Comando de Caça aos Comunistas diz como atacou Roda viva em 68


Luís Antônio Giron - 17/07/93

Líder do CCC revela identidade e detalhes sobre agressão à peça de Chico Buarque há 25 anos

Um pouco cego completa o jubileu de prata amanhã. O ataque do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) à peça "Roda viva" aconteceu na noite de quinta-feira, 18 de julho de 1968. A peça de Chico Buarque de Hollanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, virou um símbolo de 68. Mesmo assim, ainda é um episódio mal esclarecido. Quase todos os seus envolvidos procuram se esquecer dos detalhes. Se é que ainda guardam alguma recordação daqueles três minutos em que a sala O Galpão, no teatro Ruth Escobar, centro de São Paulo, ficou às escuras, os equipamentos foram depredados, um contra-regra ferido e 19 atores agredidos.

Como define o ator Antônio Pedro (o personagem Anjo), "o ataque não levou nem o tempo de vestir as calças". Até hoje as vítimas não entendem como e por que tudo aconteceu. Todos apanharam nus. Os agressores escaparam. "A polícia acobertou os três membros do CCC capturados pelo elenco", diz a atriz Ruth Escobar, produtora da peça.

Rodrigo Santiago (o herói, Bem Silver) torceu o tornozelo depois de passar por um corredor polonês. Vestia só paletó. "Saí correndo. Um sujeito com um revólver, cabelo à maneira militar, me deu um cascudo e me mandou descer. Passei pelo corredor polonês de 20 homens de japonas azuis. Nada grave." Sobrou o folclore das lembranças.

Uma dessas figuras da memória dos atores está saindo do anonimato. Seu nome é João Marcos Flaquer, um bem-sucedido advogado de 50 anos, com escritório na Av. Paulista. Flaquer planejou e comandou a ação contra "Roda viva". Resolveu esclarecer o que chama de "equívocos históricos". Havia fornecido detalhes à reportagem "CCC reúne 110 e agride 19 atores" - publicada pela Folha em 2 de maio último - sob a condição de não ter o nome citado. Mas decidiu revelar a identidade depois de pensar muito. Até porque, segundo ele, "é hora de contar a história da injustiçada direita brasileira". Para o comandante do CCC, o ataque foi um "ato patriótico". Acha que teve tanto êxito quanto a peça. Nesse aspecto, repete uma frase de José Celso: "Foi um gesto cultural. Antecipou o AI-5 e cortou a via subversiva que o teatro estava seguindo." Diz Flaquer: "O objetivo era realizar uma ação de propaganda para chamar a atenção das autoridades sobre a iminência da luta armada, que visava a instauração de uma ditadura marxista no Brasil."


"Roda viva" era um prato cheio para causar repercussão e consolidar a organização clandestina. A peça entrou em cartaz em São Paulo em 22 de maio. No Rio, tinha feito uma temporada de furor. Os 280 lugares da sala O Galpão não eram suficientes. "A peça era uma droga. Só gente feia. O elenco agredia o público. Um general foi ofendido quando se retirou da peça", critica Flaquer. "Mas fazia sucesso e isso nos interessava." O CCC estudou por cinco semanas o espaço do teatro. "Precisávamos garantir a integridade do público. Os atores receberiam apenas um susto."

Na noite marcada, 110 homens - 70 civis e 40 militares - estavam preparados. Desses, 20 se postaram fora do teatro, dez na Rua dos Ingleses e o restante na Rua 13 de Maio, para facilitar a fuga. Todos armados com cassetetes, revólveres e metralhadoras. Rodrigo Santiago se recorda de um "ar de suspense e uma platéia muito séria". "O clima estava esquisito", diz Antônio Pedro.

"Um sujeito gritou: 'Desce daí que eu vou te dar uma porrada!'. Eu sentia a coisa pesando. Flaquer segurou um companheiro que queria agredir os atores. "Nosso pessoal estava irritado. As atrizes avançavam nos homens, convidando-os a fazer a revolução na cama. Isso deixou muitos companheiros nervosos."

Depois de duas horas e meia de um espetáculo que o CCC avaliou como "chato", os 90 homens esperaram o público sair. Cada membro pôs uma luva na mão esquerda, para identificação. O comandante deu ordem para iniciar o quebra-quebra. Cinco atiradores ficaram ao fundo. Cinco destruíram o equipamento do auditório. Outros foram para os camarins agredir o elenco. Cadeiras, extintores, os cenários de Flávio Império, nada resistiu.
Flaquer subiu aos camarins, para, segundo ele, evitar abusos. "Um companheiro quis estuprar uma atriz, mas eu impedi. Foi o último a sair. Consultou o relógio: a ação havia durado três minutos. Naquela madrugada, os participantes da operação se reuniram num terreno perto da Paulista para fazerem a avaliação. "Atingimos nossa meta", comemorou o comandante. "Não houve feridos graves e fizemos barulho."

O orgulho continua hoje: "Foi a ação maior do CCC". José Celso reconhece: "O CCC venceu. Uma geração inteira do teatro foi tragada."