio Ettore, filho de Vezzia Ettore e Alezzio Ettore, carteira de identidade do Ministério do Exército, número 56.203. O agente tirou dele um cassetete branco com cabo azul, quebrado ao meio, e um martelo fino. Depois, levou os dois até a RP-29 e entregou-os ao Capitão Capetti, com a promessa de que os presos seriam levados ao DOPS.

Enquanto isso, os homens que quebraram tudo começavam a sair lá de dentro, correndo. Ninguém sabia quem tinha atacado o teatro e quem tentava fugir dos agressores. Dois rapazes, um deles bem loiro, com o cabelo cortado á escovinha, correram para um Volkswagen branco, chapa 6-19-16, Pernambuco-6, anotada pelo agente do DOPS, e desceram pela rua dos Ingleses em alta velocidade. Um deles, na fuga, perdeu um cassetete de madeira com quase um metro de comprimento, com a assinatura Jonas escrita com caneta esferográfica, em letras maiúscula.

 

Pouco depois da meia-noite, Marília Pêra, Juraci Pêra, Samuel Costa, Fabio Camargo, Hélio Pereira das Neves, Rodrigo Santiago, Vicente Dualde e Walkiria Mamberti estiveram na 1ª Delegacia, no Páteo do Colégio, para exame de corpo de delito. Depois, voltaram para a frente do Teatro Ruth Escobar, onde os artistas começavam uma assembléia permanente.

Nem o DOPS e nem a 4ª Delegacia, onde estão presos não aceitaram a queixa de Ruth Escobar, dona do Teatro. O delegado Serra da 4ª Delegacia, não aceitou também o requerimento do advogado do teatro, não quis autuar os presos em flagrante e nem deixou os artistas identificarem-nos. Ruth Escobar telefonou para a casa do secretário da segurança Hélio Lopes Meireles, tentando resolver alguma coisa. O secretário mandou dizer que aquilo não era com ele, que era "matéria de teatro " e ocorressem á Justiça. Por isso, quase toda a classe teatral reunida no teatro Ruth Escobar resolveu, as 2:45 de hoje ,ir à casa do governador Abreu Sodré .O grupo de artistas reunido em frente à casa do governador foi atendido por um ajudante de ordens que entro para comunicar ao Sr. Abreu Sodré que os artistas queriam falar com ele. Depois de meia hora, chegou o capitão Abate, num Volks. Ele tentou convencer os artistas a irem embora para voltarem de manhã, dizendo que não era hora de acordar o governador.

Diante da insistência dos artistas, o capitão resolveu telefonar para a 4ª Delegacia. Ele voltou às 4,15 e informou que o secretário da segurança receberia uma comissão de artistas às 8,30 da manhã e que o preso ficaria na 4ª Delegacia até receberem ordens do secretário da segurança.

Os artistas voltaram para o teatro Ruth Escobar para escolher a comissão que iria ao encontro. toda classe teatral se reuniu às 2,30 da tarde para falar com o governador Abreu Sodré, às três da tarde, no Morumbi.

Apesar de teatro estar inteiramente destruído ,a peça Roda Viva será encenada hoje lá mesmo, no Ruth Escobar, mesmo sem os aparelhos de som. Os outros teatros emprestarão os refletores, e um gravador foi cedido pelo Teatro Oficina. Várias costureiras estão refazendo o guarda-roupa. Os prejuízos foram calculados em 50 mil cruzeiros novos.

Hoje de manhã e secretário de segurança recebeu uma comissão de artistas, formada por Ruth Escobar, Assunta Perez, Sabato Magaldi, Plínio Marcos, Alberto D´Aversa e Edgard Gurgel Aranha. A reunião começou às 10 horas da manhã, a portas fechadas .Hoje, à noite após a apresentação da peça, será formada outra comissão, que vai a Brasília falar com o presidente Costa e silva.